Por dentro dos Dias - BarreiroNunca é tarde para viver a própria vida.

Por Jornal Rostos
Um dia é um tempo imenso para nos encontramos e reencontramos. Chega um tempo que a alegria da vida reside no sentir os dias por dentro, assim, entregues aos pensamentos que se transformam em acção. Viver.
Cada vez mais, sinto um enorme cansaço de tocar os dias com os nervos, à flor da pele, isso, de facto, é para aqueles que vão mudar e transformar o mundo.
Eu prefiro acordar, enquanto acordar, e, serenamente, seguir por dentro dos dias, com as emoções que fazem nascer o quotidiano e pensar o tempo que vivo. Vivendo.
Encontro a mãe da Rute. Cumprimentamo-nos. Ela diz que espera mais um neto. A Rute diz que quer ter uma equipa de futebol. É bom, o Barreiro e o país precisa de gente nova, gente que abre as portas do futuro.
Passa por mim um vizinho, com seu cão pela trela.
“Lá tem que ser”, comenta. “É vida”, respondo. Ao mesmo tempo penso naquele poema de Álvaro de Campos, que, na Tabacaria, recorda os cães, que também existem. É vida.
O Reis, lá vai, de caixa de bolo nas mãos e com um ar sorridente. “Então, quem faz anos hoje?”, pergunto.
“Sou eu”, respondeu. “Quantos?”, interroguei. “São 82”, sublinha. “Uma idade linda”, comento. Ele sorri e diz – “São 28”.
O Reis acompanhou-me nas lides do associativismo, integrou direcções e dedicou, como muitos, um pouco de si para fazer um mundo melhor. Afinal, quando vamos percorrendo os dias, e olhamos para o tempo vivido, o que enche o nosso coração é sentirmos que vivemos fazendo, construindo e legando futuro. Isso é que conta.
Fui comprar o jornal. Sento-me na esplanada. Leio as últimas do meu país. “Avenças fictícias alimentavam ‘saco azul’ do PSD. PJ acredita que dinheiro servia para pagar quotas e despesas de campanhas”.
E por essa Europa, “Itália sobe a parada e deixa Merkel em posição ainda mais difícil”.
“Marcelo e Trump discutiram plano para Portugal atingir meta de despesa da NATO”, rotinas da diplomacia.
Como diria o outro, que foi condenado – “Apesar de tudo ela gira”. É isso o mundo gira. Os juros na Europa parece que, em breve, poderão começar a subir, também é noticia de hoje, assim, na verdade, o presente começa a dar a entender o que nos espera nos dias de amanhã. Que interessa isso, o que é preciso é festa. A malta quer é divertir-se.
É sempre o presente que anuncia o futuro. É sempre o presente que faz o futuro.
Continuo sentado na esplanada. Leio o jornal, calmamente e medito sobre a aquela frase de Fernando Pessoa – “No fundo, o homem religioso é um hedonista”. Recordo Cabós Gonçalves, ontem homenageado no «Barreiro Reconhecido». Ele que se afirmava um hedonista e que dizia tinha estado no lado de lá, num túnel, entre a vida e a morte e regressou para retomar os dias na vida.
Esta é uma certeza que todos temos. Um dia partimos. A nossa eternidade será a memória daquilo que fomos.
Alguém conversa numa mesa ao lado, sobre a vida, os dias recentemente vividos no Hospital. Foi complicado. “Estou melhor”, dizia.
Esta conversa fez-me lembrar duas viagens de barco que fiz um destes dias. Ali, sentados a navegar no Tejo, escutamos conversas, principalmente daquelas pessoas que gritam quando conversam através do telemóvel. “Ele não quer saber nada do filho”. “A minha amiga vai ser minha fiadora, ela trabalha no estado, é garantido”. “Vou agora ao Hospital, ver a minha mãe está muito mal”. “Oh amor, estou a chegar, espera por mim no sitio do costume”. Olho, assim com curiosidade, para perceber quem é o apaixonado. Penso deve ter os seus 80 anos. Sorriu.
Afinal, nunca é tarde para amar.
Sim, como nunca é tarde para viver a própria vida.
António Sousa Pereira













