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Inferências

Inferências - BarreiroO regresso da BARRIND – ficção ou realidade?

Se o objectivo politico é recuperar a marca BARRIND, neste século XXI, então que se defina o conceito, que se discuta de forma aberta, que se envolva o tecido empresarial.

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Inferências - Barreiro O regresso da BARRIND – ficção ou realidade?

Por Jornal Rostos

Desde que, foi divulgado que nas Festas do Barreiro 2018 iria ressurgir a BARRIND fiquei com uma grande curiosidade. Fui como trabalhador da autarquia um que, desde a primeira hora, esteve envolvido na implementação do projecto da Exposição Industrial e Comercial do Barreiro, um evento que nasceu por proposta de Manuel Pina, vereador eleito pelo Partido Socialista, desde logo aprovado e, sublinhe-se, ao qual foi dado todo o apoio pelo executivo municipal, num cenário de maioria absoluta APU/CDU.
Refira-se que esta proposta nasce dando continuidade a uma tradição de certames – exposição industrial, que foram organizados na SDUB «Os Franceses», antes do 25 de Abril, e, também, por Augusto Valegas, no âmbito das Festas do Barreiro, em 1977, e anos seguintes, num insuflável instalado ao lado da Piscina Municipal.

Mas sobre a BARRIND, recordo como se fosse hoje, nos finais dos anos 80, aquela tarde no barco entre Lisboa e Barreiro, onde num canto, naquelas mesas do Bar, escrevi diversas propostas – INDUBARR, BARRINDU, BARRINCOM, BARRIND, e, outras mais, sendo nesta última que me fixei, apresentando como proposta a designação – BARRIND - para que nascesse uma referência, para acompanhar o logotipo, e, assim gerar uma marca para o certame, diga-se, um dos primeiros com estas características que nascia ao sul do Tejo, uma marca de inovação e desenvolvimento.

A BARRIND, nas suas diversas sucessões, do Largo da Avenida Santa Maria, até à Avenida da Praia, fez-me consumir muitas horas de trabalho, para além do horário, porque vivi todos os eventos, menos o último, salvo erro em 1992, já nem recordo, sempre com entrega e paixão, numa vivência onde se juntava a dinâmica profissional e uma consciência de cidadania de quem estava a procurar desbravar caminhos de futuro.

Era uma vontade de fazer e criar, construir, desde contactos com as empresas, para sensibilizar à participação, passando pela implementação no terreno, procurar a definição do projecto, o encontro com um conceito, definir imagem e iniciativas que contribuíssem para gerar conteúdos – desde motivar as empresas a serem pro-activas, à promoção de seminários que fossem espaços de discussão e projecção de visões para o território: debater a aplicação de fundos europeus ou a criação do Parque Empresarial da Quimiparque, assim como reflectir sobre o papel do comércio no desenvolvimento centro da cidade e como pensar o centro da cidade. Estes alguns temas que recordo. Estou a escrever tudo isto apenas com recurso à memória.
A BARRIND era um mundo vivo e dinâmico, único durante os dez dias de certame, construído por uma equipa e com pleno apoio politico da vereação. Uma referência na região. Um ponto de encontro.

A discussão sobre a BARRIND nunca se concretizou de forma abrangente, de forma a ser feita uma análise e compreensão do seu papel numa cidade que vivia o começo de um processo de desindustrialização, que procurava – tal como hoje – rumo para a sua afirmação diferenciada na região.
A primeira abordagem que foi feita de forma um pouco mais reflectida foi no mandato que a BARRIND, esteve politicamente sob a responsabilidade de Luís Mateus, vereador eleito pelo PRD, que de forma aberta deu total luz verde aos técnicos da autarquia para pensar, agir e fazer.
A BARRIND ganhou uma nova dimensão, envolvendo para além da vertente empresarial, também um espaço para o artesanato e zonas de lazer – bares e palcos de animação, estendendo-se ao longo de quase toda a Avenida da Praia.
As empresas, elas mesmas, eram promotoras de eventos. Recordo aquele dia da visita de Eusébio, dinamizada pelo Alves & Rui, um apaixonado da BARRIND.

