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Inferências

Por dentro dos dias – BarreiroPorta do Tempo – Um Pórtico feito de memórias que fazem a cidade que somos

Naquele pórtico está o Barreiro que foi, o Barreiro que já não é, o Barreiro que é e o Barreiro que há-de ser, sempre feito de memórias diferentes.

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Por dentro dos dias – Barreiro Porta do Tempo – Um Pórtico feito de memórias que fazem a cidade que somos

Por Jornal Rostos

Está ali, erguido imponente, residual, como se monumento fosse, ou talvez, uma fronteira desactivada, que não se quer esquecer, porque, afinal, era naquele lugar que a Vila se ligava à fábrica e a fábrica se ligava à Vila.
Era, ali, naquele lugar, contam os antigos que chegava a camioneta trazendo passageiros, ao encontro da Vila.
Aquele era o largo da fábrica grande, enorme, de muita gente vinda de muitos lados, de milhares e milhares, que pela manhã numa corrente humana, tal rio de gente, a pé ou de bicicleta, entravam num mundo solidário, feito de famílias – pais, mães e filhos. Porque a fábrica aqui foi, sempre, feita de famílias, um testemunho de pais para filhos.

De repente dou comigo a olhar para aquele pórtico, assim, como quem olha para uma porta do tempo, aquele espaço no espaço que se abre ao passado, ao presente e ao futuro.
Aquele pórtico, ergue-se sublime, numa beleza única, porque ele, na verdade, é mais que betão, é uma porta aberta à temporalidade, é como se fosse uma miragem, um passe-partout, uma moldura, a porta para a vila, ou a janela para a cidade. Tem uma beleza que se inscreve nos nervos, na memória, no tempo, no sangue, é tudo isso que lhe dá dimensão estética, emocional e racional.
De contrário, como tudo o que não se sente e não se pensa, seria rotulado de um mamarracho. É assim que acontece quando não se sente o significado do ferro, que enferruja com o tempo, molda-se, transforma-se, e, do cimento que se afirma com uma textura de perenidade. Imutável. É a tal diferença entre a democracia e a ditadura.

Os lugares na vida de uma cidade têm um simbolismo próprio e memórias. Ali, o Largo das Obras, completamente remodelado, é, um desses lugares onde as memórias estão vivas. Sentimos os passos que lá não estão. Escutamos o burburinho humano dos portões ao abrir, todos os dias, no final dos turnos ou de mais um dia de trabalho normal.
Vemos as baias a erguer-se para deixar o carro passar, agora, já não para a fábrica, mas para o Parque Empresarial.
Naquele pórtico está o Barreiro que foi, o Barreiro que já não é, o Barreiro que é e o Barreiro que há-de ser, sempre feito de memórias diferentes.
Nos dias de hoje, quando vejo grupos de jovens, por ali, a passear e a conversar amenamente, sinto e penso, que esta geração já não sente a cultura da fábrica, sente apenas aquele sentimento expresso pela obra de Vhils, virtual e de uma beleza universal, essa feita deste tempo que se inscreve nos nervos, igual, aqui, em Londres, Sidney ou Nova Iorque.

Há quem diga que, por ali, por aquele pórtico, um dia podemos entrar para um “cluster de indústrias criativas”, espaço de referência criativa na Área Metropolitana de Lisboa. Ao fundo o mural de Vhils, acena a sorrir.
Outros falam, que aquele é a porta para entrar no mundo das“startups”, de gente nova e empreendedora, voltado para as novas tecnologias.
Há ainda quem veja naquele pórtico o ponto que marca a entrada e saída para um Terminal de Contentores.

Aquele pórtico, ali, paredes meias com o Barreiro centro e Barreiro Velho, entre edifícios modernos que espreitam dos lados do Forum Barreiro e, aqueles em ruínas, sem donos com rostos, talvez geridos por off shores, é bem uma moldura do Barreiro.
Sim, essa tal terra com muitas potencialidades, com um território - verdadeira pérola – que continua a estar por ali, sem nexo, apenas mantendo-se erguido sóbrio e solene, tal como um pórtico com memórias no tempo.

E, por fim, por ali, sempre presente, frente ao pórtico, está viva essa cultura de apontar o dedo e encontrar culpados, sim, viva, bem viva, naquele edifício que se ergue, sobriamente – envelhecido e ténue - frente ao pórtico, dizem que é o lugar onde se pensa o território, onde tudo se discute e planeia, aquele edifício que olha olhos nos olhos o pórtico, e, sente que não tem soluções, porque apenas pensa e nada pode decidir, porque, afinal, as decisões estão na outra margem.

Dei comigo a percorrer aquele lugar, sentir o pórtico, olhar o pórtico, tocar com os olhos a distância e pensar, que ali, aquele pórtico é, sem dúvida, uma porta do tempo. O tempo que fomos. O tempo que somos. O tempo que havemos de ser.

Aquele é o nosso «Arco do Triunfo», memória do que fomos, ou, talvez, o nosso «Arco da Rua Augusta» - a porta do turismo - que talvez um dia, possa cá chegar…afinal, por ali, vamos para o passado, sentimos o presente e sonhamos futuro.
Está tudo ali, basta pensar e sentir…aquele é mesmo o pórtico do tempo!

António Sousa Pereira

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