Por dentro dos DiasBarreiro - um tempo de percepções sem perspectivas

Por Jornal Rostos
Os dias saltam por dentro do tempo, numa fuga de silêncios e de gritos, porque todo o tempo é feito deste movimento que nos empurra para onde vamos, ou queremos ir, assim, construindo os dias. Cheguei a este tempo, agora, onde apenas procuro viver os dias por dentro, com ternura, essa ternura que caprichosamente, nos faz sentir em diálogo com a nossa interioridade. Tranquilamente. Essa ternura do mal dizer…
Nos dias que passei junto ao mar, ali, olhando o Atlântico, por vezes, perdia-me no infinito do azul, de pernas cruzadas, sentado na areia, sem quase ninguém em redor, ao fim da tarde, ou no começo da manhã, mergulhando pelos nervos do silêncio. A natureza. A vida. O pulsar do tempo.
Abria os olhos e pensava: quero viver a vida, divertidamente, apenas divertidamente. Ter liberdade para pensar e sorrir. Crescer. Amar. Não morrer. Sim, não morrer. Porque não é só morrendo que se morre, morre-se quando deixamos que nos matem, quando não nos deixam viver, morre-se sempre que não somos. Só somos vivendo.
Pensava em tudo isto olhando o mar azul e voando ao lado daquela gaivota que rasgava o infinito azul, vivendo, porque viver é viver, tudo o resto é sobreviver.
Quero viver acrescentando vida à vida que é este tempo que vivo. Participando. Porque a cidadania não se inventa. Constrói-se. Vive-se. Faz-se.
Diga-se antes, a cidadania começa por ser pensamento, pensar a cidade, se pensamos a cidade e não agirmos, não fazemos cidadania, por essa razão, é do pensar para o agir, que fazemos cidade e cidadania.
Fazer é que faz a “feliz cidade” e faz a nossa felicidade.
Por vezes penso no tempo que em conversas , mesmo na esquina, conversas com rostos, com pessoas reais, ali, discutia «ideias», confrontava perspectivas – que eram mais, muito mais, que percepções.
Hoje, vive-se mais de conversas virtuais, muitas vezes sem rostos, perfis que escondem anonimatos para fomentar ódios, e, as conversas com rostos passam por percepções, são mais «opideias». Opinar é mais importante que pensar. Pensar exige conceptualização. Para opinar basta a percepção.
É triste, quando vejo, cada vez mais o declínio da cidadania, cada vez menos inclusiva e cada vez mais virtual. Fico com saudades da esquina, ali, ao menos a vida tinha rostos, reais. Uma cidadania corrosiva, especulativa, critica, impulsiva, humana em tudo o que faz de nós seres marcados pela emoção e pelo racional.
Numa conversa com Psicólogos, comentei, que não sou bipolar, mas sim tripolar. Interrogaram-me: Porquê tripolar? Respondi, que para além do racional e emocional, há a dimensão espiritual. Ela existe. Quer para a afirmar. Quer para a negar. Por mim, prefiro não negar. Os gregos optavam pela cosmicidade. Os homens e os deuses no centro da eternidade. O conflito do bem e do mal. A natureza. A sobrevivência.
Hoje pela manhã, fui convidado para dar uma entrevista, ali, no Museu Industrial da Baía do Tejo, um contributo para um estudo académico de quatro cidades de Portugal, escolhidas como casos de estudo. O Barreiro foi uma delas.
Falei. Falei. Do Barreiro que vivi, do Barreiro que vivo, e do Barreiro que não vou chegar a viver – um sonho de cidade que comentei, não pode ficar pelas ilusões.
Foi uma entrevista que vou recordar. Aguardo o estudo com curiosidade.
No final perguntava-me: Que acha que vai ser o Barreiro em 2028?
Respondi- “Aquilo que é hoje, senão encontrar resposta a questões essenciais. A mobilidade para romper com o seu isolamento. Fomentar emprego para que possa gerar actividade económica. Promover um projecto de cidade, com o diálogo inadiável, começado com Carlos Humberto, entre a Câmara Municipal e o Poder Central, de forma a definir projectos para os territórios da antiga CUF e ferroviários. Apostar nas potencialidades económicas desportivas e de lazer do Tejo e Zonas ribeirinhas…e falei, falei, falei...
Afinal, tudo isto, porque gosto e sinto o Barreiro, não como uma terra que tem potencialidades, mas sim como uma terra que só é o que é porque foi mantendo a sua resiliência aguentando a sua depressão económica e social, com muita coragem. Por isso chegou aqui…com um projecto renovador da sua frota de autocarros; com um programa de reconversão das AUGI’s; com propostas de ligação da cidade às zonas ribeirinhas, em alburrica, Braamcamp e na Doca Seca da CP; com um projecto de Art in Town, moderno que colocou o Barreiro na rota da arte urbana; com a abertura do parque empresarial à cidade…e tanta coisa, que são afinal, coisas avulsas, e, todas elas, só farão sentido quando um dia se pensar a cidade que somos e projectar a cidade que queremos ser, caso contrário, como disse, que vai ser o Barreiro em 2028 – “Aquilo que é hoje…”. Talvez, com mais um armazém de víveres para dormir, a doca seca aberta à Miguel Pais, um bar na ilha do Parque e, por fim, com o PDM por discutir – porque não há ponte, ou não há outra coisa qualquer – e, por fim, continuará a ser uma cidade sem estratégia, onde as discussões continuarão a centrar-se nos bons que querem mudar o Barreiro e os maus que não fizeram nada. Uma cidade que vai continuar a adiada e à espera de um dia se encontrar, com aquilo foi, em tempos idos, uma terra de trabalho e com vida própria. A fábrica. O comércio local. A vida desportiva e cultural. A luta pela Liberdade afirmada na dignidade do trabalho.
Afinal 2028, são mais dez anos. Um instante.
E, talvez, se calhar já nem cá estou para ver, é assim a vida!
Por isso, voltando ao principio deste texto… agora, apenas procuro viver os dias por dentro, com ternura, muita ternura.
António Sousa Pereira