Outra discussão feita e nunca conclusiva em torno da BARRIND era se o certame devia ter vida própria, noutro tempo fora das Festas do Barreiro. Chegou a realizar-se autónoma em torno das comemorações do Dia da Cidade, em junho, de forma a atrair maior participação de empresas.
Assim como as conversas sobre a implementação de um espaço vocacionado para exposições onde se realizaria a BARRIND e outros eventos ao longo do ano.
A BARRIND ficou como uma marca e uma referência. Este certame ficou pelo caminho por razões diversas, mas, uma das razões principais foram as dificuldades do município, com orçamentos inflacionados, suportar financeiramente os seus custos.

A vertente de exposições e presenças de empresas nas Festas do Barreiro foi sendo mantida, com mais ou menos dimensão.
No mandato de Emídio Xavier, nasceu o conceito de MEI - Mostra Empresarial e Institucional, um espaço de presença de empresas e instituições nas Festas do Barreiro. A MEI foi um conceito que se manteve, igualmente, ao longo dos mandatos de Carlos Humberto.
Este conceito e modelo não substitui a BARRIND, nem a tal correspondia, mas era uma vertente positiva que se consolidou nas Festas do Barreiro, por vezes com mais dimensão, chegou a ser na Avenida da Praia.

Afinal, o que registei foi que este ano de novo a MEI – Mostra Empresarial e Institucional integrou a Festas do Barreiro, só que com mudança de nome, pois, passou a designar-se BARRIND – Mostra Comercial e Industrial.

Não vejo mal nenhum, até fico feliz que se recupere a designação BARRIND.
Reconheço até que exista uma geração que tenha a BARRIND na sua memória e que a ser recuperada esta marca, de forma emocional, viva recordações de um tempo, esse, que o Barreiro estava em fase de transição, mas, ainda se erguia com esperança.
Não basta rotular uma MEI de BARRIND para de que se dê um fenómeno físico ou químico de mudança da realidade.
O que está nas Festas do Barreiro é uma MEI, o resto é marketing.

Mas, admitindo como positiva a recuperação histórica da marca BARRIND e que, este ano seja o ano zero, de um novo ciclo, considero que, em primeiro lugar devia existir um amplo debate que contribuísse para a definição do conceito – Que Barrind? Quando? Onde? Que objectivos no contexto da afirmação da cidade da região? Custos? Estratégia?

Uma BARRIND, se de facto pretendem como foi dito que cresça, na verdade, para que possa ser um projecto com dimensão local e regional deve ser amadurecida, e, precisa de uma equipa e de trabalho, já.

Sou defensor que o Barreiro pode e devia apostar na implementação de uma BARRIND – em que de facto o IND seja uma aposta num feira da INovação e Desenvolvimento, tendo como núcleo as novas tecnologias e o pensar BARRIND – BARReiro INovação e Desenvolvimento. E, só de imaginar, penso tantas ideias que, na verdade, podem ser fomentadas em torno de um conceito desta natureza que prefiro ficar pelo silêncio, à espera da BARRIND, agora anunciada que é uma semente e no futuro terá de crescer.

Em suma, não vale a pena vender gato por lebre, não vale a pena brincar às BARRIND’s, se for apenas para ficar pela mudança do nome da MEI.
Se o objectivo politico é recuperar a marca BARRIND, neste século XXI, então que se defina o conceito, que se discuta de forma aberta, que se envolva o tecido empresarial.
É por isto que considero a BARRIND deste ano uma mera ficção, não sendo mais que uma MEI que se despediu e, afinal, se apresentou como um evento que “faz de conta” que é BARRIND.

Se a ideia é trazer o conceito BARRIND para a agenda da cidade e abrir o debate, acho positivo. Abra-se o debate.
Afinal, a BARRIND 2019 é já amanhã.

António Sousa Pereira

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