Por dentro dos dias – BarreiroVivemos ainda, nos dias de hoje, no «fundo da gaveta»

Por Jornal Rostos
Uma das minhas recentes leituras foi o livro «O fundo da gaveta – Contra Revolução e Radicalismo no Portugal Moderno», de Vasco Pulido Valente, onde o autor faz uma abordagem histórica do processo de arranque, desenvolvimento e construção da Monarquia Constitucional, no século XIX.
Da contra revolução de 1823-1824, passando pela Vilafrancada, pela Abrilada, Brasil e «Janeirinha», até ao que define como o caos radical de 1868-1870, esta obra permite-nos viver o pulsar de um tempo que marcou de forma incisiva a “cultura” de Portugal, com reflexos nos dias de hoje e, certamente, que irá continuar a ser uma marca da nossa «consciência» colectiva – os jogos políticos inferidos pelas dinâmicas de um «centrão», seja «arco de governação», seja outra coisa qualquer; a austeridade, ora imposta por regimes autoritários, ora por exigências de compromissos internacionais; as indefinições estratégicas de desenvolvimento territorial, avançando apenas aquelas que resultam de interesses económicos de grupos nacionais ou destes com as suas relações internacionais – seja ferrovia ou rodovia; os cortes primeiros para equilibrar orçamentos que passam pelos apoios às actividades culturais, em suma, um país centrado no estado e nos jogos em torno do seu aparelho – nacional, regional ou municipal.
Esta foi uma leitura que me entusiasmou porque, desde há muitos anos, tenho sentido um interesse especial por obter informação sobre esses anos de 1867 – 1870, datas que são referência na história do movimento associativo do concelho do Barreiro.
Desde sempre tenho defendido que a criação das Filarmónicas no século XIX, tendo a música como leit motiv, não era esse o objectivo principal que motivava as suas fundações, na origem estavam, isso sim, as motivações politicas da época, a necessidade de consolidar bases sociais de apoio com o objectivo de mobilizar para os apoios aos partidos políticos dominantes – Históricos e Regeneradores – quer em eleições para o «Parlamento», quer em eleições Municipais.
Esta leitura permite concluir, com mais convicção, essa realidade sociológica.
No dia de hoje, 7 de Agosto, no ano de 1870, na vila do Barreiro, ainda terra de pescadores, de actividade agrícola, e porto de passagem de mercadorias da margem sul para a margem norte, onde a cultura ferroviária dava os primeiros passos e se anunciava a chegada das fábricas de cortiça, nascia a Filarmónica que, hoje, conhecemos por SIRB «Os Penicheiros», era a segunda cisão da Sociedade Filarmónica Barreirense, dias antes, no dia 4 de Agosto, tinha acontecido a primeira cisão formando-se a Banda Marcial Capricho Barreirense – hoje conhecida por SDUB «Os Franceses».
Estas duas Filarmónicas, nascidas de uma cisão da anterior Sociedade Filarmónica Barreirense, fundada em 1848, são o resultado de conflitos políticos da época, dos dois partidos de referência – a SIRB «Os Penicheiros», ligada ao Partido dos Regeneradores, que tinha como grande figura nacional o Conde de Peniche, e, a SDUB «Os Franceses», ligada ao Partido Históricos.
De referir que a SFAL – Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense, tinha a sua ligação politica ao «Partido dos Regeneradores», tendo sido eleito D. José Carcomo Lobo, vereador da Câmara Municipal do Barreiro, pois, entretanto tinha sido extinto o concelho do Lavradio.
Esta realidade de duas diferentes correntes de pensamento a influenciar a vida associativa na «vila do Barreiro» é inscrita nas suas memórias ao longo de décadas, e, separando-se por diferenças politicas ideológicas.
Por exemplo, há o registo que a Banda da SIRB «Os Penicheiros», em 1911, terá sido a primeira banda a tocar em Portugal a «Internacional», no decorrer da celebração do 1º de Maio, em Setúbal.
Outra referência, pode ser registada, o facto de a Banda da SDUB «Os Franceses» ter sido a banda que, em Lisboa, acompanhou o funeral do Presidente da República António José de Almeida, figura história de referência da 1ª República.
Recordo tudo isto para sublinhar que, por todas estas razões históricas, ainda temos um longo caminho a percorrer nesta aprendizagem de «fazer associativismo», sem que nele estejamos como quem está na luta politica partidária, porque, de facto, o associativismo está, ao nível cultural, numa dimensão de acima das guerrilhas politicas e ideológicas de carácter partidário.
Aprendi a viver o associativismo como espaço de liberdade e de vivência da cidadania, um espaço de respeito pelas diferenças, um espaço cultural que faz de cada associativista que esteja acima dos jogos partidários – homens e mulheres de corpo inteiro.
Isto não significa não ter partido ou não ter opções religiosas, significa isso e apenas isso – uma associação é um espaço de cidadania, de valorização de interesses comuns, porque, afinal, fazer ginástica, aprender música, combater a solidão, são causas de todos, sejam quais forem as suas opções politicas ou religiosas.
No dia que o Poder Local, seja ele qual for, descobrir que o associativismo não é para ser controlado, subjugado, dominado, silenciado, e, que, acima de tudo, são espaços de liberdade de promoção da cidadania – são largos da terra onde se faz cidade – dará um passo em frente significativo para a construção de uma vida mais democrática, um tempo novo, marcado com uma visão de futuro inovadora e revolucionária – aquela revolução que transforma e faz nascer cidadãos livres, dando sentido, talvez, nos dias de hoje, a ideais históricos de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.
Os cidadãos que tendo partido ou religião, sabem e sentem que há mais vida para além da política, dos partidos e da sua religião.
Mas, infelizmente, isto é utopia, porque vivemos ainda, nos dias de hoje, no «fundo da gaveta».
Foi pensando em tudo isto, que me diverti a ler e fiquei deliciado com a história e estórias que descobri na obra de Vasco Pulido Valente, no fundo, bem no fundo da gaveta.
António Sousa Pereira













