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Inferências

InferênciasQuinta Braamcamp – aqui começa o Barreiro do século XXI

A Quinta de Braancamp pode ser, nos dias de hoje, o leit-motiv, para se debater e aprofundar a cidade, a sua ligação ao rio, a sua qualidade de vida.

Este não é o tema partidário. Este é um tema sobre o qual todos os partidos devem promover as iniciativas próprias para divulgarem projectos e propostas e recolher o sentir da comunidade.

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Inferências Quinta Braamcamp – aqui começa o Barreiro do século XXI

Por Jornal Rostos

A vida política de uma cidade sente-se, muitas vezes, nos sentimentos que são expressos, em acções, em palavras, em conceitos, em dinâmicas sociais.
O Barreiro foi sempre um concelho que viveu a vida política com alguma intensidade, talvez, fruto de uma consciência histórica de luta contra a ditadura, de amor à Liberdade, pela capacidade de resistência e, até mesmo, pela intersecções de famílias, de gerações que recebiam legados e exemplos de vida de pais e de avós, gente que sempre, quotidianamente, adquiriu o princípio, que nem só de pão vive o homem.

Muita da história mais recente, no século XX, especialmente no período do Estado Novo, ao nível local, a vida política foi marcada e influenciada pela acção do Partido Comunista Português. Homens e Mulheres respeitados pela sua postura de verticalidade e de entrega a causas – da democracia, de melhores salários, de direitos humanos.

O mundo mudou. E, aquele que era um concelho com uma cultura operária, desde a cultura ferroviária, que trouxe atrás de si, pela ligação ao Algarve e Alentejo, o desenvolvimento da indústria, primeiro a Cortiça, depois a indústria química, têxtil e metalomecânica, transformou-se numa urbe de grande influência habitacional, e, com o domínio da área dos serviços.

Uma vila operária. Uma vila de resistência, que, após os anos 70, com a explosão demográfica, fruto da vinda de milhares em busca de habitação – que viviam na margem sul e trabalhavam na margem norte, foi alterando o seu tecido social. Nos anos 80, já era dominante, na vida económica local, o sector dos serviços.
Hoje, é um concelho onde o grande empregador é o Estado, sejam as autarquias, Hospital do Barreiro, Tribunal, Escolas, serviços de saúde e, naturalmente, até as IPSS’que dependem dos apoios do orçamento do Estado. O resto são micro, pequenas e médias empresas, a FISIPE e grandes superfícies comercias.
Os pequenos igualmente dependem das ligações à estrutura estatal, e, por fim, uma população envelhecida, de reformados, aposentados ou pré-reformados, cujo patrão é o Estado.

Ao longo dos anos, uma forte influência das tradições, das memórias, das vivências associativas e de um Poder Local, que, digam o que disserem, contribuiu para mudar e transformar as condições de vida no espaço urbano, em muitos sítios – e o concelho do Barreiro é, um concelho feito de sítios – com mudanças radicais, de ruas sem passeios e de lamaçais, para ruas pavimentadas e com espaços públicos de qualidade, de sítios onde faltava a água e não existia rede de esgotos, para sítios com abastecimento de água e rede de esgotos.
Tudo isto reflectia-se na vida politica local de tal forma que, durante décadas, nas eleições legislativas o PCP/CDU nunca ficava em 1º lugar, sendo essa a posição do PS, mas, nas eleições autárquicas seguintes a ordem invertia-se, ficando o PCP/CDU em 1º lugar e o PS na 2ª posição.

Mas, na verdade, o PS pouco a pouco ganhava terreno, primeiro conseguiu retirar a maioria absoluta ao PCP/CDU, obrigando a uma coligação com o PSD – aliás força politica que tem, sempre, assumido uma oposição-colaborativa, ora com o PCP/CDU, ora com o PS. Depois conquistou a presidência com Emídio Xavier, intervaladamente, conquistou algumas juntas de freguesia, a Verderena e Santo António da Charneca.
O PCP/CDU reconquistou a presidência da Câmara ao PS e, durante três mandatos não só consolidou, como ampliou a sua força politica consolidando a maioria absoluta.
Carlos Humberto, foi o grande protagonista deste processo, por duas razões principais. Primeiro pela sua capacidade de diálogo com o Poder Central. Segundo porque desde sempre percebeu que a CDU tinha que, de forma clara, acrescentar ao PCP mais CDU e à CDU mais cidade. Naturalmente contou sempre com o apoio do PCP/CDU.

