«Podium da Tribuna»Isidro Heitor – Ricardo Teixeira – Vítor Castro : a nobreza da politica

Por Jornal Rostos
As reuniões da Assembleia Municipal, transmitidas on line, acontecem perante a indiferença dos barreirenses, isso, fica patente pelo número de pessoas que acompanha em directo as reuniões.
Ontem à noite decorreu mais uma reunião desse órgão municipal, o ponto de apreciação da informação escrita sobre a actividade municipal podia despertar algum interesse, até, porque estamos nesta recta final de mandato a caminhar para as eleições autárquicas.
Aliás, este é um tempo curioso, porque agora o contraponto para refutar criticas ao executivo municipal, é apontar que – «percebe-se» - estamos perto de eleições. Isto de um executivo municipal que, desde o primeiro dia, quando entrou nos Paços do Concelho o que colocou sempre como linha central da sua acção politica foi «manter o poder», trabalhar para «manter o poder», mantendo um clima eleitoral em todos os actos, nas formas de comunicar, na negação do trabalho de executivos anteriores, promovendo uma cultura de «desconstrução», cultivando a ideia que há o antes e o depois. Aliás, de forma subtil, ontem essa narrativa, mais uma vez esteve presente.
Mas, sublinhe-se, foi talvez, deste mandato daquelas reuniões que este ponto da ordem de trabalhos teve algum confronto de ideias e abordagens com conteúdo politico, com substância, por parte dos eleitos na Assembleia Municipal, indo para além das perguntas de circunstância.
E, mantendo a regular apreciação das intervenções da Assembleia Municipal, nos seus conteúdos, o «Podium da Tribuna», é o seguinte:
Ranking de intervenções
1º lugar – Isidro Heitor ( PS)
Uma intervenção a marcar pontos ao abrir com uma saudação ao Partido Comunista Português que, este mês, comemora o seu centenário, sublinhando que é um partido essencial à democracia. Isto, num mandato que viveu todo o seu tempo numa cultura politica de anticomunismo primário, que acusa os comunistas de serem os culpados de todos os males do Barreiro, de abandono e estagnação, aqui e agora, ao considerar essencial à democracia uma força politica que, no Poder Local, neste concelho, é constantemente classificada de ter feito «bola», «zero», é uma atitude de democrata.
Porque apetece interrogar: Como pode ser essencial à democracia uma força politica que durante mais de quarenta anos promoveu o abandono e a estagnação do Barreiro? Esse tem sido o discurso dominante, é o que que se escuta no actual centro da vida politica local, que não é a AMB, mas sim os Paços do Concelho. E, mesmo ontem, de novo se escutou essa narrativa, vinda dos discursos do executivo municipal.
Parabéns a Isidro Heitor, pela sua cultura democrática, demonstrando que para fazer a diferença, não é necessário humilhar o adversário, nem elaborar narrativas de «superioridade».
Outra nota positiva das suas intervenções foi a forma como avaliou a actividade do executivo municipal, sem ser bajulador, elogiou, valorizou, separou as águas na forma de «fazer politica», sem necessitar de adjectivar, criticou o PSD e a CDU, de forma subtil, alertou para os efeitos da pandemia, tocou em temáticas estratégicas como a Terceira Travessia do Tejo, ponte Barreiro Seixal, Metro Sul do Tejo, novo aeroporto no Montijo, no contexto da AML, falou de obras no terreno, e, até no papel dos privados na vida das comunidades. Tudo serenamente, sem presunção.
E, por fim, registo a sua nota sobre os impactos da pandemia na vida do concelho, onde, sublinhou não se sentem os efeitos, ainda, com mais intensidade, porque somos um concelho de reformados e de trabalhadores no sector público - estado, autarquias, saúde, ensino, justiça, etc.
Uma intervenção politicamente pensada. Uma intervenção pela positiva.
Aqui fica atribuida a nota máxima – 10.
2º lugar – Ricardo Teixeira ( CDU )
Ricardo Teixeira, na sua intervenção, veio de forma clara, sem complexos, colocar o dedo na ferida dos efeitos da pandemia na vida social, com o aumento de desemprego, com insolvência de empresas, com as dificuldades das IPSS, do movimento associativo, e, com crueza exigindo, em requerimento que o executivo municipal informe – apenas isso informe – onde foram aplicadas as verbas de cerca de 2 milhões de euros que o executivo municipal informou a DGAL sobre recursos que aplicou no combate à pandemia, de tal forma que permite que o Tribunal de Contas, coloque o concelho do Barreiro em 2º lugar no distrito, em 19º lugar no país, em 8º na AML, entre os que mais investiram no combate à pandemia.
Um requerimento sereno, simples, objectivo, conciso e concreto – investiram, certo; digam onde para se perceber. Este um direito dos eleitos da AMB e dos vereadores da CMB, que já, por várias vezes, se escutou este pedido e continua sem resposta. Um rol, nunca descriminado.
