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Inferências

Por dentro dos dias - BarreiroEntre a solidão solidária e a solidão solitária

Este tempo e esta angústia convida a descobrirmos o essencial da vida, a vivermos com a intensidade que move o coração, porque, é verdade, todas as ambições, todos os calculismos, se esvaem nas incertezas de variantes desconhecidas.

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Por dentro dos dias - Barreiro Entre a solidão solidária e a solidão solitária

Por Jornal Rostos

Nestes dias dramáticos de isolamento social, há flores que caem e ficam deitadas na terra, pisadas pelo silêncio do silêncio. Sentimos essa dor que rasga a dor, para além da própria dor, como um zumbido que fura o tímpano das palavras, numa solene amargura, sentida sem o sal das lágrimas. Uma dor que rói as entranhas do pensamento.
Impotentes, ficamos impotentes. Um amigo que parte, outro amigo que parte, uma amiga que parte, dia após dia, um e outro, outra, levados silenciosamente, por dentro do silêncio, numa partida sem adeus, sem despedida.

Sentimos que parte um pouco do que fomos e vivemos. A amizade. A recordação. A vivência. A comunidade. Aquela conversa que, um dia, nos empurrou para sentirmos a realidade pura e dura, dentro dos dias.
Sentimos, dolorosamente, esse corte radical que desfaz a vida por dentro da vida, porque cada amigo que parte, com ele parte um pouco do que nós fomos e somos. Um beijo. Um abraço. Uma luta. Um sonho. Um projecto. Um dia que se inscreveu como raiz do pensamento ou como pétala a voar no vento. A amizade não morre, a amizade quando é amizade, feita de partilha do tempo, é seiva que dá vida à nossa temporalidade.

Dói ver os amigos partir com essa ausência da despedida. Partindo numa partida que se vai num, até sempre, solene, mas silencioso. Dói a ausência do ânimo que une e tempera a solidariedade.
Sentimos, nestes dias, que perdemos, esse simbolismo que toca o nosso viver em comunidade, esse momento de despedida. Esse até já, até sempre. Esse adeus simbolizado numa flor, numa lágrima, num beijo, num adeus, esse instante, único que gravamos na nossa memória. Um abraço de eternidade.

Sentimos que esta morte, contabilística, que nos marca os dias, afinal, até mata a própria morte natural, aquela que é feita de tristeza, aquela humanamente sentida, esperada ou inesperada.
Sentimos que fica aquele lugar desocupado, vazio, reduzido a uma presença emocional. Recordação.
Aquela morte que solidariamente, todos nós, tantas vezes, vivemos em olhares partilhados – “Ai amigo, só nos vamos encontrando nestas horas. É triste”.

Depois, neste dias, mergulhamos no oceano do esquecimento, nos silêncios vazios, ficamos impotentes, ao tocar com o pensamento a dureza gerada pelo vácuo dos números que se acumulam numa cadeia de universalidade.
Números que tocam o brilho dos olhos quando remexemos na sua frieza e eloquência. Números só números. Cada número um sonho, um ideal, uma partida, Números. Equações. Somas. Subtracções. Multiplicações. Projecções. Gráficos.

Os números transformados em meros grafismos, desumanizados. Números que atormentam e geram a indiferença. Gráficos que, com crueldade, infelizmente, são eles que abrem a porta à esperança.
Vivemos estes dias com uma intensidade emocional como quem vive no centro de uma tempestade que nos arrasta num confronto entre o real e as memórias, serenamente, silenciosamente, levados num voo com saudade do futuro.
Vivemos os dias em ruptura, assim como um rio que, no seu deslizar, vai rasgando as margens para se deitar, lá longe, no oceano do esquecimento, com a morte a acenar à vida e a vida a acenar à morte.

Este tempo e esta angústia convida a descobrirmos o essencial da vida, a vivermos com a intensidade que move o coração, porque, é verdade, todas as ambições, todos os calculismos, se esvaem nas incertezas de variantes desconhecidas.
Nestes dias, todos percebemos, que, afinal, de nada serve marcar os espaços, de forma cénica, que de nada serve gritar ao mundo que não se está só, num estar sozinho, porque este é um tempo com o qual aprendemos, pela dor, a perceber que há uma diferença grande, muito grande, entre solidão solidária e solidão solitária.

Nestes dias descobrimos, por dentro do silêncio da ausência, que o importante é nunca nos abandonarmos a nós mesmos, porque, afinal, é nesse encontro com a nossa essência que está a nossa ligação à vida e ao mundo. Tudo o resto é espuma dos dias. Napoleão, aprendeu essa lição.

António Sousa Pereira

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