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Inferências

Por dentro dos dias - BarreiroFuturo está sempre vivo em cada presente

E no final, de todo o tempo que vivemos, o que fica sempre, afirmando-se como o mais importante, é sentir que no viver, na verdade, aquilo que nessa vida está acima de todo o preço – como bem dizia Kant – é a dignidade!

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Por dentro dos dias - Barreiro Futuro está sempre vivo em cada presente

Por Jornal Rostos

Gosto de viver os dias assim, lentamente, com os olhos a moldar as cores, despertando as emoções, assim como quem recomeça, no nascer de cada dia, um novo tempo. Acordar. Sorrir. Um ritual. Os passos a tocar os pensamentos.
Escuto o som do comboio, na distância, a cruzar a Quinta da Várzea, pontual, sempre pontual, a marcar o ritmo do tempo. O comboio continua a marcar a paisagem, e, ali, naquele lindo canto de ternura, está aquele espaço residual de uma ruralidade, uma história territorial, essa, que aqui, antecedeu a industrialização.
A Quinta da Várzea é um oásis do século XIX, naquele cantinho onde o concelho do Barreiro, abraça o concelho da Moita. Um monumento único que devia ser classificado de interesse municipal.

Olho, o comboio altivo, pintado de graffiti colorido, e, naquele momento, até, sou capaz imaginar, num voo por dentro do tempo, que, afinal, por ali, naquela mesma linha, em tempos idos, passou numa carruagem real, e lá dentro, a olhar as salinas e as vinhas do bastardinho, o nosso rei de Portugal, D. Carlos, certamente a sorrir e a conversar, umas horas antes de atravessar o Tejo, chegar ao Terreiro do Paço, e, no coração da cidade ser assassinado, naquela tragédia humana que era o sinal de uma época que, cada vez mais, começava a negar a monarquia, num debate acesso que se forjava nas tertúlias, onde a República fervia na vida quotidiana.
O futuro está sempre vivo em cada presente, nós, muitas vezes é que o ignoramos, ou preferimos ignorar com ilusões.

Pouco depois, sento-me na esplanada, no meu café matinal. Leio as notícias de hoje que são de ontem. O caso Ricardo Robles é tema sobre ele, as mais diversas tomadas de posição, comentários, análises e reflexões.
Encosto-me na cadeira e a única coisa que me ocorre, ao pensar sobre este assunto, é aquele maravilhoso texto de Fernando Pessoa - «O Banqueiro Anarquista». É tudo, sem mais comentários.
Um livro que, recordo, lê-se rapidamente, ali, fica tudo esclarecido sobre este assunto, quer no plano politico, filosófico, económico, social e humano. Ali, Fernando Pessoa, fui rebuscar, esclarece que – “o mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepõem às realidades naturais”. Leiam. Irónico e real.

Curioso, hoje, pela manhã, encontrei no Forum Barreiro, o Carlos Mauricio, ex-vereador da Câmara Municipal do Barreiro que um dia me chamou ao seu Gabinete, para me formular um convite.
Eu estava há cerca de cinco anos na prateleira, aqueles lugares pomposos que existem na função pública para colocar alguém que é «persona non grata».
Ele, convidou-me para assumir a coordenação da Protecção Civil. Uma experiência que vivi com intensidade e muita paixão. Gostei, até pelo legado profissional que me orgulha.
Uma proposta que surgiu num momento crucial, porque, de facto, na época estava quase a atingir os limites de resistência humana de alguém que na vida profissional está sujeito a viver os dias sem objectivos, sem missão, sem dignidade.
Ali, quotidianamente, o que resistia era a esperança. Doeu tanto. Ainda nos dias de hoje acho que sofro os efeitos pós-traumáticos desses anos de marginalidade.
Desejo dias diferentes e melhores a todos aqueles que, um dia, por alguma razão, tenham que sentir na pele essa vivência da prateleira, que por vezes, marca o funcionalismo público.
A ida para a Protecção Civil foi, para mim, numa boia de salvação um reencontro com a vida e com a realização que qualquer ser humano deseja para a sua vida profissional – ter objectivos de vida, sentir que trabalha e com o seu trabalho ajuda a transformar a cidade.
Por isso, ainda hoje, agradeço ao Carlos Mauricio esse seu convite, que surgiu num tempo em que, entre mim e ele, de facto, já existia uma ruptura de opções politicas.
Ele disse-me: “O que apenas exijo de ti é lealdade”.
Ser leal é respeitar o espaço de cada um, é cumprir a missão, é assumir com profissionalismo e entrega a função e realizar com total desempenho. Foi o que fiz.
E, isso não me impediu de continuar a fazer a minha acção civica e social e manter as minhas diferenças, com dignidade e coragem. Nem fui seu apoiante a candidato à presidência da Câmara. Estive ao lado de Emídio Xavier, que venceu as eleições. E, engraçado, o Carlos Mauricio ficou, por algum tempo, com o pelouro da Protecção Civil. Coisas das voltas da vida.
Gostei de encontrar, hoje, pela manhã, o Carlos Mauricio, trouxe-me estas recordações.
E, na verdade, a nossa vida é tudo o que somos e tudo o que somos está em tudo o que recordamos.
É giro, é mesmo giro, as coisas que acontecem num dia, num só dia, que fazem sentir e pensar a vida, e imaginar as voltas que a vida dá – ela mexe-se!
E no final, de todo o tempo que vivemos, o que fica sempre, afirmando-se como o mais importante, é sentir que no viver, na verdade, aquilo que nessa vida está acima de todo o preço – como bem dizia Kant – é a dignidade!

É por isso, só por isso, que pela manhã gosto de escutar o som do comboio, no seu vai e vem, ou escutar o cão a ladrar, os pássaros a voar e, com tudo isto, fico feliz, porque não tenho mais nenhuma ambição senão fazer de cada dia um tempo para viver, sorrir, meditar e amar.

António Sousa Pereira

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