Barreiro - Por dentro dos diasUm dia a palavra dor beijou a palavra amor

Por Jornal Rostos
É este tempo que sinto, é este tempo que vivo, é este tempo que abraço, é este tempo que escuto, suavemente, ternamente, com os olhos a brilhar, com os lábios suspirando, com os nervos viajando pela madrugada, ao encontro do tempo que está escondido, confortavelmente escondido, nos recantos do pensamento, mas que está vivo, bem vivo, sempre que uma voz se ergue a exigir dignidade, sempre que uma voz se ergue a exigir pão, sempre, sempre, como diz o poema, que, no coração da cidade - há, sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz: Não!
É este tempo que me toca os nervos, aqui, nesta terra Barreiro, onde aprendi e descobri o amor à liberdade. Irriquieto. Insolente. Escolhendo. Rasgando. Nunca abdicar de escolher. Ser.
Foi aqui, que aprendi essa liberdade que me ensinou a sentir o silêncio, a liberdade que me fez sempre sentir o sabor do pensar, o sabor de amar, o sabor de ser, cidadão de corpo inteiro, no associativismo, no cooperativismo, no jornalismo, foi essa energia, que descobri nesta terra, muitas vezes infantilmente, muitas vezes ingenuamente, nesse caminhar em busca de mim próprio, apenas com o desejo de estar e fazer comunidade. Operário. Funcionário Público. Pai. Avô. Cidadão.
Nunca quis envelhecer no tédio de conquistas. De pé, sempre de pé, como os poetas sabem estar, de olhos nos olhos. O resto é sempre apenas o resto. Cada um de nós é o que é, o importante é ser. No final, é o tempo, sempre o tempo, que tudo esclarece.
É neste tempo que me toca os nervos que expresso a minha gratidão aos 424 homens e mulheres, barreirenses, aqui nascidos, ou, que aqui construíram as suas vidas, pela sua luta, resistência, combate, através do qual deram um grande contributo para que, no ano de mil novecentos e setenta e quatro, num dia de Abril, histórico, esse que se escreve, vinte e cinco – um povo em festa sentisse a liberdade florir em cravos e num cântico – o povo unido jamais será vencido.
A todos esses homens e mulheres a minha gratidão, o meu obrigado.
Recordo, o Ti’ Felismino, que conversava comigo horas a fio, ali, na SFAL, de forma pausada e calma, sóbria, medindo os pensamentos, e, a quem nunca ouvi um auto elogio, um querer aparecer em fotografias, ou capas de jornais. Até que, um dia, por mero acaso, quando era Director do «Jornal do Barreiro», através de folhas de memórias, escritas numa letra cristalina pelo meu amigo António Marques, descobri que o Ti’Felismino, operário ferroviário, era um herói, um lutador, fundador da primeira célula da Juventude Comunista, no Barreiro. Um homem puro de ideais puros, que contava histórias de vida e de esperança. Ou, o Ti Flávio Alves, de quem fiz a biografia, quando recebeu o «Barreiro Reconhecido» de lutador anti-fascista, e, senti meu rosto ruborizar, com uma emoção enorme, naqueles momentos que se inscrevem no fazer eternidade – quando o passado se encontra com o presente e sentimos no presente o futuro – ali, quando vi a rubrica do T’ Flávio na Bandeira Vermelha, que a PIDE o obrigou assinar, como testemunho do seu crime. A bandeira vermelha, que esteve exposta, no Barreiro, vinda dos arquivos da Torre do Tombo.
Ou o Ti’Manuel Cabanas, convicto socialista, meu conterrâneo, ali, no Teatro Cine, com a sua voz rouca e tensa, a erguer-se, com o GNR por trás, e dizer – “Estão aqui a pedir que se faça um minuto de silêncio em memória de Catarina Eufémia”, e, a sala levantou-se de forma imponente. Eu, que tinha ido levar a mensagem, fiquei preso ao chão, enquanto o GNR olhava e media meu corpo franzino, com um olhar inquisidor. Fiquei branco. Senti medo. Sabem o que é sentir medo. Eu senti medo.
É este tempo que me toca o pensamento, no brilho dos olhos, este tempo de Abril, neste mês que se canta, este mês que, quer queiram, quer não, é uma página marcante da história de um país com 877 anos de vida.
Este dia de Abril que faz a ponte entre o que fomos e o que somos. Globalização. Ultimatum. Guerra Colonial. Europa.
O 25 de Abril não é uma questão de fé, nem é uma questão ideológica. O 25 de Abril são três «dês» - democratizar, descolonizar, desenvolver. Estão cumpridos.
Como diz Fernando Pessoa, «cumpriu-se o mar», o que falta é «cumprir Portugal».
O 25 de Abril é o nosso reencontro com a palavra feita de sorrisos, gritos, abraços, beijos, silêncios no olhar.
O 25 de Abril é o dia que a palavra dor beijou, em liberdade, a palavra amor, fazendo florir a democracia.
António Sousa Pereira
16 de Abril de 2020













