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Inferências

InferênciasPS escolheu afirmar-se dando futuro ao Barreiro com o PSD

O PS e PSD, que começaram o mandato num assumido e permanente namoro, agora, decidiram optar pela “união de facto”, que tem, como sabemos uma validade temporal.
Quanto ao “casamento”, isso, tudo indica que, para já, não é coisa que esteja no horizonte.

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Inferências PS escolheu afirmar-se dando futuro ao Barreiro com o PSD

Por Jornal Rostos

Um dos erros políticos da gestão do Partido Socialista, liderada por Emidio Xavier, foi não ter mantido uma relação pacífica com o PSD, força politica representada no executivo municipal por Mendes Costa, e, essencial para garantir a governabilidade à maioria relativa socialista.
Bruno Vitorino, na época líder concelhio, transformou-se num feroz opositor dos socialistas, apesar do PSD ser, sem dúvida, a muleta na gestão municipal.

Passados anos, agora de novo com os socialistas em minoria na CMB, a situação inverteu-se em 180 graus, comparativamente ao que se registou na gestão de Emídio Xavier, onde o diálogo politico, institucional, entre PS e o PSD, era praticamente nulo, assistimos agora ao inverso, porque, na verdade, o PS e PSD, que começaram o mandato num assumido e permanente namoro, agora, decidiram optar pela “união de facto”, que tem, como sabemos uma validade temporal.
Quanto ao “casamento”, isso, tudo indica que, para já, não é coisa que esteja no horizonte. Digamos que estão unidos, mas não convencidos.

O fenómeno politico que ontem se registou ao nível local da assinatura de um Acordo entre o PS e PSD, merece uma ampla reflexão, e, este, é, sem dúvida, um dos primeiros sinais na vida politica local que demonstra, como, nos dias de hoje, já estamos noutro século, noutro tempo, noutra «identidade barreirense», afinal, isto prova como está longe, perdido na memória, aquele tempo do PREC, quando foram os socialistas e não os comunistas, em proposta que apresentaram na Assembleia Municipal do Barreiro, a querer retirar e destruir a estátua de Alfredo da Silva. Proposta, segundo nos disseram, em tempos idos, foi reprovada.

Este é o primeiro sinal, de abertura ao século XXI, real, fruto da «cultura politica» vivida em torno das últimas eleições autárquicas do Barreiro, que apostou na criação de um «bode expiatório» para todos os males do Barreiro – os comunistas.
Esse «caldo cultural» que foi criado, intencionalmente, discretamente, de forma constante, durante uns três anos, nas redes sociais, gerando um clima de maus e bons, de anti-pcp, de anti comunismo primário, de bode expiatório, de ressentimentos, de teorias da conspiração, seguindo-se, após as eleições o clima da «azia», dos aziados, do clima de hostilidade, dos argumentos fáceis e repetidos, que não fizeram nada e agora não deixam fazer, do lixo nas ruas que era culpa da Câmara e, agora, é a falta de civismo, das guerrilhas na gestão autárquica, gerando situações, que, percebe-se o fim é criar casos. É tudo isto que marca o tempo novo. Ponto Final.

Este é o Barreiro do século XXI. O Barreiro dos pragmatismos. Um tempo em que o conta é o marketing e, tudo, mesmo tudo, que possa contribuir para manter o poder, onde a cidadania, e, diga-se a simples acção civica está a perder-se, pelo silêncio e ausência de debate da coisa pública.

Enfim, é tudo isto que permite, aqui e agora, que o namoro pós eleitoral do PS com o PSD, se transforme pacificamente, nesta “união de facto”. Só não casam porque, isso era complicado, e, se o fizessem, na verdade, nunca seria com comunhão de bens.

