Por dentro dos dias – Barreiro«É aparência, mas as pessoas gostam é de aparência»
Em suma o importante é atrair IMI e taxas de construção. É vida.

Por Jornal Rostos
Ontem pela manhã, como faço muitas vezes aos sábados, vou tomar o meu café na Esplanada dos Dadores de Sangue, na Avenida da Praia, dou uma volta pelas páginas do jornais, e, depois, vou dar uma volta pelo Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita. Sento-me a olhar o Tejo. A «minha Catedral», onde marco encontro com aquela suavidade, onde se mistura o humano, a natureza, e, na minha interioridade viajo, em busca do «não sei quê», vou pelo Tejo, navego nas águas, e, como diz o poeta, descubro tudo o que lá está e o que lá não está – o passado das naus, ou, até, ao inevitável futuro, o comboio ligando Chelas ao Barreiro.
Imaginar é fácil. Podia idealizar um video. Com uma estação de comboios, ao estilo Santiago Calatrava, que concebeu a Estação do Oriente, imagino uma igual, ali, na zona do Pingo Doce/ TCB.
O Barreiro a 10 minutos do centro de Lisboa, e, então, fazendo, em pleno, parte integrante da cidade de metropolitana. Esta será, no futuro a nossa forma de abraçar a outra margem. Grande video.
Então, podemos sonhar ver nascer, aqui, no terrenos da Baía do Tejo, o Parque das Nações da Margem Sul. Uma zona que para além de habitação de qualidade, terá potencial para atrair empresas, de serviços e de novas tecnologias, dando ao Barreiro uma dimensão cosmopolita.
Esta é visão, que trás dentro de si a energia promotora – a âncora - que conduzirá à reconversão urbana e vai abrir o caminho para o Barreiro do século XXI e para os próximos séculos.
Um Barreiro metropolitano, mantendo dentro de si, pela sua dimensão, uma diversidade de lugares e sitios , servida por um serviço de transportes urbanos – TCB – de excelência, que será o sangue da vida de um concelho-cidade do Lavradio a Coina. Um Barreiro par viver e trabalhar. Um Barreiro com uma zona ribeirinha única da Quinta Braamcamp até à Mata da Machada, passando pelo nosso «Lago», na Polis, e, com uma ponte pedonal a ligar o sapal do rio Coina – dando escala económica e social ao eixo Barreiro e Seixal.
Um Barreiro que ganha escala regional, para potenciar os serviços instalados, nomeadamente, o Hospital do Barreiro, dando-lhe valências e colocou no centro da Península.
Abrindo caminho para a expansão urbana na zona sul do concelho e à logística. Tudo isto já foi dito e sonhado. E é por isto que o Barreiro devia bater-se, não com a ideia de saudosismo do passado, mas com a energia de uma comunidade que acredita que o seu futuro pode ser mais que transformar-se num dormitório. Limitando-se a pensar IMI e imobiliário.
Andava nestas minhas deambulações pelas margens do Tejo e cruzei-me com um amigo. Neste encontro veio à conversa o célebre «toque veneziano» da Quinta Braamcamp.
Dizia-me ele que, na noite anterior, num jantar de amigos, esse foi um dos assuntos de conversa.
“Para aquilo continuar ao abandono, se for feito o que dizem é melhor”, comentou.
Indignei-me. Uma pessoa só tem que se indignar. Uma indignação que à partida, nem tem nada a ver com o dito projecto, que está previsto no PDM, em vigor, elaborado na gestão de Pedro Canário.
A indignação começa por uma pessoa estar farto, mesmo farto, dessa treta da Quinta ao abandono, um argumento, dito e repetido, para gerar uma corrente de opinião que aceite, silenciosamente como verdade esta história do abandono. A Quinta não esteve ao abandono. Usar este argumento é gerar uma teia de fumo.
Ainda, na semana que passou na RTP, no Programa «Portugal em Directo», uma reportagem que abria com essa treta de “após anos ao abandono” agora há uma solução.
Este falso argumento, dito e repetido, é uma das razões que me levou, desde a primeira hora, a colocar um pé atrás, ficar com o bicho atrás da orelha, quando se anunciou a venda daquela pérola do concelho, onde, agora, se anuncia uma urbanização com um «toque a veneza». Outra redundância.
Uma coisa é certa. Esta é a verdade. A Quinta não está ao abandono há décadas, a Quinta está ao abandono, isso sim, desde que este actual executivo municipal tomou posse, e, sendo o seu proprietário, decidiu não levar para a frente a candidatura de fundos europeus aprovada que teria permitido uma intervenção naquele espaço e a sua recuperação do Moinho de Maré. E, até, podia ter avançado com outras candidaturas. Hoje já era outra realidade.
A opção foi deixar ao abandono. A opção foi meter na gaveta a visão da «Roda Gigante», assim como a visão, escrita nas páginas deste jornal, que aquele um espaço diferenciador para o concelho do Barreiro.
Mas, isso, era no tempo que existia o «grupo de pressão» chamado «Plataforma 2830», que foi aliado autárquico do PS, nas eleições de 2017.
Aliás, segundo o meu amigo, essa «Plataforma 2830» foi forjada como linha estratégica conduzir à escolha do rosto da presidência.
Eu, pensei, é verdade, essa «Plataforma 2830», sendo um bluf, foi a «força» que gerou os instrumentos que conduziu à vitória ao PS.
Neste processo foi central a gestão da opinião pública e criação de narrativas nas redes sociais.
E retomando a conversa, dizia-me o meu amigo, que no jantar, a conclusão que se tirava é que para a Quinta estar assim, então que avance este projecto.
“Viu o video sobre o projecto ?” – interrogou-me.
“Sim, vi, é uma visão tal como aquela da «Roda Gigante»”, respondi.
“É aparência, mas as pessoas gostam é de aparência”, referiu ele, recordando que o eleitorado do Barreiro mudou e a malta dos 30 e dos 40, “gosta disto”.
Dei uma gargalhada. Sorri.
Ah, é verdade, um dia vamos ver ali as gôndolas, comentou. Rimos.
Olhei para o lado e pelo meu olhar senti entrar a realidade das aparências.
“Vou escrever um texto, sobre esta conversa”, disse-lhe.
É isso, pensei, o nosso Barreiro, fica feliz a viver «barreirinho”, delicia-se nas ilusões, e, sem dúvida, com um «toque veneza»...até o Barreiro fica com outra aparência.
Entretanto, continuamos por aqui, com mais rotundas, para ganharmos uns minutos para sair e entrar no concelho. Isto é qualidade de vida, dizem-nos, a sorrir.
Não há emprego. Uma população envelhecida. Vamos continuar a ser um guetto, sem capacidade de atrair empresas, sem criar postos de trabalho, com um tecido económico a definhar. Somos impotentes perante o Poder Central.
Em suma o importante é atrair IMI e taxas de construção. É vida.
António Sousa Pereira













