Por dentro dos dias - BarreiroPensar para além do arco iris
Há muitos anos que ando no terreno. Já nada me espanta, no que se diz, no que se faz e no que se escreve na vertigem dos dias.

Por Jornal Rostos
A nossa comunidade é a nossa comunidade. A nossa comunidade é o lugar onde vivemos os nossos dias, o lugar onde somos envolvidos pelos acontecimentos. A vida de uma comunidade é caracterizada por relações humanas, nós, directa ou indirectamente, sentimos os efeitos das acções, boas ou más, de ironia ou humor, trágicas ou românticas, narcisistas ou megalómanas. É a vida.
Vivemos os acontecimentos. Pensamos os acontecimentos. Participamos. Ignoramos.
Uma coisa que a experiência de vida nos vai ensinando é que nada acontece por acaso. Em tudo o que se faz, o que se diz, há motivações, podem ser filantrópicas, económicas, politicas, religiosas. É humano. Podem ser gestos pessoais, empresariais, de grupos, de interesses, de movimentos. A vida é agir.
Podem ser actos de circunstancia, podem ser fruto de movimentos da história, podem ser a realização de ambições, ou desejos, podem ser a mera espuma dos dias.
Em suma é a vontade do querer – ser ou estar - que nos move, pessoalmente, ou colectivamente.
Viver em comunidade é aprender. Vivemos aprendendo. Somos sempre engolidos pelos acontecimentos. O mais belo da vivência em comunidade é retirarmos as lições das relações humanas. Antropologicamente. Sociologicamente, Psicologicamente. Uma riqueza que nos permite pensar. Filosofar.
Uma das coisas que me diverte é desbravar no dito, aquilo que, emerge como ponta do iceberg, aquilo que não está dito. As palavras e os gestos que são o mero verniz das unhas. Aqueles sorrisos que escondem as pupilas em sangue. Os lobos que querem passar por cordeiros e fazem dos outros os lobos.
Nos dias de hoje, aquilo que mais me entristece são aqueles que vivem, a surfar os acontecimentos, a pensar para além do arco iris.
Há muitos anos que ando no terreno. Já nada me espanta, no que se diz, no que se faz e no que se escreve na vertigem dos dias.
Paro de escrever. Vou seguir o conselho do João Domingos, e reduzir estes textos do pensar os dias. Há muito tempo para ir escrevendo e reescrevendo. A vida é longa. O importante é viver.
Escuto os sons. Delicio-me num momento musical, lento e suave. Um adágio de Bach.
Afinal, o meu cantinho é uma trincheira de Liberdade.
António Sousa Pereira
23 de Abril de 2020













