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Inferências

A(nota)mentoBarreiro – a importância da arte urbana no fazer cidade

É uma obra de arte urbana com uma linguagem estilizada e figurativa agradável, marcada pela simplicidade, onde se dá relevo às memórias do passado – terra de sal e de vinho – porque, de facto, junto aos montes estilizados de sal, está um monte verdejante que nos leva a sentir as terras de lavrar e cultivo.

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A(nota)mento Barreiro – a importância da arte urbana no fazer cidade

Por Jornal Rostos

O ano passado, por esta altura, quando regressei dos dias que passei desligado das vivências do quotidiano – aquilo que costumam chamar férias – a vida social estava ao rubro, principalmente nas redes sociais, vivia-se o «ligar do turbo» do período pré eleitoral das autárquicas. Um tempo levado ao rubro no clímax das «percepções». O importante era captar as «percepções» e explorar as emoções das ditas. >

Era o lixo dos contentores. Os maus serviços das autarquias, Câmara e Juntas de Freguesia.
Era a erva nas ruas. Eram os autocarros incumpridores e sem ar condicionado. Eram terras abandonadas. Era uma terra sem segurança. Eram os murais – art in town – que mais não serviam do que para iludir a realidade e a degradação urbana. Eram os trabalhadores das autarquias, muitas vezes, rotulados de incompetentes. O Barreiro era uma terra com potencialidades que ninguém as potenciava. Os discursos das «percepções» elevados ao máximo divisor comum.
Cheguei a escrever que os discursos em tornos das «percepções» eram uma factura muita negativa para o futuro do Barreiro, fosse quem fosse o vencedor das autárquicas.

As discussões nas redes sociais eram marcadas por subjectividades, por confrontos de opiniões de preto e branco. Não se discutiu, seriamente um projecto de cidade. Não ficaram perspectivadas ideias força quanto à forma de fazer e promover cidade e cidadania.
O que existia e estimulou-se foi a «percepção» de um «bode expiatório», um culpado para ser identificado para acusar como sendo quem tem a responsabilidade do estado do Barreiro. Ficava tudo resolvido. Bastava arranjar um substituto, capaz de gerir as percepções.

Estamos quase a completar um ano desde que decorreram as eleições, e, passado todo este tempo, quando devíamos estar a mobilizar a cidade para pensar o seu futuro e começar a apresentar ideias estratégicas sobre os caminhos de inovação e desenvolvimento, a acção politica continua a manter-se ao nível das «percepções», as discussões estão no mesmo clima pré eleitoral, ou por vezes baixaram de nível.
Ao princípio pensei que isto era uma fase pós eleitoral e que depois, pouco a pouco, a vida começava a normalizar e entrar-se num clima de respeito pelas diferenças, de debate de ideias, de demonstrar novos caminhos.

Agora, nos dias de hoje, um ano depois, ter qualquer comentário, nem sequer é uma «ideia», basta que seja uma rudimentar «opinião» sobre alguma matéria o debate, principalmente nas redes sociais, já tem a sua matriz definida. Ou, lá estão «os aziados», ou, não fizeram nada e agora não deixam fazer.
Ou, por outro lado, são meninos «queques», que só estão a fazer o que os outros deixaram.
Enfim mantém-se um permanente clima de troca de «piropos», porque este, de facto, é o caldo de «agit prop» ou de «marketing» que coloca a vida no patamar do preto e branco, e, diga-se, enquanto «brincamos» às ditas opiniões, assim, não se discute a realidade, não se projecta a cidade, apenas ficamos pelo debate das «percepções» e, para isso, não é preciso estratégia. Mandam-se umas bocas. Ficamos felizes.

Acho – nesta coisa dos achismos – que tudo isto é intencional, que há interesses em manter as conversas sobre a cidade neste patamar. Assim os bons são bons e os maus são maus. E, este mundo é, sem dúvida, o melhor dos mundos.
Tudo isto que acabo de escrever vem a propósito de uma breve reflexão em torno do que se tem escrito e dito a propósito de um álbum, publicado no «Rostos», com fotografias da «Rotunda das Salinas».
De facto, pouco me importa, até, abordar a paternidade da dita, se é do actual ou do anterior executivo municipal. Se foi o anterior executivo que programou e este realizou, para mim, isso é natural, mesmo normal, porque a vida é um processo e, hoje, como ontem, haverá sempre quem deixa obra para outros concluírem e quem projecta obra que outros a seguir vão concluir. Sempre assim foi, sempre assim será.

Se o projecto fosse do anterior executivo e este não o realizasse, não faltariam as criticas de incompetência ou de falta de capacidade de realização.
Sei que este é um projecto que começou a ser desenvolvido no mandato anterior e concluído, com obra, neste mandato. O importante é que é um projecto que foi conceptualizado por um técnico da autarquia, que já lá estava no anterior mandato, continua neste, e, certamente, vai continuar em próximos mandatos. Um exemplo do trabalho e criatividade dos tais eternos maltratados funcionários públicos.

Acredito que o – Arquitecto Helder, disseram ser este o autor do projecto – deve estar feliz por ter pensado e criado este projecto e vê-lo nascer numa rotunda na Vila do Lavradio. Ali, num espaço emblemático, onde outrora se situaram as salinas.
É uma obra de arte urbana com uma linguagem estilizada e figurativa agradável, marcada pela simplicidade, onde se dá relevo às memórias do passado – terra de sal e de vinho – porque, de facto, junto aos montes estilizados de sal, está um monte verdejante que nos leva a sentir as terras de lavrar e cultivo.
Uma Rotunda onde sentimos as cores da terra e a brancura do sal marcar a identidade de uma comunidade que sempre teve uma vida própria – a Vila do Lavradio.

