A (nota) mentos - BarreiroUma vila com história transforma-se…num guetto do concelho!

Por Jornal Rostos
A Vila do Lavradio já, de há muitos anos, devia ter sido objecto de estudo, no que diz respeito à revitalização do seu espaço urbano.
Digo isto, apesar de reconhecer que muito tem sido feito, essencialmente na recuperação de espaços urbanos vazios.
Só quem não tiver olhos na cara, ou por má fé, não vê, ou não quer ver, os muito milhares de contos e euros, que foram gastos, nas muitas intervenções que foram feitas na reconversão de logradouros, ou na colocação de passeios, em zonas que estavam ao abandono há décadas, fruto do urbanismo desenfreado iniciado a partir dos finais dos anos 60, prolongando-se pelos anos 70 e 80.
Ainda nos anos 80, existia um vazio urbano, entre o Lavradio e Baixa da Banheira, com zona de eucaliptos, onde foi construída a Urbanização dos Loios. Ela mesmo sendo desenvolvida, sem alguns passeios e arruamentos.
Uma das zonas de lama e pó foi vivida, durante décadas, nos acessos às Escola do Ensino Básico nº 2 do Lavradio e Mercado do Lavradio, situação só resolvida nos mandatos de Carlos Humberto.
Alguns espaços na Urbanização dos Loios, só foram construídos na gestão de Emídio Xavier e, outros, ainda na gestão Carlos Humberto, mesmo neste último mandato.
Mas, desde há alguns anos que venho a alertar para a necessidade de o espaço urbano da Vila ser estudado, de forma a ser implementado um programa de revitalização urbana. Repensando-se o espaço público e criando condições de fixar comércio, gerar algum emprego e criar condições e motivação para dar vida à vila, criando centralidades de partilha comunitária.
Abordei esta matéria, pela primeira vez, em conversas em torno da candidatura de Emídio Xavier, à presidência da Câmara Municipal do Barreiro.
Na altura, exercia o cargo de Presidente da Direcção da SFAL, e, um dos temas era o encerramento da Rua Carvalho Araújo, uma ideia que a Colectividade já, há algum tempo, defendia, só que não se tratava de encerrar por encerrar, como aconteceu, tratava-se de criar um espaço público, que não devia ficar pela área frente à SFAL. E, de facto, por isso mesmo, a experiência falhou, porque não tinha consistência territorial, nem massa critica económica e social.
Depois, voltei a insistir sobre o assunto, numa reunião pública da Câmara Municipal do Barreiro, era, então Joaquim Matias, vereador do Planeamento.
A minha reflexão centrava-se na importância de gerar zonas pedonais, que fossem geradores de um espaço dinâmico para comércio e restauração, nomeadamente, em torno duma área urbana situada entre a Rua Egas Moniz e a Rua Luis Furtado de Albuquerque, estabelecendo pontes com a «Praça» da Antiga Praça, o novo Mercado, a Piscina e a Urbanização dos Loios. Uma grande centralidade da vila.
Criar neste espaço territorial uma zona pedonal, com circulação automóvel restrita, de forma a promover uma centralidade – uma área de convívio social, com esplanadas – melhorando a segurança, com as pessoas a ter pontos de encontro e convívio.
Com o passar do tempo gerava-se um espaço de sociabilidade, com condições de qualidade, motivador de fixação de habitação, porque a habitação não é só a casa, são também os serviços públicos e serviços comercias que são disponibilizados. E, nessa zona podiam fixar-se os serviços.
Estas ideias de revitalização urbana, na altura foram acolhidas, como sugestões a analisar.
Tempos depois, numa campanha eleitoral, voltei a comentar o assunto, foi dito, que, esta era uma matéria que estava em estudo e que, até, já existiriam alguns esquiços e abordagens.
Um dia, também numa reunião pública de Câmara, com o Vereador Rui Lopo, responsável pela área do Planeamento, voltei a insistir na necessidade de ser pensado e estudado, com urgência o espaço urbano do Lavradio.
Coloquei, na altura, um alerta e uma preocupação, sublinhando que, se não foram tomadas medidas, se não for pensado o espaço urbano da vila, e, a sua requalificação, por este andar, o Lavradio tende a transformar-se num gueto do concelho do Barreiro.
O encerramento da Agência da Caixa Geral de Depósitos, da Estação dos CTT, agora da Agência do Millenium, são alguns dos sinais das transformações da vida da comunidade, do seu permanente envelhecimento e da sua perda de poder económico, e, de como o envelhecimento do espaço urbano pela sua não requalificação, afecta a qualidade de vida.
Os serviços só se fixam quando se justificam pelo seu movimento, pelos custos-beneficios que as entidades avaliam, para os manter ou não. São os negócios que atraem negócios.
Se uma vila vai perdendo população, se os mais novos vão partindo, se o espaço urbano não é atractivo, a decadência é natural. Tudo vai perecendo, se não vai renascendo. É a lei da vida.
Hoje, quando recebi a noticia que a Agência do Banco Millenium vai encerrar no fim do mês, ocorreram-me à mente estes meus actos de cidadania, de exigência, de protesto, de indignação – desde as gestões de Emidio Xavier e em sucessivas tomadas de posição nas gestões de Carlos Humberto.
O Lavradio lá vai caminhando para o gueto. Sem requalificação que se vislumbre um estudo ou uma ambição que apresente uma visão, para dar nova vida e atractividade, ao seu espaço urbano.
Exigir a revitalização de forma a abrir portas ao futuro é uma prioridade. Por mim, já o digo há décadas.
Depois, a juntar a isto, era importante que, em termos de apoios ao associativismo fosse compreendido o papel que desempenham, mesmo com as suas dificuldades, as associações locais, as quais de forma resiliente, têm contribuído para manter vivos espaços de sociabilidade, pontos de encontro de combate à solidão, espaços dinâmicos e vivos que dão um contributo único para manter a coesão social.
As associações funcionam, ano após ano, como pontos de encontro de gerações, insubstituíveis por, seja, qual for o evento pontual de animação do espaço público. Mesmo, reconhecendo estes como importantes e inovadores.
Era bom discutir com o Movimento Associativo dinâmicas de promoção e valorização da cidadania.
A requalificação dos «sitios» que fazem o concelho do Barreiro, devia ser uma das primeiras linhas estratégicas da vida politica autárquica, para fixar os que estão a viver, aqui e agora, e, afinal, dar-lhes qualidade de vida – foi isso que foi sendo feito com a recuperação de logradouros e construção de arruamentos, mas que, agora, tem que passar para outro patamar no pensar e fazer cidade.
O problema de fundo não é o Millenium sair. O Millenium, a CGD, e outros bancos que aqui existiram e saíram, saíram porque tem objectivos económicos, metas para as suas agências. Se não são atingidos. Ponto final.
Agora talvez já seja tarde…eu barafustei, apelei, disse, revitalizem para fixar e dinamizar o comércio local.
O Lavradio vai envelhecendo no seu tecido demográfico, no seu espaço urbano, no seu edificado. Sentem-se os sinais.
Já não vou falar mais sobre o assunto. Se um dia acharem por bem, analisem e vejam se ainda vão a tempo de evitar que uma vila com história se transforme…num guetto do concelho.
António Sousa Pereira













