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Inferências

InferênciasQuando a realidade dá sentido à Utopia

Decorreu na Biblioteca Municipal do Barreiro a 1ª Sessão de Participação Pública sobre o Plano Municipal de Ambiente do Barreiro.
Foi uma jornada de trabalho que, sem dúvida, introduziu inovação na abordagem de temas de interesse local e global.
Uma jornada de trabalho que demonstrou como cada cidadão pode ser um “actor de desenvolvimento da cidade”, cada instituição pode ser um “Agente de desenvolvimento da Cidade”.
5 min de leitura

Por António Sousa Pereira

A metodologia utilizada nos trabalhos motivou a participação e todos, de facto, de forma directa contribuíram lançando ideias e expressando pensamentos, quer sobre a cidade que somos, quer sobre a cidade que desejamos.
A simples escolha de um postal, por cada participante, através do qual deveria expressar a sua “ideia” sobre qual o concelho do Barreiro que deseja no ano 2020, passando pela reflexão em pequenos grupos, na abordagem dos temas que constituem a denominada “árvore de sustentabilidade” : Transportes e Mobilidade; comportamentos ecológicos e cívicos; Habitação e Espaços Exteriores; Tempos Livres e Espaços Verdes e Lazer; Integração Sócio Cultural – em suma, toda esta metodologia contribuiu para tornar real o tema – “o que é de todos por todos deve ser discutido”.

Participação dos Cidadãos

Quando se fala em participação, em ser essencial que uma cidade se desenvolva tendo por referência a motivação dos cidadãos e a participação dos cidadãos, e que muitos consideram que isto é uma “utopia”, então, de facto, este debate contribuiu para provar, na prática, que as utopias podem ser reais.
Basta que a cada cidadão seja dado espaço para participar.
Basta que a cada cidadão seja proporcionado sentar-se, na mesma mesa, sem se olhar a estatutos, níveis académicos ou cargos políticos, e, então, facilmente conclui-se que todos têm uma “ideia de cidade”, uma “ideia para a cidade”.
Uma cidade que tem de ser de todos. Uma cidade que deve contar com a participação de todos.
É este Barreiro que ali, no dia 6 de Dezembro de 2003 – quase dois anos após as últimas eleições autárquicas –eventualmente começou a ser “sonhado”.
A participação não é uma utopia, o que é necessário, provou-se, é criar mecanismos que proporcionem a participação, motivem a participação.
A partir deste debate não será possível voltar atrás, entramos num caminho irreversível e, espera-se que os cidadãos que se disponibilizaram para integrar eventuais “grupos de reflexão” nunca venham a sentir que a “utopia” que viveram foi apenas circunstancial.
Pela honestidade intelectual colocada na realização deste debate, pela forma como decorreu, pelas metas colocadas como objectivo temporal, fica aqui o desejo que no Barreiro do 2020, aqueles que ainda cá estiverem possam um dia festejar esta data – 6 de Dezembro – como o dia que marcou o arranque da construção de uma cidade viva com cidadãos activos – uma cidade participada.

Tempo de mudança

A partir de agora nada será como dantes, nada poderá ser como dantes, porque o Poder Político abriu-se à cidade, os Técnicos olharam olhos nos olhos os cidadãos, e, os cidadãos sentiram que podem e devem ter voz e ter opinião sobre a cidade onde desejam viver.
O Poder Político veio por fim ao slogan – “trabalhamos para si”.
O Poder Político veio lançar um novo slogan – “Trabalhamos consigo!”
Os Técnicos vieram por fim ao método – “É assim que projectamos a cidade”.
Os Técnicos vieram dizer-nos – “Projectamos a cidade que os cidadãos desejam”.
É preciso, aqui e agora, sublinhar que este é o caminho para a construção de uma cidade onde sejam respeitadas as diferenças e onde cada cidadão sinta que lhe é dado o direito e o dever de ser cidadão de corpo inteiro – com opiniões e com sonhos.
Soube, numa conversa posterior, que este debate já vinha sendo preparado dos tempos do PCP/CDU, e que ele foi resultado de um protocolo celebrado entre a Câmara Municipal do Barreiro e o projecto “CIVITAS – Centro de Estudos sobre Cidades e Vilas Sustentáveis”, que Carlos Maurício tinha sido o protagonista.
Felizmente não caiu em saco roto. Felizmente Emídio Xavier soube dar-lhe continuidade e criar uma equipa para o corporizar.
Aprender a lição

A realização desta iniciativa é, também, um exemplo de como o PCP/CDU acordou tarde e deixou arrastar no tempo a implementação de políticas de participação.
Pagou com a derrota eleitoral o seu erro.
Portanto, para bom entendedor basta aprender a lição...
Se a mudança de formas de fazer e viver a cidade tem vindo a ser anunciada, com a realização deste debate e a metodologia nele utilizada ficou claro o tal slogan, tão caro a Aires de Carvalho, quando da promoção do BEM – Barreiro em Movimento, ele afirmava – “O que é de todos por todos deve ser discutido”. Pode ser realidade.
Notaram-se muitas ausências nesta “Estação de embarque” para tomar este comboio do “debate participado”. Que razões? Desconhecimento? Férias ? Despeito? Inveja? Sectarismo?
Seja o que for que seja, a verdade é que, agora, o comboio já partiu com aqueles que nele puderam sonhar.
No futuro, basta que vá fazendo paragens e metendo novos passageiros.
Até 2020 o percurso é longo – só quem quiser ficar na gare é que perde o comboio. Sempre assim foi, sempre assim será.
O caminho está traçado – basta motivar, motivar, motivar os cidadãos...e construir, passo a passo, esta realidade viva da participação , acreditando que é possível construir uma “cidade participada” – uma cidade do homem cívico e ético!

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