Inicialmente, quando por ali passamos, parece existir uma sensação de vazio no espaço, mas depois, notamos que aquele vazio permite a Rotunda respirar, proporcionando visibilidade à circulação rodoviária.
O tempo passa e, de facto, pouco a pouco, após alguma estranheza inicial, talvez o choque da mudança, a estética vai-se impondo e aquela arte urbana, de forma natural, até pela sua simplicidade, brancura e pureza estética, começa a fazer parte da nossa realidade quotidiana. Está gira.
Quando a arte urbana começa a fazer parte de nós, nas nossas vivências diárias, e assimilamos a sua presença, é, de facto, porque ela se enquadra com a vida e estabelece diálogo com o espaço.
Mas, diga-se, por vezes, para existir diálogo e vivência, tem que existir encantamento. Gostar, ou não gostar.
E, diga-se, até seria útil que existisse alguma informação – uma memória descritiva – que pudesse proporcionar e ajudar a uma interpretação estética e simbólica do monumento, isso, muitas vezes, evitaria as classificações de mamarracho, ou não, porque isto da arte e das artes, como comentava um amigo – há gosto para tudo, e, sem dúvida, quando a «vox populi», por esta ou aquela razão acha - o «achismo» - que tal obra de arte é um mamarracho, até, estimulada por razões politicas, isso conta muito, mesmo muito e é difícil fazer mudar essa «opideia», uma ideia que se forja com a opinião/percpeção.
A arte é para pensar, tal como é para gostar. O sublime esta quando se dá a fecundação do pensar com o gostar. É o belo no pensar e ser, é o amor pela vida.
Em suma, cá por mim, gosto do projecto da Rotunda das Salinas, como gosto da Rotunda junto da Álvaro Velho que está ao abandono e muito desrespeitada da sua génese estética.

Já agora, interroguei sobre o salineiro, do escultor Pedro Miranda da Silva, se estava, ou não, pensado enquadrar naquela arquitectura paisagística, aquela obra de arte.
A resposta que obtive foi que sim, que há diálogo com o escultor de forma a encontrar uma solução para que a estátua do salineiro possa ser uma peça de arte a integrar naquele conjunto. Está previsto e será concretizado. Foi dito. Ainda bem, porque irá valorizar o conjunto.

E, já agora, uma nota final. O concelho do Barreiro foi durante décadas, um concelho onde a arte de escultura urbana era quase inexistente. Existia a estátua do Padre Abilio Mendes. A estátua de Alfredo da Silva. Um busto de Manuel de Melo, que está na Santa Casa da Misericórdia e pouco mais recordo. O Mausoléu de Alfredo da Silva, esse, só está acessível para visitar há cerca de nove anos, antes era inacessível.

No Parque da Cidade, houve uma tentativa do Camarro, de criar um espaço escultórico, proposta nunca compreendida pelo poder politico, nem por quem a impulsionou, foi no mandato de Emidio Xavier, com a promoção de um Simpósio sobre escultura.
Lançado o repto, concretizou-se a implantação de esculturas, que com a vitória da CDU, por ali, depois, estiveram anos quase que ao abandono. Até que, por fim, resolverem dar-lhe algum enquadramento.
Há ali, também, no Parque da Cidade, uma escultura do meu amigo Ramos.

Foi nos mandatos de Carlos Humberto que se iniciou o que se pode considerar um projecto estratégico de criar e colocar obras escultóricas no espaço urbano, caso da obra escultórica de Malangatana, a escultura na Praça do Rossio, junto ao Forum Barreiro,o monumento aos Fuzileiros, ou o monumento à familia Operária, no Largo das Obras. Foi obra.

Já ouvi falar do Roteiro da «Art in town», nunca ouvi falar de um «Roteiro de Esculturas Urbana», o qual conta com a maior obra escultórica de Malangatana, uma personalidade da arte de referência mundial. Uma honra o Barreiro contar com esta peça fruto de uma residência artística de Malangatana. Obra que, só por si, era um elemento para atrair visitação ao Barreiro.

Isto para sublinhar que, também sobre esta matéria da escultura urbana, devia ser pensada e desenvolvida uma estratégia, visando a concretização de projectos a realizar, até, envolvendo artistas locais.
Gostava de ver uma rotunda com uma obra de Kira. Ele merece e o Barreiro merece.
Pensar a arte urbana e a escultura urbana é, também, uma forma de pensar a cidade e valorizar o espaço onde diariamente vivemos os nossos dias.
Há temas em aberto, para projectar no espaço público – homenagens à memória - que seriam merecedores de por em marcha na criatividade, porque, afinal, a arte urbana também cria memória futura – embeleza o espaço urbano e dá uma ideia da forma como sentimos e fruímos a paisagem da cidade.
Por isso, mais que percepções sobre esta matéria, o importante será que existam perspectivas, porque as percepções, passam, nascem e morrem pela fluidez do tempo e das realidades epocais, enquanto as perspectivas ajudam a pensar, conceptualizar e fazer cidade - arte no espaço!

António Sousa Pereira

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