Por dentro dos dias – BarreiroA vida é uma tela.

Por Jornal Rostos
A vida que todos nós vivemos, que cada um de nós vive, é feita de uma permanente rede de emoções, essas, que se inscrevem e fazem o tempo que somos.
A vida é uma engrenagem, que tanto nos puxa para cima, como nos empurra para baixo, que nos tritura, que nos esmaga, que nos dilui e transforma, nesse caminho e caminhos que vamos percorrendo, até, ali, aqui, o lugar onde estamos e somos.
A vida é isso, esse imenso mar por onde navegamos em ondas azuis, bordadas de branco. Sorrimos mergulhando no mar salgado. Choramos sentido o cloreto de sódio rasgar os nervos.
O que faz, afinal, a nossa vida, é sentirmos que somos capazes de superar as dificuldades, viver os momentos de angústias, sentir os dias feitos de flores, tudo isso, quando tocamos a única coisa que é intocável, essa, que nos faz todos os dias nos reencontramos com a nossa interioridade. É aí, acreditem, que somos. Nesse lugar encontramos todas as cores e sons que emergem de todo o universo que é a nossa temporalidade vivida.
Uma vela que cintila num poema, numa tela ou num som.
Nós somos o tempo, todo o tempo, esse, que vem de um grito, um choro inicial quando começamos a viver, até, ao grito silencioso da partida. A eternidade. Essa eternidade que faz a harmonia dos nervos.
Neste percurso, que fazemos vamos indo, vamos ficando, vamos fazendo. Vivemos. Há vida que faz a nossa vida, essa que moldamos por dentro dos ossos, essa que tricotamos nos dedos feitos palavras, essa que pintamos nos olhos coloridos de luz, essa que se faz som em ecos de sol, cânticos.
Essa que se diz partilha de instantes, momentos, registos, lugares, noites, dias, paisagens, textos e contextos, situações, emoções, pensamentos, lágrimas, sorrisos. A vida é uma tela.
Nós aprendemos a ser quando vamos sendo e não somos sozinhos. Só somos com os outros, com outros, com outras, somos na diferença, na diversidade.
Há pessoas na vida que nos ajudam a descobrir o outro lado de nós, ou, até a sermos nós mesmos, pela ironia das palavras, pelo elogio, pela amizade, pela postura resiliente, pelos momentos vividos na porosidade da noite e do nascer do dia, pelas cores, pela luz, pela forma, pela substância, pela criatividade.
No meu percurso de vida, por mais que uma vez me colocastes desafios, inesperados. Escreve-me o texto para o catálogo da minha exposição. Podiam ser a noivas, ou miragens ou apenas um olhar sobre o Tejo e o alem tejo…o cerco dos dias!
Podia ser aquele escrito de um palhaço a sorrir da magia de si mesmo, em torno da palavra amor, que, naquele olhar se escrevia apenas dor.
Podia ser, naquelas brincadeiras tuas e do Augusto Cabrita, em torno de um Barreiro florido.
Ou aquele livro de poemas, onde os dois mestres cantam a vida, e, eu, autor, junto as duas energias no seu ritmo e na vida.
Como te dizia, hoje, pela manhã, no dia do teu aniversário, tenho por ti uma grande consideração, porque admiro a tua obra, a tua imensa criatividade.
Como te dizia hoje, pela manhã, recordo sempre o teu aniversário, e, uma das razões é que fazes anos no mesmo dia do meu irmão Humberto – que nunca conheci e faleceu bebé – e tu, para mim, és um irmão. Aquele irmão que perdi, foi sempre assim que te vi, desde aqueles dias que, a nossa amiga comum, Maria Rosa Colaço – que me tratava por irmão – nos uniu, num texto lindo que escreveu no Tejo a olhar para o Barreiro.
Talvez, um dia, o Barreiro descubra o quanto te deve e seja capaz de colocar acima, das tuas maluquices e loucuras, um olhar sobre a tua criatividade.
Mas, sabes, eu que já aprendi que viver é nunca desistir e ter coragem de olhar nos olhos – assim olhos nos olhos – todos os senhores que em todos os tempos se acham senhores do mundo, percebo-te, e, neste dia do teu aniversário aqui fica um abraço que escrevo com três palavras – Liberdade, Igualdade, Fraternidade!
Sorri, eu sei que sorris, até porque já te vi chorar –sorrindo. Abraço.
António Sousa Pereira
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