ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...Um rosto convidado...Luciano Barata
A Poesia não se confina
Porque um sorriso pode ser, apanágio de escárnio, sensação de alegria, regozijo, desejo de simpatia, ou até mesmo revelar amor.
Nada tem a força do silêncio!
Porque o silêncio pode implicar, afastamento, significar desprezo, ser capaz de interpretar o ódio; mas tão genuinamente, o mesmo, pode gerar a Paz.

Por Jornal Rostos
Nada tem a força de um colectivo!
Porque, até mesmo tomando o ancestral exemplo do abrir uma caixa de fósforos e retirar, dessa mesma caixa, apenas um pauzinho, mesmo com dois dedos de uma só mão o conseguimos partir com extrema facilidade; mas se retirarmos da mesma caixa os seus 50 pauzinhos e os tentarmos quebrar, constatamos que precisaremos de todos os dedos de ambas as mãos para o conseguir concretizar. A união desse colectivo fez a força!
Nada tem a força da Poesia!
Porque a poesia é o legado para a festa dos poetas que tardavam! E, sobretudo, para esta comemoração, obrigatoriamente, levaremos firmeza e ervas do caminho, que purificarão a tisana, para brindar e tragarmos colectivamente.
E com os aromas, plantaremos fábulas, romances e narrativas, versos e prosas com metáforas desusadas que darão origem a pequenos contos, a sonetos, aos acrósticos, aos triolés, às histórias animadas, às glosas com direito a mote e a quadras rimadas que se foram soltando.
Depois, ao penetrarmos neste mar-oceânico de palavras escritas, desejadas, sentidas e apaixonadas, é que encontraremos sentimentos revelados nas emoções repletas de vivências, que norteiam as nossas vidas.
Porque é agora que, felizmente, as nossas vozes têm peito e braços fortes para abraçar, até que o vento e a chuva voltem a inundar os nossos olhos de astros, de maresia e de sonhos.
Pois descortinamos em cada verso a espuma do paradigma que nos faltava obter, para crescermos de mãos dadas, contra as tormentas, mas com a coragem que nos corre nas sílabas, como ferramentas.
Os abismos deixaram de nos trancar, as ideias do grande rio da nossa inspiração que, rompendo preconceitos, fez brotar em nós, uma fúria de viver em cada boca sedenta de poesia.
Talvez, quiçá, influenciados por um dos principais poetas deste país, que mais enalteceu e contribuiu para o reconhecimento da epopeia que exaltou ao mundo a heroicidade e celebração dos feitos marítimos e guerreiros do povo português. Foi Camões, um poeta à frente do seu tempo, pois a sua modernidade é visível em toda a sua obra.
Obviamente que nenhum de nós foi contemporâneo de Luís Vaz de Camões, o maior poeta renascentista português, mas tivemos todos a oportunidade de conhecer Os Lusíadas, poema épico e nacional por excelência, datado de 1572, porventura o mais representativo do Renascimento Europeu. E é nessa grande obra de Camões que tudo começa, tanto ao nível de estilo, de conteúdo, como também o do profundo questionamento existencial, onde a temática do exílio, na sua lírica, e a crítica aos aspectos menos heróicos, mas também, o gosto duma austera, apagada e vil tristeza, que n´Os Lusíadas, já nos faz antever. Camões, que desafiou o destino, é considerado um poeta de transição entre a Idade Média e o Renascimento e a sua obra divide-se em três géneros literários: o lírico, épico e o dramático.
Mas… apesar disso, e a mais de 448 anos de distância, lá em baixo, a cidade derramada para fora das muralhas, rendeu-se de tal forma à liça, que os modernistas e futuristas do grupo da Seara Nova, os da Geração d´Orpheu, mais, os Almadas, os Gomes Ferreiras, os Régios, os Torgas, os Dantas, as Sofias, os Eugénios, as Florbelas, os Alexandres, os Fonsecas, os Saramagos, as Agustinas, os Cesarinys, as Natálias, os Alegres, e os Arys, entre tantos outros, tal a evidência prosaica, que obrigados foram a aceitar-nos como Pessoas e não como Fernandos.
Nós, gente de bem e de pés bem juntos, juramos que não houve conjura, nem presença na capelinha das aparições, nem cunhas metidas em qualquer instituição, para sermos vacinados contra o Covid, mas sim o direito implícito à diferença e que, finalmente fez, com que dobrássemos o cabo dos enguiços e dos tormentos da vida.
Por via disso, orgulhosamente, não tenhamos qualquer pejo em retirar a máscara, mas jamais a do confinamento, e revelar a face, nesta oceanografia em maré cheia de perseverança, mas de olhos bem abertos para escrever, mesmo que seja em Braille com o seu papel em relevo.
Porque a pureza da ingenuidade dos nossos versos transporta o povo nos dedos, mas também, nos sorrisos de cada um, que luta pelas coisas e pelas causas. Porque a vida é de quem, e para quem, luta por ela.
E porque acima de tudo somos machos e fêmeas descartados, do ventre de gente madura, que já não está perdida nos tecidos do tempo, é que cortámos amarras e correntes e galgámos navios, por cima das feridas e das mágoas, com cravos na boca, o mar nos olhos e um espólio de esperança ensurdecedora na voz.
Todavia, amanhã, tudo se tornará desigual, contudo, nós já teremos sangue que baste a pulsar pelo corpo abaixo e o arrebatamento a medrar e a trepar pelo coração acima e, forçosamente juntos, carregaremos projectos e sonhos, nas malas das nossas vidas, mesmo os mais complexos e os mais inverosímeis…
Nem que seja, com eles, dentro delas, às costas.
Luciano Barata
5 de Março de 2021
NOTA
ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...
Esta rúbrica - ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO... UM ROSTO CONVIDADO... -visa abrir um espaço de partilha de ideias, cultivar a democracia, valorizar a pluralidade.
A nossa proposta é simples. Um convite com um desafio: escreva o que quiser, sobre o que entender, partilhe opinões, diga o que vai no seu coração.
Criar uma rúbrica que contribua para o debate de ideias, troca de opiniões. Fazer Cidade. Fazer região. fazer país. Fazer Europa. Fazer mundo. Fazer Cidadania.
Márcia Calafate aceitou o desafio de ser a primeira a escrever nesta nossa rúbrica que desejamos possa contribuir para nos ajudar a sentir e pensar o tempo que vivemos. Obrigado à Marcia Calafate por ter aceite o convite.
Hoje, contamos com a participação de Luciano Barata.
Entretanto, referir, outros convidados que aceitaram este nosso desafio. Em breve publicaremos os seus textos. Esta rúbrica vai ser permanente. E desejamos que possa ser um ponto de encontro com as palavras que nascem no coração.
Próximos Rostos convidados, que aceitaram o desafio:
. Francisco Alves, deputado da Assembleia Municipal do Barreiro, eleito pelo Bloco de Esquerda.
. Pedro Vasconcelos Almeida, Vice-Presidente da Distrital de Setúbal da Juventude Socialista e Secretário Nacional da JS.
. Emanuel Gois, Advogado e escrito
É tempo de dialogar. É tempo de dar a palavra à cidade.
Obrigado aos que aceitarem ser uma voz viva e activa neste tempo que, de todos nós, exige uma enorme força de vontade de ser e agir.
S.P.













