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Inferências

InferênciasBarreiro na rota da economia Azul
. Ana Paula Vitorino prometeu e cumpriu

A noticia que vai avançar a construção da Unidade para depósito e transformação de bivalves capturados no Rio Tejo, com um investimento de cerca de 1 milhão e 340 mil de euros, é, sem dúvida, uma noticia positiva, que coloca o Barreiro como uma referência nacional, dado que esta vai ser a primeira unidade do género em Portugal.

Este projecto coloca na ordem do dia a necessidade de se pensar uma ideia de cidade e sua importância na região.

8 min de leitura
Inferências Barreiro na rota da economia Azul . Ana Paula Vitorino prometeu e cumpriu

Por Jornal Rostos

O ano passado por esta altura o clima politico estava ao rubro, com todos os motores a apontar para as eleições autárquicas.
Nas redes sociais, não faltavam as criticas, existia um inimigo comum, que era afinal o “ódio” que unia no amor à cidade. O que ontem era um mal devido à inoperância autárquica, hoje, de facto, é fruto da falta de civismo.
A discussão da cidade e de um projecto de cidade resumia-se aos «fait divers» habituais – o lixo, as ervas, o calor nos autocarros. Não faltavam nas redes sociais comentadores, alguns desconhecidos, que após o processo eleitoral hibernaram. Dever cumprido. Devem estar a regressar, em brevem aproxima-se mais um acto eleitoral.
Foi a primeira vez que uma campanha eleitoral autárquica teve o seu ponto de agitação central a partir das redes sociais. Alguns ignoraram este fenómeno. Outros potenciaram as suas potencialidades.
Um ano depois, cá estamos, e quanto ao projecto de cidade, uma ideia que nos permita ter uma visão de futuro, que seja uma referência diferenciadora, quer na AML, quer na Península de Setúbal, é lago que continua em aberto. O que somos? Para onde vamos?

Ponte Barreiro – Seixal

No decorrer da campanha eleitoral, coloquei na agenda politica alguns assuntos aos candidatos à presidência da Câmara, matérias que considero essências para pensar futuro e projectar futuro, dar rumos ao Barreiro e resolver problemas essenciais - a importância do território de Coina no desenvolvimento do concelho; qual o papel da autarquia na definição de uma estratégia para os territórios desindustrializados – Baía do Tejo e Ferroviário; a solução dos problemas da mobilidade, ligações ao Seixal, Montijo e Lisboa.
Um ano depois estes continuam a ser temas centrais que mereciam debate e reflexão.
António Costa, primeiro ministro, esteve no Barreiro, no período pré-eleitoral e anunciou que a Ponte Barreiro Seixal, seria uma prioridade no Programa de fundos Europeus Portugal 2020.
As Câmaras Municipais do Barreiro e Seixal lançaram reptos de apontaram caminhos para que este projecto se concretizasse pela sua importância para os dois concelhos e para a região.
Agora, em recentes declarações que li numa entrevista, fala-se que este pojecto terá que ser avaliado no contexto da implementação do Metro Sul do Tejo. Pelo que sempre ouvi, ma coisa nada tem a ver com a outra. A ponte rodoviária de ligação Barreiro – Seixal, vai ligar ao território, junto ao Campo do Galitos, com a zona da portagem da futura Terceira Travessia do Tejo.
É assim continuamos em rumo e sem saber para onde vamos. O que vai avançando no terreno tem a sua génese em coisas que vinham de trás, onde, igualmente, faltava uma consolidação de uma ideia de cidade e projecto de cidade.

Um cluster de indústrias ligadas à economia do Mar

Bom, mas tudo isto, veio a propósito de uma realidade politica, que quero valorizar e aplaudir. A Ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, prometeu e cumpriu, e, na vida, são factos e não conversa, como este, real, que dão credibilidade à politica e aos políticos.
Pouco me preocupa a conversa que vai nascer, em breve, sobre a «paternidade» ou quem foram os protagonistas deste processo.
Mas, como gosto de analisar os assuntos de forma abrangente, dentro do que fui conhecendo e acompanhando, tenho por hábito vasculhar na memória e procurar encontrar as sementes que, afinal, são elas que geram as raízes que são regadas e dão frutos.
Nas minhas recordações, a primeira vez que escutei uma reflexão sobre esta matéria e sobre as potencialidades do Rio Tejo e a exploração dos bivalves, foi numa conferência promovida pelo Bloco de Esquerda, tendo sido um dos protagonistas, sobre o assunto, José Caro Proença, que, ali, como prelector convidado, lançou a tese da importância de ser dinamizado no Barreiro um cluster de indústrias ligadas à economia do Mar.

