Inferências - Barreiro versus AeroportoDepois no próximo século quem cá estiver que resolva.
A Margem Sul vai continuar a ser a Margem Sul, e vamos todos continuar felizes…com o sonho de estar com um pé no Barreiro, outro em Lisboa, porque, afinal, Lisboa é o centro de Portugal.

Por Jornal Rostos
Sei que as coisas devem ser avaliadas e projectadas por quem tem conhecimentos. Mas, sei também que cada um de nós que vive numa cidade deve procurar ter opinião e pronunciar-se sobre o fazer cidade e o fazer cidadania.
Hoje, o que me motiva a escrever este texto tem a ver com a necessidade de me expressar e dar opinião, perante uma realidade que estou consciente, vou ter que viver com ela nos próximos anos.
Tenho a certeza que nada vou adiantar, que, na verdade, aquilo que o Poder Central decidiu está decidido.
E, no caso, nesta minha cidade, o Poder Local sobre esta matéria vai apenas limitar-se a utilizar argumentos que possam demonstrar que é ‘um bom aluno’.
Uma coisa gostava de deixar claro nesta minha reflexão, é que considero que a decisão de construção de um aeroporto, deve ter por base o planeamento de uma região e o seu contributo para o todo nacional.
A construção de um aeroporto tem que ser parte integrante de uma estratégia de desenvolvimento nacional, e, neste caso, considero que mais que pensar Lisboa, o importante era pensar Área Metropolitana de Lisboa.
Quando penso aeroporto, ocorrem-me sempre à memória os argumentos que foram utilizados, durante décadas, para defender a construção do aeroporto na OTA, sendo sublinhado que Lisboa devia crescer para Oeste, até Óbidos e Peniche – até onde se estendia a cidade aeroportuária. Uma estratégia expressa no Plano de Ordenamento do Território do Oeste.
Depois, com o governo de José Sócrates Lisboa emergia noutra direcção, com a construção do Aeroporto em Alcochete/Montijo. A cidade aeroportuária estendia-se ao Barreiro, a Plataforma do Poceirão, a Plataforma de Coina. Os mesmos argumentos agora na versão cidade de duas margens.
Hoje, a conclusão que se pode tirar depois de terem sidos escutados todos estes argumentos – para a OTA ou para Alcochete - é só uma – Lisboa quer ser e não abdica de ser o centro aeroportuário e, apenas quer ter um apeadeiro que descongestione. Depois no próximo século quem cá estiver que resolva.
Alivia-se a pressão de Lisboa. Retira-se o ruído das áreas envolventes do aeroporto. A malta da margem sul aguenta, sempre aguentou.
De nada serve o PROT, onde se fala e está expresso o conceito ‘cidade de duas Margens’. O importante é pensar Lisboa, porque Lisboa é Portugal e o resto é paisagem.
No mundo de hoje, que se fala em ‘estradas do mar’ que o planeamento da capital do país, devia ter em conta a construção de uma mega região de Sines a Peniche, dando potencial a Lisboa para lhe dar dimensão e escala europeia, continuamos a pensar Lisboa à luz dos tempos de Eça de Queirós.
É por isso que a Margem Sul continua a ser a Margem Sul, um território suburbano de Lisboa.
No passado servia a capital com madeira, para carvão, ou com produtos agrícolas, depois foi o território de industrialização, por fim serviu como habitação dos que eram empurrados pelo mercado imobiliário. E vai continuar a ser assim...
A zona industrializada na margem norte, essa após o processo de desindustrialização foi recuperada, reconvertida, hoje, é o Parque das Nações.
As zonas industrializadas da margem sul – Barreiro, Seixal e Almada – estão praticamente ao abandono, sem estratégia.
A Margem Sul vai continuar a ser a outra banda.
Se quisessem a mudança avançava o NAL em Alcochete.
Esta é a questão central do debate. O resto está decidido.
O novo aeroporto do Montijo, no seu estudo de impacto ambiental espelha isso – o centro é Lisboa.
Ligações fluviais para servir o aeroporto. Uma quarta via na Ponte Vasco da Gama, para colocar o aeroporto dentro do Parque das Nações.
E, neste processo todo a Margem Sul fica feliz, com as migalhas que vai receber, como contrapartida dos efeitos negativos.
O novo aeroporto do Montijo demonstra que Portugal é um país sem estratégia, que vive de impulsos, de interesses de circunstância, um país que depende do Poder Central, seja ele qual for, um país que vive para Lisboa e pensa Lisboa como o centro do país.
O novo aeroporto do Montijo é o pensar Portugal a 20 anos, não é uma estratégia a longo prazo, é o gastar para esta geração, para viver o hoje, os outros amanhã que se organizem.
O novo aeroporto de Lisboa no Montijo insere-se no modelo de pensar Portugal feito de autoestradas, que destruiu a ferrovia. Agora quer remediar-se.
Afinal, as eleições são de quatro em quatro anos, para quê pensar um país a 100 anos.
O Barreiro não vai ganhar nada com o novo aeroporto, porque está num gueto e vai continuar num gueto.
A Margem Sul vai continuar a ser a Margem Sul, e vamos todos continuar felizes…com o sonho de estar com um pé no Barreiro, outro em Lisboa, porque, afinal, Lisboa é o centro de Portugal.
António Sousa Pereira













