Por dentro dos dias - Barreiro / Vila Real de Santo AntónioDias vividos no tic-tac por dentro do coração
Acima de tudo, pensar que somos e seremos sempre, apenas, o amor. É o amor a força que nos move.

Por Jornal Rostos
A vida é uma incerteza. Construímos os dias com muitos desejos, imaginamos que conquistamos o sol, pensamos futuro, ignorando o presente. O passado é uma mera ausência. Tempo vivido.
Um dia, qualquer dia, inesperadamente, todo o tempo cai sobre os nossos ombros. A criança na areia da praia construindo castelos de amor. As lágrimas de ternura rasgando a noite de penumbras. Tudo o que fomos. Tudo o que somos.
E, de repente, tudo se quebra, num vaso sanguíneo que se rompe dentro do cérebro, onde guardamos memórias, paixões, afectos, iras, solidão. Tudo que se escreve com a palavra amor. Tudo que se sente com a palavra dor.
A vida rasga o tempo e os nervos. Foi essa emoção que guardei destes dias.
Sim, foram 42 dias vividos por dentro do coração, num tic-tac, sentido a todo o instante a romper o silêncio. A palavra esperança, continuamente, a brilhar com o sol e o luar. Foram dias de combate pela vida, num silêncio vibrante que arrasava os nervos de dúvidas. Eram incertezas. Dias vividos por dentro de angústias.
Escutava tuas palavras. Os teus diálogos que transmitias, com os olhos brilhantes de amêndoa. Eram viagens por lugares distantes. Só tu sabes esses caminhos percorridos. Foram muitas conversas, com muitos ausentes, com todos aqueles que partiram e fazem parte da nossa memória. Sim, tu foste viajar ao outro lado, ao lugar da eternidade. E regressavas todos os dias com um sorriso, contando, convencidamente, todas as conversas, reais, que em nada pareciam delírios.É nesses instantes que sentimos aqueles sons da canção do poeta, essa que nos diz – até os mortos vão ao nosso lado.
Uma amiga dizia-me, no dia do teu regresso à vida real. Foi mais uma vitória do Serviço Nacional de Saúde. Concordei. Sim, foi uma grande vitória. Uma incrível vitória.
Vivi estes dias nessa angústia de quem sente a luta pela vida. Sentia-se que existia uma plena entrega, dando tudo que era necessário, acreditando, levando o combate até ao limite. Era preciso viver. Um dia de cada vez, nesse combate de luta pela vida, passo a passo, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Um dia de cada vez, sempre no fio da navalha, sem desistir. É preciso acreditar. Era um dar sem pedir nada em troca, se não essa alegria de dar, tudo por tudo, para sentir a vida renascer.
Foram 42 dias vividos nesse tic-tac, segundo a segundo. Tudo começou naquele voo, rasgando os céus entre Faro e Lisboa. Vi, nos olhos, o brilho de quem sente que transporta nos braços a esperança de vida, a florir nos nervos.
Depois, dia a após dia, uma equipa, outra equipa, transmitindo em todas as palavras a esperança, que abria todos os dias o caminho da certeza, suavemente: isto vai amigo, isto vai, com calma. Isto vai.
Foram 42 dias, nos quais, por vezes o tempo parava. Os olhos tremiam reluzentes. Mas, no outro dia, uma flor, nascia num sorriso, nos teus lábios vermelhos.
Grande guerreira. Lutadora. Ali, no combate, com os nervos a soltar amarras. Navegar, Sonhar.
Foram 42 dias, que permitiram pensar, tudo o que somos, o nada que somos.
Acima de tudo, pensar que somos e seremos sempre, apenas, o amor. É o amor a força que nos move.
Uns dando de si, por paixão, na luta pela vida, outros erguendo os nervos para gritar e viver a vida.
Obrigado ao Serviço Nacional de Saúde.
Obrigado ao Hospital de Faro.
Obrigado ao INEM.
Obrigado ao Hospital de S. José.
Foram 42 de aprendizagem, dias que não vou esquecer. Uma lição de amor e ternura.
E, para ti, minha heroína, um beijo do tamanho do sol, esse beijo que aquece o coração.
António Sousa Pereira













