A(nota)mento - Barreiro>Da cidade de emprego para a vida à cidade sem emprego>

Por Jornal Rostos
Hoje, em Portugal, foi celebrado pela primeira vez o Dia Nacional do Psicólogo, e, curiosamente, no Barreiro esta efeméride foi assinalada com uma Tertúlia na Escola Conde Ferreira.
No essencial o debate centrou-se numa reflexão sobre a psicologia e o papel do psicólogo no desenvolvimento da comunidade.
Assisti a este debate e, ali, enquanto escutava as trocas de opinião, ocorreu-me e interroguei sobre qual o pensamento dos psicólogos sobre o Barreiro, nomeadamente os efeitos da desindustrialização na vida social, factor que, de alguma forma, contribuiu para o desenvolvimento de uma cultura depressiva e perda da autoestima.
Registei o facto de se apontar a necessidade de promover um programa de valorização de uma cultura de mudança, tendo os psicólogos um papel de relevo na implementação de um programa interdisciplinar que motive o desenvolvimento de uma cidade de afectos.
Na circunstância recordei uma leitura recente – agora no meu período de férias – uma publicação sobre «A Saúde Mental dos Portugueses», de José Miguel Caldas de Almeida, onde registei os aspectos ali citados sobre os efeitos da crise económica, da troika, sobre a saúde mental dos portugueses.
E, perante esta reflexão questionei sobre os efeitos da desindustrialização sobre a saúde mental dos barreirenses.
E, agora, estou por aqui a pensar no debate dos psicólogos e a registar o facto de o Barreiro ter sido uma vila que durante décadas viveu, de forma plena, a cultura do emprego para a vida, na fábrica que era uma herança de pais para filhos, ou nas actividades comerciais, que passavam de geração para geração. A família e o emprego era elemento de coesão social.
O Barreiro era uma terra onde se chegava à procura de uma vida melhor.
O Barreiro era uma terra de gente de trabalho, do operário ao empregado de escritório ou laboratórios, electricistas, carpinteiros, empregados de balcão, pequenos empresários, um tecido social em torno da fábrica gerador de emprego, actividade económica e vida social.
Barreiro era uma terra de emprego para a vida, que, após os anos 70, pouco a pouco, foi-se transformando em zonas dormitório da grande Lisboa, começando por ser uma terra para dormir e viver, porque para trabalhar era Lisboa.
Por fim, a total desindustrialização que arrastou a crise no comércio local, o fecho das fábricas e o fecho do comércio. Acabou o emprego para a vida.
O Barreiro que era uma terra de emprego, passou a ser uma terra onde de facto, os filhos vinham ou continuam a vir visitar os pais e os avós, porque aqui o emprego é uma raridade.
Há os que continuam a viver por cá, porque na zona onde trabalham é complicado ter casa, aqui é mais barato e sempre estão os pais e avós para levar os filhos à escola.
O Barreiro de terra de emprego para a vida é hoje uma terra que carece de criar empregos, Este é o seu problema central. Aqui reside o seu drama psicossocial.
O Barreiro era uma terra do ser, do ser com valores, no orgulho de pertencer a uma empresa, de ter um clube, de ser cidadão de corpo inteiro que sabia que nem só de pão vive o homem. Uma terra equilibrada psicologicamente. Uma terra de amor à Liberdade. Uma terra de resistência.
Trabalho é sinónimo de dignidade.
Uma terra onde falta trabalho é uma terra onde falta a dignidade. Torna-se uma terra submissa.
O Barreiro de trabalho e emprego pleno foi, na verdade, sempre uma terra insubmissa.
António Sousa Pereira