O PSD é o grande vencedor politicamente deste Acordo. O PSD com este Acordo retira ao PS espaço ideológico à esquerda, o PSD ganha espaço num tecido eleitoral onde, muitas vezes, não é, por razões históricas, bem aceite, e, até, recentemente era rejeitado pelas politicas que protagonizou com a troika.
O PS dá a mão ao PSD para que se afirme à esquerda, numa terra cujo coração politico pulsa à esquerda, uma terra, onde, até, os de direita gostam de dizer que pensam à esquerda. O PS abdica do seu espaço ideológico, estabelecendo um acordo de princípios com o PSD, porque quer rasgar com o PCP, porque tem medo politico do PCP, e, também, porque acha que assim ganha eleitorado ao PSD, ou encosta o PSD à parede, obrigando-o a ficar pacificamente, silenciado por um acordo.
É mesmo, de quem não conhece o veterano da politica local chamado Bruno Vitorino.
Este Acordo dá-lhe trunfos, estão lá escritos – eu li – que podem estalar como castanhas quentes, bem quentes, quando o PSD quiser dizer ao PS :”Rasgo o acordo porque os senhores não vão cumprir, ou não estão a cumprir», diga-se, mesmo que, nalguns casos, o acordo assinado aponte resultados que são fruto da «papinha feita», que receberam da anterior gestão CDU.

Na vida politica uns optam por gerir imagem, outros optam por valorizar aspectos ideológicos, outros limitam-se a gerir saberes e acções que vão ao encontro da realidade.
O PSD é um partido que sabendo que está num terreno que lhe é estranho, aqui, soube sempre, estar fazendo politica na acção, recebendo pelouros, erguendo bandeiras, abraçando causas.
O PSD desde há muitos anos que luta por conquistar uma Câmara no Distrito de Setúbal, e, para tal, na verdade, sabe que duas coisas são essenciais nessa sua estratégia, que não é, nem nunca foi uma impossibilidade, é, apenas e só, saber gerar a ocasião.
Mas, em primeiro lugar, é preciso retirar o PCP da área do poder, em tudo o que o poder significa, na vida politica em Portugal, desde ser uma rede de empregabilidade, passando pelas politicas de influência e de relacionamentos tácticos. Partir as pernas ao PCP, a força politica histórica e dominante na região é o primeiro passo, mas, isso, o PSD sabe, que não o consegue sozinho, tem que trazer o PS para esse seu combate.
Este Acordo é isso mesmo, o PS juntar-se ao PSD para combaterem, em conjunto, a única força politica que pode, se tiver capacidade de agir, na verdade, de novo, ser a alternativa, ou até mesmo, a alternância ao PS, nas próximas eleições autárquicas.

O PSD não quer o regresso do PCP à Câmara Municipal do Barreiro. O PSD quer que esteja lá o PS, com maioria relativa, para o desgastar e depois de correr com os comunistas, a seguir hão-de ir os socialistas. Ou já esqueceram que numa maioria absoluta de Cavaco Silva, aqui no Barreiro, o PSD esteve na primeira linha e deu cartas.
O PSD é um partido que tem estratégia, tem saber, faz politica com acção politica, é, um partido que no Barreiro, nunca brincou, nem brinca em serviço. Tudo o que faz é pensado.
Desde a Policia Municipal, até ao baixar do IMI, passando pelo combate aos grafitis, ou, na valorização da figura de Alfredo da Silva. Tudo o que faz é ideológico, e, depois, acusa outros de “preconceitos ideológicos”, porque, essas, são as ideologias más, as dos socialismos e comunismos.
O PSD sempre soube, até, gerir pela positiva, as relações com o Poder central, quando está no Poder Central, para dar passos e encontrar soluções para assuntos locais. Há muitos exemplos, do protagonismo de Bruno Vitorino.

