Por dentro dos dias – BarreiroHistórias e estórias dos lugares e das pessoas
A ligação do Barreiro ao Brasil era de facto uma perspectiva gira de promover, ali, naquele país, quer o concelho do Barreiro, quer a região de Setúbal. Uma ideia que defendo. Talvez um dia alguém decida avançar.

Por Jornal Rostos
Tenho um ritual diário, a compra do jornal e sentar-me, tranquilamente, a ler as notícias que fazem este tempo que vivo. Estar informado, ao menos para sentir o pulsar do mundo. Gosto de sentir o cheiro do papel. Tocar-lhe.
Em dias sem agenda, saio de casa e lá vou calmamente. Vou cumprimentando os vizinhos. Um que vai dar o passeio com o seu cão. Outro que fuma o cigarro matinal.
Vou sentindo o dia – frio ou calor, chuva ou vento - essas sensações que nos levam a tocar com o olhar as cores do céu, onde há sempre uma ave a rodopiar no horizonte.
No percurso encontramos de tudo, e, o começo do dia é sempre a primeira lição de vida – não penses que gostas de toda a gente, nem penses que toda a gente gosta de ti. Foi sobre isso que falei com a Cândida, no café Bar da SFAL. Uma mulher que entrou para ali adolescente, ali cresceu e tem sido uma peça importante nas várias fases daquele espaço económico.
Um Café Bar que foi rei e senhor, até era o definidor dos preços, num tempo, onde só era permitida a entrada de sócios. Naquele tempo que só existiam dois ou três cafés na vila.
Um Café Bar que foi um legado de uma geração de gente que viveu a SFAL como uma enorme família, por exemplo o Ti’ Jerónimo Alves ou Augusto Martins.
Depois, com o início da desindustrialização o Café Bar da SFAL, sofreu o impacto da proliferação de cafés, que começaram a nascer quase rua a rua, alterando completamente o mercado local e o domínio que existia imposto pelo grande café da «sociedade».
E, ainda, nesse tempo, anos 90, o impacto do barulho e confusão dos associados, imensos, que passaram a viver na condição de DLD’s – Desempregados de Longa Duração, oriundos do encerramento das fábricas.
Para não falar dos efeitos dos canais privados de televisão – SIC e TVI – que transformaram aquele que era um ponto de encontro da noite Lavradiense, num verdadeiro deserto.
Situações complicadas, com quebras de receitas muito preocupantes. Coisas que vivi, intensamente, acompanhado com homens que deram tudo de si para manter o barco, recordo por exemplo o Ti’Pinheiro e o Ti’ Serra, ou, mais tarde o Janeiro, num processo de modernização, e, outros, aqueles que por lá andam nos dias de hoje. Homens voluntários que teimam em manter e dar-lhe vida, porque gostam da vida associativa.
É isto, os dias são também, de facto, as vivências que estão presentes no espaço urbano e social que fez e faz a nossa vida.
Encontrei na avenida, o homem que me rotulava de «Fidel Castro», naqueles anos que exerci o cargo de presidente da Direcção da SFAL. Cumprimentou-me de forma muito simpática. Já não nos encontrávamos há alguns anos. Sorrimos.
Noto que, na sua página de facebook, o Padre Rodrigo divulga que este mês assinala os seus 50 anos de sacerdócio.
O Padre Rodrigo é uma pessoa com quem, ao longo da minha vida, partilhei momentos que guardei nas minhas memórias.
Foi das primeiras pessoas que conheci no Lavradio, ainda andava a rondar a ideia de vir para cá viver. Foi no baptismo da minha sobrinha Sandra, antes da revolução de Abril.
No decorrer do «copo de água», ficamos os dois num canto de uma mesa, no salão interior do Café Palmeiras, onde, mais tarde foi a sede social do SRCL.
