Por dentro dos dias - BarreiroA vida transporta a palavra gratidão para o nosso coração
Ergueu o braço e gritou : “O So..o So..O Sosa o Sosa Pera”.
Chorava. Ria-se. Remexia-se na cama. As minhas lágrimas saltaram os olhos e os nervos.

Por Jornal Rostos
Há dias que marcam a vida por dentro dos dias, aqueles dias nos quais todo o tempo se espelha, de súbito, em instantes, palavras ou gestos, acontecimentos, que trazem emoções, lágrimas a dar sentido a todo o tempo.
Ontem, foi um desses dias. Fui visitar a Santa Casa da Misericórdia do Barreiro. Vi rostos conhecidos. Mergulhei na memória de situações e contextos, ali, sentidos nos nervos.
No final da visita, quando entrevistava a Sara Oliveira, Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, numa cadeira ao lado, alguém apontava para mim, olhei e não reconheci. Mas, senti aquele olhar e o dedo em riste, erguendo-se da cadeira e dirigindo-se para mim. Voltei a olhar e procurei, em segundos, encontrar aquele rosto na minha memória. Olhei o seu sorriso que se misturava com lágrimas, enquanto abria os braços para me abraçar. Por acaso, dizem, até era o dia do abraço.
E, naquele instante vi aquele rosto rasgar o tempo e reencontrei-o, ali, diariamente, no Café da SFAL.
“É a mãe do Toino”, disse eu. Dei-lhe um beijo. Abracei-a. Ela abraçou-me, de lágrimas nos olhos. Perguntou-me pelos meus meninos. Perguntou pela professora Lurdes.
Eu perguntei-lhe : “E O Toino, onde está o Toino”.
“Está lá em baixo”, comentou a Sara.
“Eu quero ver o Toino”, disse.
Lá tirámos uma selfie. Eu e a mãe do Toino. Aos anos que eu não via a D. Adrialete, nem o Toino. Nem sabia que estavam na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro.
Foi uma agradável surpresa este reencontro.
Depois desci. Vim para ir ver o Toino que estava acamado. Chegámos junto à cama. Ele mexia-se. Olhava. Perguntei-lhe se me conhecia. Olhava. Desviava o olhar e remetia-se ao silêncio.
Aproximei-me mais dele. Voltei a perguntar se me estava a conhecer. Ele ignorava.>
“Sou o Sousa Pereira, da SFAL. Lembras-te?”. interroguei.
O Toino abriu os olhos. Os seus olhos grandes. Fixou-me. Começou a rir e uma lágrima caiu dos seus olhos misturada com sorrisos.
Ergueu o braço e gritou : “O So..o So..O Sosa o Sosa Pera”.
Chorava. Ria-se. Remexia-se na cama. As minhas lágrimas saltaram os olhos e os nervos. Um momento único, inesquecível. Uma ternura feita de lágrimas e sorrisos.
“O So..Sosa Pera”, repetia o Toino. Com um sorriso sentia-se feito de veludo e felicidade. Eu limpava o canto dos meus olhos, disfarçadamente.
Ali, estive uns momentos. Antes de sair dei-lhe um papel com meu nome e número de telefone.
“Ficas responsável por não deixar ninguém entrar e incomodar as pessoas. Se te disserem alguma coisa diz que fui eu o Presidente que mandei”, disse-lhe.
Ele ria-se. Ria-se mesmo. Gargalhava. Percebia o que estava a dizer-lhe. Recordava.
Na SFAL, eu costumava dar-lhe um a papel e dizia-lhe para ficar ali, num sitio, quieto, sem deixar passar ninguém, ali ficava, junto a uma mesa, num canto, onde ninguém passava. Ele ali ficava horas, quieto a cumprir o serviço. Era a forma de ele estar ali, e, contrariar aqueles associados que criticavam a sua presença e da mãe, no espaço do Café. Exigindo até que fossem tomadas medidas e proibir a sua entrada. Resisti e nunca aceitei essa discriminação. Coisas.
Quando lhe dei o papel, ali, na cama, ele agarrou e sorriu. Até parecia que estava a entender.
“E, vais à SFAL e não deixas entrar ninguém”, disse-lhe.
Ele ria. Sorria. E, até ergueu o punho, com toda a energia, bem alto, enquanto as lágrimas se soltavam nos seus olhos.
Escrevo este reencontro com o Toino. Porque, digo-vos, são daqueles instantes que a vida, transporta a palavra gratidão para o nosso coração.
Aquele abraço e beijo da mãe do Toino. Aquelas lágrimas, aqueles sorrisos do Toino, aquele punho erguido, aquele dia de ontem, aquele momento, inscreveu-se nas raízes dos meus neurónios. Uma verdadeira sinapse, daquelas que nascem na raiz do tempo, todo o tempo que é, afinal, o que faz a nossa vida, aqui, vivendo com a palavra amor.
Não há nada no mundo que seja mais belo que esta ternura que nos toca, assim, um beijo de emoções, tão forte, tão forte…que pensei - é isto a felicidade!
“O So..o so..o sosa pera..o sosa pera”!!
Porra Toino, fizeste explodir o meu coração em lágrimas de ternura. Obrigado!
António Sousa Pereira













