InferênciasQuando a realidade dá sentido à Utopia
Foi uma jornada de trabalho que, sem dúvida, introduziu inovação na abordagem de temas de interesse local e global.
Uma jornada de trabalho que demonstrou como cada cidadão pode ser um “actor de desenvolvimento da cidade”, cada instituição pode ser um “Agente de desenvolvimento da Cidade”.
Por António Sousa Pereira
A metodologia utilizada nos trabalhos motivou a participação e todos, de facto, de forma directa contribuíram lançando ideias e expressando pensamentos, quer sobre a cidade que somos, quer sobre a cidade que desejamos.
A simples escolha de um postal, por cada participante, através do qual deveria expressar a sua “ideia” sobre qual o concelho do Barreiro que deseja no ano 2020, passando pela reflexão em pequenos grupos, na abordagem dos temas que constituem a denominada “árvore de sustentabilidade” : Transportes e Mobilidade; comportamentos ecológicos e cívicos; Habitação e Espaços Exteriores; Tempos Livres e Espaços Verdes e Lazer; Integração Sócio Cultural – em suma, toda esta metodologia contribuiu para tornar real o tema – “o que é de todos por todos deve ser discutido”.
Participação dos Cidadãos
Quando se fala em participação, em ser essencial que uma cidade se desenvolva tendo por referência a motivação dos cidadãos e a participação dos cidadãos, e que muitos consideram que isto é uma “utopia”, então, de facto, este debate contribuiu para provar, na prática, que as utopias podem ser reais.
Basta que a cada cidadão seja dado espaço para participar.
Basta que a cada cidadão seja proporcionado sentar-se, na mesma mesa, sem se olhar a estatutos, níveis académicos ou cargos políticos, e, então, facilmente conclui-se que todos têm uma “ideia de cidade”, uma “ideia para a cidade”.
Uma cidade que tem de ser de todos. Uma cidade que deve contar com a participação de todos.
É este Barreiro que ali, no dia 6 de Dezembro de 2003 – quase dois anos após as últimas eleições autárquicas –eventualmente começou a ser “sonhado”.
A participação não é uma utopia, o que é necessário, provou-se, é criar mecanismos que proporcionem a participação, motivem a participação.
A partir deste debate não será possível voltar atrás, entramos num caminho irreversível e, espera-se que os cidadãos que se disponibilizaram para integrar eventuais “grupos de reflexão” nunca venham a sentir que a “utopia” que viveram foi apenas circunstancial.
Pela honestidade intelectual colocada na realização deste debate, pela forma como decorreu, pelas metas colocadas como objectivo temporal, fica aqui o desejo que no Barreiro do 2020, aqueles que ainda cá estiverem possam um dia festejar esta data – 6 de Dezembro – como o dia que marcou o arranque da construção de uma cidade viva com cidadãos activos – uma cidade participada.
Tempo de mudança
A partir de agora nada será como dantes, nada poderá ser como dantes, porque o Poder Político abriu-se à cidade, os Técnicos olharam olhos nos olhos os cidadãos, e, os cidadãos sentiram que podem e devem ter voz e ter opinião sobre a cidade onde desejam viver.
O Poder Político veio por fim ao slogan – “trabalhamos para si”.
O Poder Político veio lançar um novo slogan – “Trabalhamos consigo!”
Os Técnicos vieram por fim ao método – “É assim que projectamos a cidade”.
Os Técnicos vieram dizer-nos – “Projectamos a cidade que os cidadãos desejam”.
É preciso, aqui e agora, sublinhar que este é o caminho para a construção de uma cidade onde sejam respeitadas as diferenças e onde cada cidadão sinta que lhe é dado o direito e o dever de ser cidadão de corpo inteiro – com opiniões e com sonhos.
Soube, numa conversa posterior, que este debate já vinha sendo preparado dos tempos do PCP/CDU, e que ele foi resultado de um protocolo celebrado entre a Câmara Municipal do Barreiro e o projecto “CIVITAS – Centro de Estudos sobre Cidades e Vilas Sustentáveis”, que Carlos Maurício tinha sido o protagonista.
Felizmente não caiu em saco roto. Felizmente Emídio Xavier soube dar-lhe continuidade e criar uma equipa para o corporizar.
Aprender a lição
A realização desta iniciativa é, também, um exemplo de como o PCP/CDU acordou tarde e deixou arrastar no tempo a implementação de políticas de participação.
Pagou com a derrota eleitoral o seu erro.
Portanto, para bom entendedor basta aprender a lição...
Se a mudança de formas de fazer e viver a cidade tem vindo a ser anunciada, com a realização deste debate e a metodologia nele utilizada ficou claro o tal slogan, tão caro a Aires de Carvalho, quando da promoção do BEM – Barreiro em Movimento, ele afirmava – “O que é de todos por todos deve ser discutido”. Pode ser realidade.
Notaram-se muitas ausências nesta “Estação de embarque” para tomar este comboio do “debate participado”. Que razões? Desconhecimento? Férias ? Despeito? Inveja? Sectarismo?
Seja o que for que seja, a verdade é que, agora, o comboio já partiu com aqueles que nele puderam sonhar.
No futuro, basta que vá fazendo paragens e metendo novos passageiros.
Até 2020 o percurso é longo – só quem quiser ficar na gare é que perde o comboio. Sempre assim foi, sempre assim será.
O caminho está traçado – basta motivar, motivar, motivar os cidadãos...e construir, passo a passo, esta realidade viva da participação , acreditando que é possível construir uma “cidade participada” – uma cidade do homem cívico e ético!













