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Inferências

Por dentro dos dias - BarreiroFixando a vida em palavras

A nossa vida não somos só nós, a nossa vida somos nós e todos os outros que se cruzaram no tempo que vivemos. A vida que fizemos com aqueles que vivemos. A vida feita com dar e receber.

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Por dentro dos dias - Barreiro Fixando a vida em palavras

Por Jornal Rostos

Viver é tecer o tempo, fixando a vida em palavras, sentidas na história que somos.
O tempo que fomos. O tempo que sonhámos. O tempo que fazemos.
Somos os tempos, todos os tempos, esses, que sentimos, no entrelaçar, por dentro dessa linguagem, que brota daquela energia – uns chamam karma, outros força da mente, ou outra coisa qualquer, mas, há mesmo quem lhe chame amor, só amor, apenas amor – essa fonte, onde, digam o que disserem, é aí, só aí, que nós nos encontramos e tecemos as mais doces palavras, da arte, da poesia, do ser, que nada tem a ver com o parecer.
É, esse lugar, onde somos espelho de nós mesmos, de tudo o que inventámos, de tudo o que construímos, do orgulho de nós, serenamente, é sempre aí, que olhamos a nossa obra, essa, que dá o sentido da nossa felicidade, a maior obra que legamos, que fica – pelo bem ou pelo mal - é, acreditem, essa, a nossa vida.

A nossa vida não somos só nós, a nossa vida somos nós e todos os outros que se cruzaram no tempo que vivemos. A vida que fizemos com aqueles que vivemos. A vida feita com dar e receber.
Essa vida, na verdade, nada tem a ver com a vida inventada por outros – os que gostam de saber da nossa vida mais que nós mesmos, por inveja, ou, apenas por maledicência. E o mais que aconteceu na nossa relação com eles foi termos pisado, talvez, as pedras dos mesmos caminhos.
Esses que nada sabem das nossas lutas, da resiliência, das nossas lágrimas, da nossa fome, das nossas dores, das nossas angústias, de todas as circunstancias em que gritámos não, para colocar bem alto e acima de tudo a valorização da nossa dignidade. Os nossos protestos. As nossas derrotas. As nossas vitórias. São poucos aqueles a quem abrimos a nossa vida por dentro. São poucos os que entraram dentro de um canto do nosso coração.

Podemos ser pedantes, imaginando que somos o centro do mundo, cantando vitórias únicas, que sem nós o mundo era outro mundo.
Podemos ser humildes, achando que somos o que somos na nossa circunstância e temporalidade, na nossa realidade, que, pensem bem, nos coloca como pó que somos, e, diz-nos que em pó nos vamos transformar.

A nossa vida, por tudo o que é, por tudo o que foi, com todos os erros e virtudes, é a nossa grande obra de arte. Gostamos ou não gostamos. É, de facto, aí que reside a tranquilidade.
Tudo é belo quando tudo o que fizemos contribui para tecermos palavras, vivermos as palavras, sentindo que elas nascem de dentro do coração, o lugar, onde, como diz a canção – só entra quem tu quiseres - escrevendo todas as histórias, de todos os instantes, que fazem a nossa vida ser, porque a vida é, apenas, sem dúvida, quando nós somos e estamos em todo o tempo que vivemos. É isso que dá sentido à palavra felicidade. Sentir todo o tempo, sentido.

É tecendo e entrelaçando, desocultando, indo para além das percepções, que nós vamos vasculhando a força que nós somos, fazendo humanidade. Tu e eu. Nós. Neste confronto permanente entre o medo, o silêncio, e, todos os gritos que fazem a vida nascer em chamas.

É por isso, que por vezes para sentir a vida, basta a ternura de um abraço matinal, um sorriso feito do colorido que nasce no brilho dos olhos, sorrindo.
Imaginem, sintam, a energia que brota de dentro dos olhos num sorriso. Olhos nos olhos.
E nesse olhar sentir o dia nascer, florido.
É, nessa fonte que tudo flui e fervilha tocando os nossos ossos, lá no fundo, bem fundo, onde está toda a nossa temporalidade.
É, afinal, essa energia que nos move e gera outras vidas, renovando, renascendo. Sendo.

E, neste tempo, onde, cada vez mais, o medo é um sopro que faz nascer a escuridão dentro do corpo e da mente, digo-vos, é preciso erguer, bem alto essa bandeira da vida – o amor - essa energia que nos torna humanos e faz que sejamos capazes de continuar a sonhar e viver, conscientemente, todos os dias, dando sentido a esta palavra que, pela sua eternidade, só por si, é a prova que não chegámos ao fim da história.

É linda, uma história de vida, de toda uma vida, que se faz e escreve com a palavra amor – amor ao que fomos, amor ao que somos, amor ao que fazemos, amor ao que gostamos, amor ao que damos, amor ao que recebemos, amor à humanidade, amor ao que legamos.
Afinal, é pelo amor que vamos!

S.P.

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