Neste mês de Outubro, faz agora um ano, o PCP/CDU perdeu as últimas eleições autárquicas, assumindo a sua posição de oposição. Não pretendo, de forma alguma avaliar, para já, este primeiro ano de mandato autárquico. Lá chegaremos.

Neste texto, após esta nota introdutória, vou apenas reflectir sobre a sessão que assisti, promovida pelo Partido Comunista Português, sobre a Quinta de Braamcamp.
Já o disse e considero, de facto, que, se há uma força politica que tem, sem dúvida, autoridade moral e autoridade politica, para falar sobre a Quinta de Braamcamp é o PCP/CDU. Geriu o processo.
Foi com a presidência de Carlos Humberto, do PCP/CDU, que decorreram as negociações para que aquele território passasse para a posse do município, abrindo as portas para, na verdade, ser de todos os barreirenses, esta que é uma das zonas mais lindas, do ponto de vista paisagístico, ambiental, de fruição dos rios. Ali, está o encontro com a sua génese.

Após a aquisição da Quinta de Braamcaamp, que já tinha antecedentes, na aquisição de espaços do território de Alburrica e dos moinhos, estavam criadas, graças à gestão do PCP/CDU, para se pensar e decidir sobre a utilização daquele território, da Praia Norte até Alburrica.
O PCP/CDU não apresentou propostas. Foi abordando estratégias. Comprou e, talvez, pensando que estava garantida a vitória eleitoral, o projecto seria algo a definir no novo mandato. Aliás, aconteceu isso da indefinição sobre a Quinta de Braamcamp, como aconteceu com outros projectos que ficaram adiados – ou por se achar que seria eleitoralismo, ou fosse lá o que fosse, talvez, até, começar um novo mandato com muitas inaugurações.
O facto é que muitas coisas não avançaram e, foi, já na nova gestão PS que muitas obras avançaram, estão no terreno. Diga-se que o investimento confirmado em obras, das mais diversas, transitadas do mandato de Carlos Humberto, é na ordem dos 7 milhões de euros.

Mas, voltando à Quinta Braancamp, o facto é que, em plena campanha eleitoral, o Partido Socialista apresentou uma proposta com algumas ideias para Alburrica e Quinta de Braamcamp.
Desde a «Roda Gigante» passando, pela «praia de ondas». Diga-se o que se disser, o eleitorado, gostou e votou. No final do mandato ver-se-à se foi vender gato por lebre. O eleitorado decidirá.

Por todas estas razões, por reconhecer que o PCP/CDU tem um papel de referência na abordagem do tema da Quinta de Braamcamp, quando vi marcado o debate pelo PCP de imediato fiquei curioso, e, digo, esperava mesmo que ali fossem lançadas algumas ideias estruturantes, que fossem um pouco além, de coisas que são para todos óbvias e já repetidas – preservar a paisagem e o património histórico, usos culturais e desportivos.
Fiquei com a sensação que a montanha pariu um rato.

Para que haja um debate alargado e participado sobre a definição do futuro da Quinta de Braamcamp, penso, que não basta dizer que aquela tem que ser uma zona livre de especulação imobiliária. Aliás, concordo, plenamente, com o que foi dito por Pedro Canário, ex-presidente da CMB, em cuja gestão foi aprovado o PDM que está em vigor, que, pelo facto de ali estar prevista habitação, na altura, num território privado, se use esse argumento para, hoje, construir habitação num território que é do município. E, a Câmara Municipal, na verdade, não tem autoridade moral para o fazer sem que previamente, sobre o assunto haja debate político e consulta pública, sem discutir na Assembleia Municipal. Sem ouvir os partidos. Sem ouvir a cidade.