Por ali estivemos e fomos conversando sobre a vida e os tempos que vivíamos. Naturalmente, não recordo a conversa, mas, há uma memória que guardei, porque ficou inscrita dentro de mim, pelo facto de naquela conversa, pela primeira vez, no Barreiro, ter falado com alguém sobre a minha posição de ser contra a guerra colonial, sobre o meu desejo de democracia e liberdade. Assim, ao vivo, olhos nos olhos, falei com alguém, usando no diálogo a palavra «fascismo» para classificar o regime politico de antes do 25 de Abril. E, registo como senti da parte do Padre Rodrigo palavras solidárias e de concordância. Foi esse facto que gravei na memória. Nunca esqueci, até, pelo medo que naquele tempo existia, de dizermos em conversas, certas palavras que eram mesmo proibidas. Eu era adolescente e sonhava com a Liberdade. O Padre Rodrigo foi, para mim, um estímulo. Nunca esqueci.
Depois, fui convivendo em diversas situações com o Padre Rodrigo, pessoa que sempre admirei como alguém que cultiva a liberdade, a democracia e o respeito pelas diferenças.
Estivemos, lado a lado, ali, na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, ele como Presidente do Conselho Fiscal e, eu, como Presidente da Mesa da Assembleia Geral, em momentos de grande crispação e confrontos. Momento duros, momentos gravados a fogo nos nervos e no pensamento. Memórias que não se esquecem. Recordas Milena?
Nesse tempo exerci, igualmente, o cargo de Chefe de Redacção e Director do «Jornal do Barreiro». Entrevistei-o Padre Rodrigo e, nessas entrevistas, com ele aprendi muito sobre a história da Irmandade de Nª Srª do Rosário.
Foi, devido a uma entrevista que lhe fiz que, depois, escrevi artigos sobre a possibilidade do Barreiro dinamizar um processo de geminação com o Barreiro, no Brasil, cidade com uma dimensão industrial e banhada por um rio, que, tal como nós, tem como Padroeira a Nª Srª do Rosário, uma Irmandade com o mesmo nome, e, também um «Jornal do Barreiro».
Era uma coisa que gostava, na verdade, que um dia se concretizasse, a geminação das duas cidades do Barreiro, até por outras ligações que o território do nosso concelho tem inscritas no Brasil.
Por exemplo, o morro do Rio de Janeiro, chama-se «Pão de Açúcar», porque tem o formato das formas de pão de açúcar, aquelas que os «descobridores» levavam nas viagens. Formas de pão de açúcar, essas, que eram produzidas nos fornos de cerâmica da Mata da Machada.
A ligação do Barreiro ao Brasil era de facto uma perspectiva gira de promover, ali, naquele país, quer o concelho do Barreiro, quer a região de Setúbal. Uma ideia que defendo. Talvez um dia alguém decida avançar.
Mas, voltando ao Padre Rodrigo Mendes, na verdade, temos mantido ao longo da vida uma relação cordial de respeito mútuo, de trocas de opiniões, de diálogo, de “piscar o olho” em momentos de solenidade religiosa, e, sublinho, que o Padre Rodrigo é, sem dúvida, uma personalidade da Igreja que admiro, e, tem contribuído para dinamizar e afirmar o papel da Igreja Católica, no concelho do Barreiro, sabendo levar a água ao seu moinho e dialogar com as diferenças.
Por isso, aqui fica este registo e o meu abraço neste tempo que festeja o seu cinquentenário de Sacerdote.
Bom, por hoje fico por aqui, com esta certeza, enquanto a vida o permitir vou contar e escrever sobre todas as histórias e estórias dos lugares e das pessoas com quem partilhei e partilho a vida.
Afinal o que mais gosto é de viver, viver, viver.
Como comentava um destes dias, com Carlos Alberto Correia, citando Virgilio Ferreira, dizia que sou um pessimista (pelo que vivi e fui descobrindo na vida), mas sempre gostei de viver como um optimista. Brincando com os dias. Sorrindo.
António Sousa Pereira