A Doca Pesca da CP e os pescadores do tejo

O assunto ficou por ali, sem qualquer continuidade. Recordo que especificamente sobre o tratamento de bivalves alguns comentários sobre o assunto quando se abordou o programa REPARA e a importância das zonas ribeirinhas.
Mais tarde, no ano 2016, em Março, quando de uma visita ao Barreiro, de Ana Paula Vitorino, Ministra do Mar, Carlos Humberto, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, no decorrer da assinatura do protocolo de cedência ao município da Doca Seca da CP ( outro assunto que em breve será noticia), na sua intervenção abordou a “questão das amêijoas e sua apanha” e apelou à Ministra para fossem encontradas “soluções” no sentido de regulamentar esta actividade.
Aliás, está em aberto o assunto relativo à lota e esta é mais uma vertente da economia do mar que carece implementação.

O Barreiro e o potencial económico do estuário do Tejo

Nesse mesmo ano, 2016, em Julho, o Partido Socialista do Barreiro, no âmbito do seu projecto «Agenda Barreiro 2025», promoveu um colóquio subordinado ao tema “O Barreiro e o potencial económico do estuário do Tejo”.
Foi defendido neste colóquio eu que era possível a recuperação da indústria ostreicultura, que devido à melhoria da qualidade da água no Tejo, hoje, contribui para termos condições para a produção de ostras e ameijoa.
A discussão estava em aberto, os milhares de apanhadores de ameijoas no Tejo, os problemas de saúde pública, os milhões de euros envolvidos com exportações para Espanha, exigiam que fossem de facto tomadas medidas.
Assim, neste contexto, foi assinado no Barreiro, no Espaço Memória, entre diversas entidades, e, na presença de Ana Paula Vitorino, Ministra do Mar, um protocolo visando a protecção do eco-sistema marinho do Tejo, inserido na estratégia do programa do Governo de promoção da Economia Azul.
Este protocolo previa a construção de uma Infraestrutura para depósito transformação e valorização de bivalves.

Primeira unidade do género em Portugal

Foi salientado que a falta de estruturas não tem permitido a regularização da actividade da apanha da ameijoa, e, só com o avanço deste projecto, vão ser criadas condições para a implementação do Plano Sanitário no Estuário do Tejo e a criação de zonas de apanha de bivalves reguladas.
A construção do Depósito de Transformação de bivalves do Tejo, visa assegurar a sustentabilidade da exploração dos recursos e a valorização do património natural e cultural das comunidades ribeirinhas e na salvaguarda da saúde pública.
O projecto que vai ser implementado na zona da antiga central da EDP, no Lavradio.
Esta semana foi divulgada a noticia que vai avançar a construção da Unidade para depósito e transformação de bivalves capturados no Rio Tejo, que, na verdade, coloca o Barreiro como uma referência nacional, dado que esta vai ser a primeira unidade do género em Portugal

Revitalização de territórios desindustrializados

Esta noticia para além da construção da Unidade de Transformação de bivalves tem um significado de importância relevante pelo facto de contribuir para revitalizar um território que recentemente foi desindustrializado e estava ao abandono.
O Barreiro carece, como de pão para a boca, que os territórios onde ocorreu o processo de desindustrialização sejam reconvertidos e colocados ao serviço da economia nacional. Este é um exemplo que registamos.
Ligado à economia do mar está em aberto o processo de construção do Projecto Multimodal de alargamento do Porto de Lisboa ao Barreiro. Um assunto que está silenciado. Não se trata de construir um depósito de contentores, trata-se de Lisboa abraçar esta margem como um território que faz parte da sua afirmação como uma grande metrópole ao nível europeu.
Em suma, o avanço da construção da Unidade de Bivalves, sobre a qual tinham corrido rumores que não iria ser uma realidade, é um facto politico que coloca o Barreiro na rota da economia azul e exige, cada vez mais, que se faça uma reflexão politica sobre o futuro do Barreiro, com base na implementação de um Plano estratégico que dê uma visão de cidade e aponte rumos ao futuro PDM.
É que gerir uma cidade é mais, muito mais, que os fait divers que circulam pelas redes sociais. Um ano depois das eleições autárquicas o Barreiro continua a viver em torno de maus e bons, os destruidores e os construtores. Continuamos é, de facto, a não ter uma ideia da cidade que somos e que queremos ser, de forma a gerar emprego, boas condições de habitação, espaço de lazer, fruição da frente ribeirinha, um concelho da Ilha do Rato até Coina.

António Sousa Pereira

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