Na história recente do Barreiro, registou-se um acontecimento que foi marcante, e, para mim, foi mesmo o ponto de viragem da vida do Barreiro no período pós-industrialização.
Refiro-me concretamente à mobilização, ainda no século XX, que se viveu na cidade quando da decisão da instalação da ETRI, envolvendo todas as pessoas em defesa de uma ideia única, acima de qualquer opção partidária, o que contava era – o Barreiro e o seu futuro.
Esse processo abriu o caminho para uma abordagem diferente do território da Quimiparque, com tudo o que se seguiu, do Arquitecto Manuel Salgado, ao Masterplan, passando pelos planos de Urbanização e o Arco Ribeirinho Sul. Afinal, até onde estamos, em busca de caminhos e, esses são mesmo, outros caminhos – são o pós-industrialização.

A Quinta de Braancamp pode ser, nos dias de hoje, o leit-motiv, para se debater e aprofundar a cidade, a sua ligação ao rio, a sua qualidade de vida.
Este não é o tema partidário. Este é um tema sobre o qual todos os partidos devem promover as iniciativas próprias para divulgarem projectos e propostas e recolher o sentir da comunidade.
A Assembleia Municipal do Barreiro devia agendar este tema, quer em sessões especificas, quer promover debates abertos com a comunidade.
Este tema é, na verdade, a ETRI do século XXI, ele pode mobilizar a cidadania, pode motivar para a participação, desde que não se viva o assunto como uma guerrilha politica, que não se transforme, como é habitual nos dias de hoje numa guerra entre maus e bons, de forma a evitar, que na espuma desse confronto, venha a acontecer que Alburrica versus Braamcamp se transforme, em espaços privados dos Lisboetas ou dos europeus com dinheiro.
Discutam-se opções. Apontem-se caminhos. Construa-se futuro.

Assim como a ETRI deu origem ao desenvolvimento do Plano de Urbanização da Quimiparque, talvez, indo de encontro ao sugerido, neste debate do PCP, por Joaquim Matias, ex-vereador do PCP/CDU responsável pelo Planeamento, que se avance, ou por acção pública, ou por acção municipal, ou por deliberação da Assembleia Municipal, para a implementação de um Plano de Pormenor de Alburrica e Quinta de Braancamp.

Neste debate sobre a Quinta de Braamcamp promovido pelo PCP registei, que prevaleceu a palavra «resistência». Resistência contra a especulação imobiliária, como se a construção de alguma habitação naquele território tenha que ser um tabu, ou mesmo um crime. Seja a Câmara PS, seja a Câmara PCP/CDU, ou PSD, o facto é que a autarquia não tem verbas para desenvolver grandes projectos, tem que contar com fundos comunitários e porque não de privados. E isso, discute-se. Há limites.

Mas, o que me impressionou com a palavra «resistência» é que perante o processo da Quinta de Braamcamp o PCP devia escrever a palavra futuro ou a palavra alternativa, apresentando as suas proposta, os seus desafios, porque esta foi uma história que começou a ser escrita pelo PCP/CDU.
O PS fez, e bem propostas, na verdade, com base na «politica do cuco», mas fez e assumiu com coragem.

Reconheço que, na acção politica ao nível nacional o PCP tem que ter, na ordem do dia, a palavra «resistência», num país que vive subjugado aos ditames da europa. É essa a luta resistir para mudar, para obrigar o governo a ceder. Lutar.

Mas no Barreiro, o PCP é a força politica mais responsável e mais forte na coligação CDU, não tem que resistir, aqui, ou se assume, ou não se assume, como a alternativa. E ser alternativa vai para além do resistir.
O PCP de facto, se quer cumprir a sua missão histórica e retomar a sua história na vida do concelho, a sua acção politica, não se escreve resistência, escreve-se – alternativa.
E, no caso da Quinta Braamcamp tem autoridade moral e politica de ter sido o protagonista do processo. Isso conta muito se demonstrar, na prática, qual é a alternativa do PCP para a Quinta de Braancamp, e, afinal, dizer, também o que discorda do projecto, ou das ideias do PS.
Foi um primeiro debate. Esperemos o que será acrescentado. Para já foi apenas registar, dez ideias, acho que sim, foi isso…dez ideias.

António Sousa Pereira

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