Por exemplo, ontem soube-se, pelo que foi dito, que a criação das EPI – Equipas de Intervenção Permanente, que se concretizou a partir de 18 de março de 2020, mas que era uma medida já anunciada, antes de COVID, apresentada como uma mudança na forma do novo executivo municipal apoiar as corporações de bombeiros, no aumento de investimentos nos bombeiros, esta, afinal, também é uma das verbas integrada no investimento COVID. Portanto não é uma mudança de estratégia, é uma acção reactiva perante a pandemia. Mas, nas narrativas oficiais já se escutaram várias versões.
O requerimento do deputado da CDU causou um alvoroço tal que, em vez de resposta às interrogações, lá veio a narrativa da gestão CDU, aquela conversa da cassete do «abandono», do «estagnado».
E ontem à noite esta narrativa da estagnação ficou-se pelos doze anos, com um ataque feroz, personalizado ao anterior presidente Carlos Humberto. Um autarca que deixou a casa em ordem, com projectos prontos para avançar, negociações em fase final, que só merecia que os seus sucessores tivessem a humildade de dizer: Obrigado!
Esta intervenção de Ricardo Teixeira e a forma integra, nobre e de verticalidade, como usou o seu direito de questionar, de criticar e exercer o seu mandato autárquico na sua plenitude, é merecedora de registo. Um bom deputado municipal, jovem, com valores, que deve continuar assim, energicamente, em prol da defesa dos barreirenses. Ficamos à espera que se torne pública a lista dos investimentos de 2 milhões de euros no apoio às causas da pandemia.
Para o Ricardo Teixeira, aqui fica o segundo lugar no podium – Nota 9.
3º lugar – Vítor Castro Nunes ( PSD)
Estive indeciso quanto à atribuição do terceiro lugar no podium da tribuna, mas, optei por Vítor Castro Nunes, pela forma inteligente, incisiva e de relevo como utilizou o silêncio e a gestão do pouco tempo que o PSD tem para as suas intervenções comparativamente aos tempos do PS e CDU.
A distribuição de tempos limita a capacidade de acção politica, contrariamente ao que acontece nas reuniões da CMB que é sempre a abrir, aqui, nas AMB, há rigor na gestão dos tempos, e, até, «autoridade» na gestão do tempo, com aquela «tolerância democrática» de uns segundos. Coisas da democracia representativa.
Mas, Vítor Castro Nunes, no seu parco tempo esteve na perfeição e, de novo, recordou a incapacidade do PS em discutir de forma aberta um Plano de Apoio às Familias e Empresas, optando por empurrar com a barriga e fugir ao debate falando que esta é uma conversa que só existe porque estamos em processo eleitoral, que somos o concelho na linha da frente, que a oposição promete tudo, enfim, a incapacidade de subir o nível do debate de diferenças, por parte do executivo municipal, que atinge posições politicas desordenadas e confusas, indo ao ponto de querer intrometer-se na forma de agir dos deputados municipais.
Aliás, aconselho o Presidente da AMB a consultar o dicionário sobre a palavra promiscuidade, porque, afinal, as Comissões não esgotam a intervenção dos deputados e criticar a forma de agir dos deputados...é isso mesmo, condicionar, intrometer. A CMB não é a voz moral da AMB, nem tem autoridade politica sobre a AMB, muito menos sobre a forma como a oposição gere as suas práticas. A AMB tem o direito de interrogar, como quiser e onde quiser o executivo municipal, é para isso que existe a AMB – órgão fiscalizador - a CMB deve responder politicamente, não professoralmente.
A critica e a contestação politica não deve reduzir o espaço de intervenção dos deputados – nem classificando-os em populistas e demagogos, quando se discorda, nem reduzindo-os a «bola», «zero», só porque usam o direito de perguntar o que entenderem, porque foi para isso foram eleitos. É isto democracia.
Vítor Castro Nunes elogiou obras e alertou que nem todas as obras são prioridade e devia existir a coragem de parar o que se tiver que parar, porque há familias em crise, é urgente que exista uma estratégia local de habitação ( mesmo que não exista nada para trás) – então quando se herda bom, é actual gestão que faz, quando se herda mau, foram os outros que não fizeram.
Esteve bem o deputado social democrata, no seu pouco tempo, o muito que salientou, a inexistência de tomada de posição sobre o PRR – Plano de Recuperação e Resiliência. As perguntas em busca de respostas – PDM como está? TCB sentiram impacto da pandemia? Ponte Barreiro Seixal, Terceira Travessia do Tejo, em que pé estamos?
Chama-se a isto fazer trabalho de casa.
Fica o registo e o terceiro lugar no podium – Nota 8.
Aqui fica o registo.
S.P.













