Por dentro dos Dias - BarreiroA Liberdade é o motor da história.

Por Jornal Rostos
Ontem, estava sentado a beber o meu café, após o almoço, numa mesa ao lado, alguém falava ao telemóvel. Era uma conversa partilhada. Daquelas que as pessoas falam alto, bem alto, a gritar, porque estão a falar com alguém que está distante e, de facto, caso não gritem certamente não são escutadas do outro lado. É vida.
Eu, procurava desligar, porque quando quero, sou capaz de estar num espaço com dezenas de pessoas e, estando por ali fisicamente, arranco para um isolamento total, ou com a leitura que me envolve, ou, até mesmo fechando os olhos e partir para dentro do silêncio do meu cérebro.
“Ela diz que está um mau olhado sobre ti. Há um muro na tua vida”, comentava.
Não sei o que respondiam do outro lado, mas, pelos comentários que escutei, sentia-se que alguém estava com algumas inquietações.
Desliguei. Mas, voltei a escutar a conversa quando a pessoa começou a andar, e, ali, em pé, mesmo ao meu lado, dizia: “Não te preocupes. O que te posso dizer é que ela gostava de um dias destes ver a tua mão”.
Isto não é nenhuma novidade. Em todos os tempos são vividas crenças e crendices, porque, afinal em todos os tempos há a luta entre o bem e o mal.
Assim como em todos os tempos há compras e vendas de casas e terrenos, de mansões ou palheiros, nesse eterno confronto das perdas e o ganhos. O negócio dos números. Lucros. Juros.
“Fui beber um café e pedi ao senhor para colocar um pingo de leite. Ele disse que sim, mas que o pingo eram 30 cêntimos”, esta era outra conversa que ecoava, ali, naquela manhã de Agosto.
“Voltei a interrogar se o que estava a pedir, os 30 cêntimos, era mesmo verdade”, salientava a pessoa.
“Ele disse que não. Mas aquele preço era para que o cliente soubesse que o leite tem custo. Ainda bem que o fez, porque eu ia pedir-lhe para me entregar o Livro de Reclamações. Ele há com cada uma neste mundo”, expressava, bem alto a sua indignação.
Dou comigo a pensar que isto são situações banais. É vida. Duas realidades que marcam a vida da humanidade ao longo da sua existência. As crenças e não crenças. Os valores materiais do comprar e vender. Negócios.
Penso em tudo isto e vejo as gaivotas a esvoaçar. O céu está azul. O sol aquece.
Estamos em Agosto. Nestes dias só me apetece parar e esticar as pernas na areia da praia.
Desde criança que a praia, o mar, fazem parte do meu sentir a vida. O mar dá-me energias.
O mês de Agosto tem uma marca especial na minha vida. Escolhi sempre este mês como um tempo de reflexão, de pensar os dias vividos e recomeçar um novo ano de actividade.
Nas minhas idas para o Baleal, sentava-me com o meu «Caderninho» e anotava ideias, projectos sonhos. A minha amiga Gisa, falava do meu Caderninho com as marcas das gaivotas.
Tantas ideias. Tantas propostas. Foi ali que nasceu o artigo que gerou toda aquela movimentação de repúdio da ETRI.
Foi ali, no Baleal, que no ano de 2001, quando por ali caminhava, com as ondas a rebentar nos meus pés, olhei a distância e recordo como se fosse hoje – “Vai ser agora. Acabou. Vou daqui e vou registar o «Rostos»”. Era o meu não ao ser funcionário público. Ponto Final. Viver um tempo outro, criando e sonhando.
E, de facto, no dia 8 de Agosto de 2001 estava confirmado o registo oficial do título. Uma decisão que marcou muito da minha vida nos últimos 17 anos. Apesar de tudo, valeu a pena. Sonhei. E continuo a sonhar.
Em Agosto, dez anos antes, há também uma data que está gravada na minha memória. Foi o desmoronar de ilusões. Acontecimentos que marcaram muito do meu futuro.
Estava de férias na minha terra – Vila Real de Santo António – quando surgiu aquela notícia dos acontecimentos que marcavam de forma irreversível o fim da URSS. Era o dia 19 de Agosto de 1991. As notícias chegavam em catadupa. Eu sentia-me perdido, numa confusão de sentimentos. Tristeza. Um corte total com a história e as memórias.
Havia um amigo meu que gozava com a situação, dizia ele : “Se aquilo não é o povo onde está o povo”.
Eu precisava de conversar, dialogar, reflectir, sentir e pensar. Aquele gozo, deu-me a volta ao estomago e aos nervos, e, na verdade, quase que por aqueles dias morreu uma relação de décadas que, depois, manteve-se a partir daí, com muita frieza.
Foi o Gil que me aguentou e eu aguentei o Gil, percorremos quilómetros pelas areias da Praia de Monte Gordo, a conversar e a discutir aqueles acontecimentos de 19 de Agosto. Foi uma ruptura total com quase 70 anos de história da humanidade. Um repensar. Um sentir. Tudo para mim significava começar de novo.
De facto, tudo aquilo já andava no ar, sentia-se, murmurava-se. Mas cair tudo como um castelo de cartas, tal como eu tinha visto a acontecer no meu país, num dia de Abril, isso, fez uma cicatriz muito grande e fez-me sentir a força da Liberdade.
A partir desses dias escrevi a minha frase de eleição – a Liberdade é o motor da história.
E sonho, continuo a sonhar que essa energia é de facto a força motivadora e transformadora que faz o mundo avançar, assim - como bola colorida - porque a Liberdade, é feita de todas as cores e do respeito pelas diferenças.
António Sousa Pereira













