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Inferências

CinquantenairePor Nuno Santa Clara
Barreiro

Raramente as sociedades mudam sem uma forte pressão; por vezes essa pressão vem de fora, como forma de romper o imobilismo a que as sociedades se acomodam, talvez pela aplicação da lei física da inércia.
Mas há duas inércias: a do repouso e a do movimento, ambas difíceis de contrariar.

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Cinquantenaire Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Nem só os portugueses adoram comemorações, e dentro destas as que correspondem a datas redondas – centenários, cinquentenários, bodas da parta, de ouro ou diamante, e por aí fora.

Por exemplo, em Bruxelas foi criado um parque dedicado ao cinquentenário, a que se seguiu o do centenário e o do sesquicentenário, referidos à data da independência do país (1830).
A pulsão comemorativa levou o Estado Novo e montar a Exposição do Mundo Português e a desenvolver o plano das Escolas dos Centenários, ambos evocando a dupla comemoração da Independência (1140) e da Restauração (1640).
Os acontecimentos em curso em França parecem ser um cunho comemorativo, embora não pareça, e ninguém o tenha invocado.

Na verdade, comemora-se (?) este ano o Cinquentenário do Maio de 68, essa não revolução que mudou a França. Não revolução, porque começou com manifestações de estudantes, sem programa político e sem apoio de qualquer partido. Mais tarde, todos se precipitaram para tirar dividendos dos acontecimentos, pela positiva ou pela negativa, mas na origem estava, de fato, uma alegre anarquia, bem sintetizada pela resposta do estudante alemão “Red Danny” Cohn Bendit à pergunta natural de um jornalista: “afinal, o que é que vocês querem’”.
“Tudo, e já”, foi a resposta.

Daniel Marc Cohn-Bendit, de seu nome completo, tornou-se deputado do Partido Europeu dos Verdes, com lugar de destacado deputado no Parlamento Europeu, e recentemente condenou o movimento dos “Coletes Amarelos”. Segundo disse, “em 1968 lutámos para tirar o General de Gaulle do Poder; hoje eles querem pôr um general no poder”.
Portanto, nestes dois momentos da História recente da França, temos um movimento não lançado por nenhum partido político, mas que ameaça subverter a ordem estabelecida. Em 1968, após um período de turbulência e alteração em todos os sectores da sociedade, nomeadamente nos costumes, tudo voltou ao normal, ficando em quem participou nas barricadas uma recordação romântica, algo semelhante ao festival de Woodstock, outro evento que mudou as mentalidades.

Raramente as sociedades mudam sem uma forte pressão; por vezes essa pressão vem de fora, como forma de romper o imobilismo a que as sociedades se acomodam, talvez pela aplicação da lei física da inércia.
Mas há duas inércias: a do repouso e a do movimento, ambas difíceis de contrariar.
Sabemos bem nós, os portugueses, o que foi contrariar a inércia de repouso do Estado Novo, e depois a inércia de movimento do PREC.

A França tem um historial de mudanças violentas, da qual a mais conhecida e com maiores consequências, até a nível mundial, foi a Revolução de 1789. Mas depois disso houve a instituição do Império de Napoleão Bonaparte, a Restauração dos Bourbons, a Monarquia de Julho (1830), a II República (1848), o II Império (1852), a derrota na Guerra Franco-prussiana e a criação da III República (1871), a I Guerra Mundial, a derrota de 1940, a ocupação alemã até 1944, seguida do advento da IV República, e a crise de 1958 (a dez anos de 1968!) que culminou na tomada do poder por de Gaulle e a instituição da V República.

A história de cada uma destas convulsões continua a fazer rios de tinta. Delas destacamos alguns pontos críticos:

• O Terror Vermelho, de 1793 (execuções sem culpa formada), e o Terror Branco que se seguiu;
• O 13 de Vendémiaire (5 de outubro de 1795), em que Napoleão, um então obscuro general de artilharia, reprimiu uma insurreição realista em Paris a tiro de canhão, catapultando-o para a fama;
• O cerco de Paris em 1871, em que os prussianos ficaram a assistir à criação da Comuna de Paris e à sua repressão, com o banho de sangue que se seguiu;
• A ocupação e a libertação da França durante a II Guerra Mundial;
• A nomeação de de Gaulle em 1958, ainda hoje difícil de classificar em termos de direito constitucional.

Todos estes acontecimentos são exemplos do que se pode chamar o modo de vida galo-francês, ou seja, a França na sua essência. E é assim que ela tem de ser encarada.
Como pano de fundo, constatamos que todas as mudanças se deram em ambiente de tensão ou violência, como revolução, derrota militar e/ou ocupação. Lição aprendida.

De modo que o que hoje se passa em França é como que uma fatalidade histórica, em que uma reivindicação aparentemente anódina se transforma numa bandeira de combate, deixada para trás quando a reivindicações originais são satisfeitas.
Assim foi com os exames ou as casas de banho mistas em 1968, ou com o preço da gasolina em 2018. De onde se conclui que é fácil tirar o Diabo do saco, mas difícil é tornar a metê-lo lá dentro.

Para aliviar as tensões, eis que vem Donald Trump, pela habitual via do twitter: segundo ele, o Acordo de Paris sobre alterações climáticas [a nível global] estaria condenado pelas manifestações de França [do colete amarelo, sobre preço dos combustíveis].
Um momento divertido numa situação preocupante.
1958, 1968, 2018: quando estiver passada esta crise, vamos concentrar-nos na de 2028 (na pior hipótese) ou na de 2068 (se tudo correr bem).
Será mais um cinquentenário.

Nuno Santa Clara

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