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Inferências

Por dentro dos Dias - BarreiroUma semente que ajuda a fazer eternidade.
Até sempre, Fernandinho!

É isso, cada um de nós constrói a vida de laços, esses laços que são afectos, esses laços que marcam os instantes partilhados, esses laços que são as bandeiras inscritas em recordações vividas, no estar em comum.
São, sim, são essas memórias que nós sentimos explodir pelos nervos, nestes instantes que sentimos um amigo partir. A tristeza toca os olhos. Ternamente.

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Por dentro dos Dias - Barreiro Uma semente que ajuda a fazer eternidade. Até sempre, Fernandinho!

Por Jornal Rostos

A vida é este caminhar rumo a esse encontro com a eternidade. Todos sabemos isso, ao longo do tempo que vamos percorrendo, essa, afinal, é uma realidade presente. Sim, procuramos esquecer, talvez ignorar, até que, um dia, essa realidade toca o nosso quotidiano, quando recebemos uma qualquer mensagem, aquela que transporta a noticia da partida de um amigo ou amiga.

Vivemos e vamos abraçando o tempo, todo o tempo que faz de nós, o que nós somos. O tempo não é um vazio. O tempo vivido só faz sentido quando vivido por dentro de laços, quando o construímos com laços humanos. Abraços. Brincadeiras,. Bocas. Risos. Provocações. Cumplicidades.
São esses os laços que nos ligam aos lugares, ao sitio, à terra, são esses os laços que nos levam a sentir que a nossa terra, é essa, a terra onde vamos construindo memórias, nos nervos, onde guardamos todos aqueles que nos fizeram encher o tempo não de palavras, mas de vivências reais.

É por isso, só por isso, que dói sempre, quando sentimos a partida de um amigo ou de uma amiga, porque, com eles partem memórias. Instantes. Contextos. É um pouco de vida vivida que rompe dentro do nosso tempo vivido.

Recordações. É isso as recordações. Os sonhos.
Hoje, recebi uma dessas mensagens, de forma inesperada, seca, como o som de um trovão a rasgar a mente, ou de um relâmpago a iluminar as memórias.
Partiu o Fernandinho. Vivemos cumplicidades. Partilhamos situações. Construímos esperanças. Acreditamos num mundo melhor, aqueles sonhos imensos de flores que floriram no canteiro de Abril. Ali, lado a lado, acreditando. Até gritando – “Fora com a canalha, o poder a quem trabalha”.
Fomos dos primeiros que, numa noite, num sótão, juntámos vontades para sonhar um mundo novo, então, com o PREC a fervilhar nos ossos. Era um desejo enorme de lutar pelo bem comum, sentido na força da palavra Liberdade.

O mundo mudou. A realidade transformou-se. Caíram muros. Romperam-se teias. Tomei opções diferentes, conscientemente, na certeza que me colocava do lado da barricada, ao lado dos mesmos de sempre, aqueles, ditos por Fernão Lopes como os «ventres ao sol», que nada têm a perder, só sonho para construir. Sofrem. Acreditam. Muitas gerações. Transformando.

Seguimos rumos diferentes, mas, o Fernandinho, nunca, mesmo nunca, deixou de partilhar comigo a amizade, o respeito. Uma vez ou outra, quando estava mais animado, lá vinha uma «boca», não de falta de respeito ou de ofensa, mas pura brincadeira acintosa, própria de quem guardava na memória, os tempos vividos.
Por fim, voltamos de novo a estar sentados na mesma barricada essa que apontava o eterno caminho de querer transformar o mundo. Afinal, o mundo é para transformar. Só quando transformamos evoluímos, construímos, fazemos futuro no presente.

É isso, cada um de nós constrói a vida de laços, esses laços que são afectos, esses laços que marcam os instantes partilhados, esses laços que são as bandeiras inscritas em recordações vividas, no estar em comum.
São, sim, são essas memórias que nós sentimos explodir pelos nervos, nestes instantes que sentimos um amigo partir. A tristeza toca os olhos. Ternamente.
São esses laços que rasgam as memórias do tempo. Os laços de súbito feitos em lágrimas de eternidade.

Recordo. E, ao mesmo tempo que uma mágoa faz doer o tempo por dentro do pensamento.
Agora, imagino-te a rir no outro lado, como quem está, ali, em pleno baile da SFAL, uma matrafona ruidosa, nos dias de carnaval . Gracejas. Toda a gente divertidamente dá sonoras gargalhadas a olhar com espanto para os teus gestos. Tu, em fato de banho feminino, no palco, ergues a perna, esticas os braços, com ar sereno, e, os ditos, espreitam de tal forma que os risos soltam-se até às lágrimas.
Recordo esses dias, e, aqui e agora, não deixo de esboçar um sorriso para ti, num fraterno abraço.
Recordo quando cantavas a Grândola, e, como adoravas o Zeca Afonso e o Adriano.

Recordo aquele dia, quando fizemos no teu Quintal – sempre com o carinho da Ti Natália e do Ti Jerónimo, como era habitual, tudo aceitavam, e, ali, fizemos um petisco, para dar um grande abraço de despedida ao Bento, que no dia seguinte partia para Angola. Essa guerra que, antes de Abril acontecer, nós contestámos. Sim, porque não descobrimos o amor à Liberdade com Abril.

Recordo, aquela noite, no ano de 1974, que viemos a pé da festa da Moita, e, junto à Academia de Alhos Vedros, estava um banco de madeira comprido, ali, mesmo paredes meias com o Banco Português do Atlântico – acho que era esse o nome – e, todos, os três ou quatro que viemos a pé divertidos, noite fora, com luar, sempre a cantar e a brincar, naquela irreverência da juventude, com o sangue na guelra, olhamos o banco e decidimos: «Vamos assaltar o banco!».
E, lá vai disto, pegamos no banco de madeira que por ali estava, se calhar onde o pessoal da Academia se sentava, e , com a nossa irreverência, trouxemos o banco para o Lavradio.
Acho que ainda hoje está no Quintal da casa dos teus velhotes. Dois seres lindos, amorosos, do mais puro que conheci como seres humanos, como apaixonados pelo Lavradio. O Ti Jerónimo homem de grande pureza que se sentia saltar do coração. A Ti Natália de uma simplicidade que floria no sorriso dos seus olhos. É ela que está naquele mural, por cima da tasca do Manel da Galega, no centro do Barreiro. Aquela rosto enigmático com o dedo junto aos lábios. Uma bela fotografia de Augusto Cabrita.
É verdade, falei contigo Fernandinho, de levarmos a Ti Natália ver o mural. Disse-lhe. Infelizmente, nunca o cumprimos.
A vida é isto. Vivemos. Partimos. Deixamos o que fomos, neste tempo que vivemos, como uma semente que ajuda a fazer eternidade.
Até sempre, Fernandinho!

António Sousa Pereira

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