Por dentro dos dias – Barreiro>O associativismo não é uma ideologia

Por Jornal Rostos
Faz hoje, dia 10 de Julho, 45 anos que fui admitido como sócio da SFAL, era, então o Presidente da Direcção o meu amigo Hernani.
Pela manhã, lá fui visitar a Colectividade. Fiz questão de estar ali, hoje, a olhar e sentir aquele espaço, onde sinto, está muito do que foi o tempo que vivi nesta terra e nesta vida.
A SFAL faz parte da minha vida. A minha vida cruza-se com a SFAL. Vivi ali momentos inesquecíveis. Fiz ali muitos amigos, esses é que contam. Os outros fazem parte daquilo que ignoro. Eles existem, sempre existirão.
Quando pela manhã fazia umas fotografias no Café Bar, alguém comentou: “Esta é uma obra sua...”. Disse que sim, esta e a outra na «Ala Nascente», foi minha e das equipas com quem trabalhei. Lutamos e construímos. Fazer vida. Fazer associativismo. Foram muitos momentos duros, que ficaram inscritos, ali, em obra feita, um legado ao futuro. É isto que dá alegria e prazer, porque, para além disto, há, também muita ingratidão.
Mas, afinal, o bichinho da SFAL passei para a Lurdes, que de forma abnegada e de uma entrega total, lidera uma equipa de jovens que, com paixão, continua a manter viva esta chama do associativismo na vida Lavradiense. Tiro o meu chapéu. Isto do associativismo ou se vive com prazer, ou então, quando é por sacrifício e cansaço não vale a pena. Há um tempo para estar e outro para partir. Os meus votos são que a Lurdes e os jovens que por ali se dedicam continuem e mantenham viva essa porta aberta à formação e fruição de desporto, cultura e lazer.
Sei que é difícil, cada vez mais difícil, porque os tempos cada vez são mais diferentes e fazer associativismo nos dias de hoje, em nada, mesmo em nada, é igual aos anos 70, 80 ou 90.
O mundo mudou…mudou mesmo.
O associativismo nos dias de hoje, carece de uma profunda reflexão, sendo um dos instrumentos centrais na valorização do fazer cidadania, num mundo marcado por vivências sem rostos, é, de facto, essencial reanalisar a forma e a substância do fazer associativismo, no contexto do fazer cidade.
A mim, como homem, com ser humano, o associativismo marcou-me na forma de ser, pensar e sentir o mundo, ali, aprendi a viver com as diferenças, a sentir que há coisas que se fazem e constroem para além, muito para além da luta politica partidária, porque a aprendizagem da música, a formação física, a fruição cultural e recreativa é para todos os que vivem e são cidadãos, hoje e aqui, é isto o associativismo uma escola de vida e de liberdade.
Aqui aprendemos – eu aprendi - a viver com os outros a sentirmos os outros, aprendemos a olhar a sentirmos que mais que um «eu» somos um «tu» - somos com os outros, fazemos com os outros nas diferenças.
Foi sempre assim que vivi o associativismo, com humanismo, porque o associativismo não é uma ideologia – o associativismo é a cidade em movimento, e, o movimento é vida! É semente, flor e fruto.
A vida faz-se no respeito pelas diferenças, na pluralidade, mas nunca, mesmo nunca, cada um abdicando de ser o que sonha e dos seus ideais.
Uma associação é um espaço que une vontades, diferentes, na construção de um querer comum – fazer cidade e sentir a cidadania!
O associativismo é uma escola de LIBERDADE - com adesão voluntária; DEMOCRACIA - com gestão democrática; CRIATIVIDADE – dar vida à cidade; SOLIDARIEDADE – ser parte da comunidade; HUMANISMO – ser com os outros, fazer com os outros.
Foi isto que aprendi como associativista. É isto que para mim contará sempre como associativista.
Obrigado SFAL!
António Sousa Pereira
Nota – Faz hoje 14 anos que faleceu Maria de Lurdes Pintassilgo que um dia afirmou : “A criatividade individual encontra terreno fértil em todas as formas de associação onde estão patentes a comunidade de interesses e de afectos.” É isto o associativismo.













