Barreiro - Por dentro dos DiasDez anos, afinal, não é muito tempo…

Por Jornal Rostos
Há dias que são iguais. Há dias que são diferentes. Afinal, aquela diferença, que só nós, cada um de nós regista, lá no fundo de si, naquele lugar do silêncio, onde conversamos com os nervos e sorrimos.
Hoje, é um desses dias, um dia marcante no tempo que vivi, e, de facto o que conta na vida é o tempo que vivemos, o tempo que se crava em sementes, essas donde nasce a memória. A memória só faz sentido quando é o que fomos, o que somos e o que ainda estamos para um dia ser, porque a vida não é um estar, a vida é sempre, sempre mesmo, acima de tudo um ser – sendo!
Hoje, pela manhã, fui aos CTT levantar uma carta registada. Enquanto aguardava a funcionária, que já conheço há alguns anos, dizia-me que ainda não tinha idade para se reformar, e, embora podendo já tomar essa opção, vinha para casa com algum corte, por isso a sua decisão foi ficar até ao fim - “também se for para casa, sei que vou passar a vida em casa, por isso opto por estar a trabalhar. E levo a reforma completa”.
Escutava as suas palavras e recordava as minhas opções. Eu decidi optar pela aposentação, com todos os cortes. Porque, entre os cortes financeiros e os corte no sonho de viver, optei de facto por viver.
Era uma ansiedade enorme, um desejo que nascia na carne e nos ossos do pensamento. Voar. Viver. Liberdade. Sentir os dias e vivê-los com o prazer de fazer apenas o que me dava gosto fazer. Dar vida aos dias. Tocar o sol.
Foi no dia 1 de Fevereiro de 2009. Faz hoje, precisamente, dez anos que iniciei essa nova vida.
O primeiro dia foi vivido ali, naquele silêncio, em conversa com as gaivotas, na praia linda do Baleal.
Um dia que escrevi ideias no meu caderninho. Projectos. Caldeiradas de Palavras. Tantos sonhos.
E muitos foram sendo construídos, com limitações, mas, foram semeando futuro. É que no futuro está sempre em aberto esse passo de realizar os sonhos.
Afinal, só quem deixa de sonhar é que enterra os sonhos. Matar um sonho é suicidar o futuro.
Sim, eu sei que foi esse tempo da troika que veio adiar, baralhar e travar todos os projectos. Tanta coisa adiada. Podia ter sido diferente, podia. Mas, apesar de tudo nunca desisti. Cá estou, tal como há dez anos a sonhar futuro.
Enquanto sonhar futuro, sinto, dentro do meu coração essa energia que faz sorrir, faz nascer emoções vivas nos dias e ignorar os que estão. Já vi tantos no estar. Os do ser, esses, são menos. São esses que ficam cá no meu respeito, são os que me marcaram pelo diálogo, pelas diferenças, pelas opiniões, pela dignidade.
É por isso que vivo os dias de hoje, cada vez mais, com este sentimento de liberdade, independência, serenidade. Todo o tempo é meu.
Vivo com intensidade esta paixão de comunicar, de pelo meu trabalho dar contributos para que sejam partilhadas ideias, exista diálogo, haja abertura às diferenças, que se combatam as intolerâncias. Fazer democracia. Confronto de valores. Abertura de caminhos. Pluralismo. Cidadania activa.
Sinto isso todos os dias. Faz hoje dez anos, nos mais dez ou vinte que tenho pela frente para viver, é, será sempre este o caminho que vou seguir – com valores, com princípios. Os mesmos de todo o tempo que vivi – valorizar os direitos humanos, valorizar os direitos da natureza, valorizar as diferenças. Três Dês.
Isto é Liberdade. Isto é Dignidade. Isto é Democracia.
Dez anos de lutas, contra troikas financeiras ou contra troikas ideológicas. Afinal, dez anos não é muito tempo.
E, cá estou a sonhar futuro, sempre!
António Sousa Pereira













