ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...Um rosto convidado...Márcia Calafate
Por onde passo digo orgulhosamente que sou barreirense

Por Jornal Rostos
ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...
Um rosto convidado...Márcia Calafate
Eu, tu e Todos Nós!
Recordo-me com especial apreço os momentos que vivi na vida autárquica.
Mais jovem, de espírito aberto, encontrei todo um mundo por descobrir.
Aceitei o desafio, há época, porque quem me desafiou não era uma pessoa qualquer, na minha vida, tendo-se vindo a demostrar não o sendo também na vida da cidade.
A vida autárquica era algo que me fascinava, pela ligação direta às pessoas, e pelo que a nossa ação pode desempenhar de bom na vida das populações.
Julgar que isto é um trabalho fácil, é um engano. É a tarefa de uma vida.
É uma oportunidade única que a vida nos dá, e para a qual a preparação é constante. Constante porque estamos sempre a aprender, constante pela dedicação e abnegação que temos de ter, constante porque a vontade de fazer enche-nos os dias, constante de emoção, de conquistas, mas também perdas, de momentos de alegria e de vitórias. Uma constante de emoção e por vezes de tristeza.
A adjetivação que faço não é apenas uma caraterística minha, mas é sem dúvida a necessidade de se caracterizar algo que não estamos à espera, que não é facilmente descrito nem caraterizável, apenas vivido! Claro que dependerá muito das caraterísticas pessoais de cada um, depende também de com quem enfrentamos a tarefa, depende de quem nos ensina, ampara e exige que façamos sempre mais e melhor.
Nasci no Barreiro, aqui cresci, e aqui decidi viver e constituir família, sou de famílias não barreirenses, mas que cedo se afeiçoaram à terra que as acolheu, fazendo do Barreiro a sua terra.
Por onde passo digo orgulhosamente que sou barreirense, sempre com gosto em mostrar tudo o que de bom temos no Barreiro. Desde logo as pessoas, esta massa que ajudou também a fazer de mim o que sou hoje. Uma cidade em que nada passava em vão. Nada se decidia sem se ouvir, sem se discutir, com TODOS, dizia-o orgulhosamente quando havia emprego e quando deixou de haver, quando a ponte vinha e depois quando deixou de vir, e continuo a dize-lo desde outubro de 2017.
Os barreirenses têm uma caraterística especial, única, muitas vezes identificada em alguns dos estudos, no âmbito do trabalho autárquico desenvolvido – um grande ego, o Barreiro para nós é lindo! “E ai de quem diga que não!” Com as suas frentes de rio que ao longo dos anos têm vindo a ser recuperadas, com o seu imenso património onde ainda muito há a fazer, com as suas centenas de coletividades, com a sua história rica desde os descobrimentos, uma cidade em que gostamos de viver, onde os barreirenses sempre sentiram ter voz, onde as decisões são feitas também com a contribuição popular. São feitas por todos, pelas populações, pelos comerciantes, pelos empresários, pelo movimento associativo, pelas tantas outras entidades que intervém no território, pelas várias forças politicas, pelos seus órgãos autárquicos.
Fui educada a participar, a não esperar que cai do céu, a lutar para que se concretize, a dar a minha opinião (umas vezes mais refletida que outras), a estar presente e a ajudar a construir a cidade onde vivemos, fui habituada a conhecer os seus cantinhos mais escondidos.
O atual momento é deveras preocupante para o futuro e para cidade, pelo menos da forma que a conheci (a cidade) e que a prendi a dela gostar. A cidade onde gostaria que o meu filho pudesse passar por experiências tão enriquecedoras quantas as que o Barreiro me proporcionou a mim ao longo dos anos. De liberdade, de opinião ainda que diferente da maioria, de critica (construtiva), de convivência social, de participação coletiva, de “vizinhança”. Um Barreiro que se faz nas escolas por onde passamos, nas ruas e nos cafés, nos parques infantis em criança e mais tarde com os nossos filhos, na padaria, no nosso prédio.
Ao longo da minha vida aprendi que quando temos que tomar decisões temos de ouvir, partindo por vezes de uma posição inferior, de que com os outros, com as suas opiniões e sensibilidades, construímos as soluções, as melhores soluções. Dirão alguns, um processo de decisão mais demorado! Sem dúvida! Mais gratificante? Sem dúvida! Mais desgastante? Sem dúvida! Mas mais sustentável, mais construtivo, mas democrático, mais Eu, Tu e Todos Nós!
Hoje, o Barreiro está diferente, diferente nas ruas, nos órgãos e também nas redes sociais que invadiram a nossa vida. O eu, tu e o nós, já não é mais valorizado nem ouvido. As populações, o centro da atenção do trabalho autárquico foi esquecido, foi trocado. Não porque tenhamos deixado de existir, não porque a nossa vontade tenha deixado de continuar a ter que contar, mas porque já não lhes interessamos, eles sabem tudo e nós deveríamos aceitar.
A esta nova forma de estar, de viver, eu digo não!
A esta forma de governar sem contar com a opinião de todos, devemos dizer não!
Márcia Calafate
NOTA
ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...
Esta rúbrica - ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO... UM ROSTO CONVIDADO... -visa abrir um espaço de partilha de ideias, cultivar a democracia, valorizar a pluralidade.
A nossa prposta é simples. Um convite com um desafio: escreva o que quiser, sobre o que entender, partilhe opinões, diga o que vai no seu coração.
Criar uma rúbrica que contribua para o debate de ideias, troca de opiniões. Fazer Cidade. Fazer região. fazer país. Fazer Europa. Fazer mundoi. Fazer Cidadania.
Márcia Calafate aceitou o desafio de ser a primeira a escrever nesta nossa rúbrica que desejamos possa contribuir para nos ajudar a sentir e pensar o tempo que vivemos. Obrigado à Marcia Calafate por ter aceite o convite.
Entretanto, referir, outros convidados que aceitaram este nosso desafio. Em breve publicaremos os seus textos. Esta rúbrica vai ser permanente. E desejamos que possa ser um ponto de encontro com as palavras que nascem no coração.
Próximos Rostos convidados, que aceitaram o desafio:
. Francisco Alves, deputado da Assembleia Municipal do Barreiro, eleito pelo Bloco de Esquerda.
. Pedro Vasconcelos Almeida, Vice-Presidente da Distrital de Setúbal da Juventude Socialista e Secretário Nacional da JS.
. Luciano Barata, actor e encenador.
. Emanuel Gois, Advogado e escritor.
António Sousa Pereira













