Barreiro - «Ao fim de quarenta anos conseguiste»José Geraldes – «sou pescador desde que nasci»
Quando foi chamado para receber o certificado, o seu rosto era um misto de emoções.

Por Jornal Rostos
Nasceu no antigo Posto Médico da CUF, frequentou o ensino primário na Escola do Ensino Primário do Lavradio – no Alto da Igreja, como dizem os antigos lavradienses.
José Geraldes tem 60 anos, no seu rosto bem vincadas as cores do vento, que sempre sentiu ao navegar nas águas do Tejo.
Como ele diz, com um sorriso nos lábios – “sou pescador desde que nasci”.
Recorda quando ia com seu pai e seu avô para as águas do rio, desde criança – “sou do tempo da pesca do cerco”.
Um homem do rio, que vive da pesca, vive na Recosta – “a minha vida hoje é na Torralta, é ali que vivo desde 1992”.
Hoje, José Geraldes, foi um dos 19 pescadores, da Comunidade de pesca barreirense, que recebeu o Certificado de Pescador.
Quando foi chamado para receber o certificado, o seu rosto era um misto de emoções.
Com as mãos limpava as lágrimas. Depois sorria.
“Ao fim de quarenta anos conseguiste”, gritou alguém da plateia. E de novo as lágrimas saltaram dos seus olhos.
É pescador. Toda a sua vida foi pescador. Nunca obteve a certificação que lhe permite, agora, na Capitania, obter a «Carta de Pescador», e, depois, após um ano de faina, poderá obter a formação de «Arrais de Pesca Local», de forma a poder ser o Mestre do seu barco.
Faz do rio a sua casa, o seu mundo, e, esta é, na verdade, há mais de quarenta anos, desde criança, a sua actividade profissional, o seu modo de vida.
Mas, de facto, nunca oficialmente tinha obtido a certificação, de forma a poder ostentar, sem vaidades, mas com o orgulho da profissão que exerce, o legado de seu pai e avô, de perante a lei ser Pescador.
Pegava no seu diploma – aquele certificado que acabara de receber e, sorrindo, referia que “foi um esforço e uma dedicação que valeu a pena”.
Falava sorrindo, mas, lá vinha a indiscreta lágrima a espreitar nos seus olhos, marcando aquele momento, daqueles que na vida, na verdade, muitos de nós já sentimos quando as lágrimas não são de dor, mas, sim feitas de uma alegria enorme que nasce no fundo do coração, esse lugar onde, sem dúvida, nós somos e nos encontramos com a nossa própria vida- a felicidade de sermos o que somos. Felizes!
José Geraldes, pescador, a viver na Torralta, um dos muitos que, nos dias de hoje, fazem existir uma comunidade piscatória, desconhecida de muitos barreirenses, feita de amizades, relações fortes de partilha, aquela que se aprende a navegar no rio, sentindo a força da natureza e a vida a nascer todos os dias com os olhos nas ondas e no sol, na chuva e no vento…
José Geraldes, de lágrimas nos olhos, sentia-se vivia, hoje, um dos dias mais belos de uma vida feita a navegar no Tejo.
“Este vento de hoje é terrível, não conseguimos ir ao mar, Hoje é impossível ir à pesca”, comenta um pescador, ali, ao fim da tarde, enquanto olha as águas do Rio Tejo, essa realidade que marca a história das gentes camarras e o começo de uma história dizem, feita de gente que veio dos algarves e aqui (re)começou a vida, a pescar no Tejo e na barra.
Afinal, ao fim da tarde, de hoje, dia 9 de Agosto, no Clube Naval Barreirense, escreveu-se uma página na vida de gente que vive com o Tejo, todos os dias, como forma de estar e sentir o pulsar da vida.
S.P.
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