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Inferências

A(nota)mentosBarreiro –uma terra feita de muita gente vinda de muitos lados

Perde-se no tempo, na minha memória, o dia nos finais dos anos 70, quando num texto escrevi esta frase, sobre o meu sentimento sobre o Barreiro –uma terra feita de muita gente, vinda de muitos lados.

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A(nota)mentos Barreiro –uma terra feita de muita gente vinda de muitos lados

Por Jornal Rostos

Foi este sentimento que sempre aqui encontrei, uma terra que muitos, muitas vezes escutei, afirmavam que o Barreiro era uma boa mãe, mas uma madrasta para os seus filhos.
Barreiro tem essa génese que se perde na memória de gente vinda de muitos lados, dizem primeiro dos Algarves – que estão na génese dos pescadores da muleta e dos Camarros – depois, da zona de Odemira e também de Silves - há estudos demográficos que o confirmam - aqueles que vieram, com a cortiça e forjaram a primeira onde de cultura operária de fábrica, como diz o historiador António Camarão, aquelas fábricas que moldaram muito do seu tecido urbano que se fundiu com a linha férrea e com a zona ferroviária.

Depois, veio a CUF e com esta empresa, a migração marcou décadas da vida local – ora da zona de Abrantes, ora de S.Pedro do Sul e Estarreja, ora dos mais diversos recantos do Alentejo e do Algarve, e, dizem, com as greves de 42, 43 e outras, chegaram os oriundos das Beiras.
Formaram famílias, famílias que se ligavam umbilicalmente à fábrica. Famílias com vida própria. Pais que davam passos ao nível da formação industrial, nos mais diversos ramos e que depois, levaram seus filhos a estudar, os doutores e engenheiros, filhos de operários. Esse orgulho de ser do Barreiro.
Porque ser do Barreiro era ir mais além, era superar o sistema, ser culto – libertário e libertador. Emancipado. Terra de valores, que se orgulhava dos seus filhos. Terra que sabia, que nem só de pão vive o homem.

Depois veio a onda do pseudo desenvolvimento urbano. As fugas de Lisboa. Os que trabalhavam em Lisboa e viviam no Barreiro, que não optavam pela Margem norte e fizeram crescer a Margem Sul.
O outro Barreiro. O Barreiro que ficava para lá da linha. O outro Barreiro que não era a Vila.
Gente vinda também ela de muitos lados que se integrava, que gerava nova vida associativa, porque a vida associativa foi sempre o espaço de sociabilização. Não de acolhimento. Eram as portas que se abriam para integração numa vivência cultural e social, com características muito próprias.

Depois do 25 de Abril, o Barreiro recebeu muitos que regressaram das antigas colónias. A Cidade Sol foi um dos mais belos exemplos de sociabilização. Um Bairro moderno, com uma ocupação do território, do fazer cidade, visitada por muitos universitários, nos anos 80,como caso de estudo e de referência.
Foi sempre isto o Barreiro. Uma terra que se forjou com gente vinda de muitos lados.
Nunca foi uma terra de acolhimento. Foi uma terra de inclusão. Uma terra onde, é rara a pessoa que vem para cá viver e que, com todos os seus defeitos e lacunas, passado algum tempo afirma: Gosto de viver aqui, não por ser uma terra com potencialidades, mas por ser uma terra marcada por uma cultura de solidariedade.
Como dizia a minha amiga Rodic, da associação moldava MIORITA – “ontem nasceu uma criança, nasceu a filha da Eugénia, Moldava, que deu a Portugal um filho, que é Luso Moldavo”.
É isto o Barreiro. Eu que também não sou de cá, também costumo dizer, que esta é a terra dos meus filhos.
É por isto, por tudo isto, que acho que o Barreiro nunca foi uma terra de acolhimento. É uma terra feita de muita gente vinda de muitos lados, quando o Barreiro começar a ser uma terra de acolhimento, é porque começou a entrar numa nova fase da sua realidade histórica e sociológica. Pode continuar a ser o Barreiro, mas, não é, não será jamais uma terra de integração e sociabilização.
Porque, afinal, só acolhe quem olha para os outros como estrangeiros ou refugiados…

António Sousa Pereira

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