É, por tudo isto que o PSD, ontem, ao assinar o Acordo com o PS, de súbito, quase que venceu na secretaria o que perdeu nas urnas. Foi uma grande vitória politica, pós eleitoral. O PSD deu um salto em frente, passou de partido charneira, para partido parceiro da gestão municipal.
Não é o PSD que passa a fazer parte da estratégia do PS, é o PS que passa a fazer parte da estratégia do PSD.
Nem sequer este Acordo contribui para dar mais protagonismo à liderança do PS, antes pelo contrário, coloca a liderança do PSD, em pé de igualdade, com a liderança do PS.
Um ano depois da vitória autárquica do PS, com este acordo, quem assume a liderança politica local é o PSD. Numa vida politica local feita de calculismos, de jogadas de xadrez politico, o que se pode dizer é que, Bruno Vitorino, usou uma torre para dar cheque a André Pinotes. PSD gere a liderança da politica local. PS gere a liderança da politica autárquica, submetida ao «parecer» do PSD.
O PSD abre caminho para desenvolver a sua «frente» politica. O PSD aprendeu com a CDU, diga-se na estratégia de Carlos Humberto, que para avançar politicamente é preciso acrescentar ao PSD, mais cidadania, por essa razão, na campanha eleitoral apresentou-se com a «frente» - «Dar futuro ao Barreiro». O PSD colou o PS ao seu projecto de dar futuro ao Barreiro. Um futuro do qual, para o PSD, têm que ser excluídos os comunistas, agora, contando com o apoio, irreversível do PS, porque há coisas na vida politica que nunca mais se apagam, passam a fazer parte do pensar e fazer cidade.
A liderança do PS veio dizer, a todos os barreirenses, que quer afirmar o Barreiro e dar futuro ao Barreiro, com o PSD. O PS afirma-se à direita. O PSD afirma-se à esquerda.
O PS está nas mãos do PSD.

O PS que tinha escolhido como caminho «preparar uma presidência», dar-lhe força, agora, um ano depois das eleições, coloca essa presidência submissa ao PSD.
Nunca, na vida do Poder Local, no concelho do Barreiro, fosse qual fosse a força politica em maioria relativa – CDU ou PS – esteve de forma tão clara, submissa e nas mão da vontade politica do PSD.
Bruno Vitorino ganhou, ontem, todo o crédito politico para que o Barreiro lhe entregue a presidência da Câmara, ganhou autoridade moral e autoridade politica para ser protagonista nessa luta. O PS deu-lhe a mão.

O líder do PS, André Pinotes, com o Acordo de ontem alcançou uma vitória politica pessoal, temos que o reconhecer, pois, colocou o PS, enquanto partido, com autoridade politica, e, como negociador da acção politica local, passando a discussão da vida local das reuniões dos órgãos autárquicos para dentro da vida partidária .
Ele, de facto, ganhou espaço de liderança, mas, sem dúvida, à custa da partidarização e da gestão da vida autárquica centrada num acordo entre partidos, deu protagonismo ao PSD, para ganhar protagonismo.
Veio dizer que são os partidos e não os eleitos que decidem a política autárquica.
Portanto, André Pinotes, líder do PS, ontem, tornou-se, também, o líder da vida autárquica, porque através do acordo levou, objectivamente, para dentro do PS a liderança da vida autárquica. São interpretações. São factos, e, factos, não são opiniões, são a história da comunidade em movimento.

Este Acordo, acredito, vai dar muito que falar, lá isso vai…
Quem menos devia importar-se com ele era a CDU, que, a partir de agora tem o espaço aberto para se transformar na liderança da esquerda no concelho do Barreiro. Saiba a CDU dialogar com o BE, PAN, Os Verdes e gerar mais cidadania à sua volta.
O PS escolheu afirmar-se dando futuro ao Barreiro com o PSD.
A CDU que escolha afirmar-se dando futuro à esquerda no Barreiro…porque, afinal, há mais geringonça para lá do PS.
E, penso, até que haverá algum PS que não deve estar feliz com este Acordo.

Claro que a vida local está acima da vida partidária, mas, quando se dá á vida politica local um sentido, tudo ganha outro sentido.
Até, na verdade, pode ser que este Acordo seja positivo e contribua para o debate de ideias, dando à vida política local, algum conteúdo e valores, que vão para além das conversas com o sentido volátil e vazias de consciência social
Como irá reagir o CDS a este Acordo? Será que aproveita para ganhar espaço e conquistar o eleitorado de direita que não aceita este Acordo à esquerda do PS?
E o BE, vai ficar calado, quando retirou a confiança politica a um eleito no executivo do Lavradio – Barreiro, por ter aceite integrar um órgão com um eleito do PSD? Será que o BE vai ficar no silêncio?
Enfim, este Acordo vai dar muito pano para mangas e abre, de facto, desde já novos o cenários políticos.
Esperemos…

António Sousa Pereira

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