ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...Um rosto convidado... Rute Pio Lopes
Populações vão sofrer com poluição ambiental do sobrevoar das aeronaves

Por Jornal Rostos
Nasci e cresci, nesta margem sul do Tejo. Durante 28 anos convivi com uma poluição infernal, um nível de poluição ambiental gravíssimo. A ausência de qualidade do ar, odores agrestes e chuvas acidas e um ruído constante de fundo, excedido por sobressaltos frequentes oriundos em descargas de último recurso para atmosfera e consequentes explosões acidentais, etc, etc. Era este o cenário especial no Bairro dos Atores, no Lavradio, que se estendia a toda a freguesia, sendo igualmente abrangido o Barreiro e o tecido urbano circundante pela presença das fábricas da UFA/CUF.
Foi preciso mudar de concelho e construir a minha vida noutro local para ver finalmente o desmantelamento daquela unidade fabril, que, aliás. há muito tempo tinha ultrapassado a sua vida útil. O quotidiano destas populações ganhou, em termos ambientais, um novo alento! Passou a ser estranho ouvir os sons típicos da rua de forma tão nítida! E estender roupa sem a preocupação de ter que a tirar a meio da secagem cheia de manchas, ou não ter de varrer o quintal várias vezes por dia para retirar a fuligem acumulada no chão… ou ir a correr cobrir os para-brisas dos carros, protegendo-os da “chuvinha” que deixava tudo sarapintado de negro… Ahhh sim, a vida tornou-se muito melhor, finalmente! Mas não sem deixar em todos nós marcas profundas, recordações pouco felizes de mais de três décadas de poluição atmosférica e sonora.
Menos de 10 anos depois, surge a notícia da construção da TTT e da consequente completa reestruturação do Lavradio, deixando em alerta uma população a envelhecer e desgastada. Meia dúzia de anos a seguir a novidade da deslocação do terminal de contentores para a zona ribeirinha do Barreiro/Lavradio e nos últimos anos a construção do aeroporto no Montijo, utilizando a base aérea nº6,
Caramba… Não, não julguem que estou contra o desenvolvimento, nem tão pouco agastada pela escolha da minha terra para acolher tantas mudanças que importam ao país. Nada disso! Hoje na presença do facto quase consumado da instalação do NAL na BA6 fico triste.
Fiquei alarmada desde a primeira hora com a gravidade da situação, deixou-me incomodada saber que existe uma hipótese, inclusivamente já estudada, para implementação de raiz de um aeroporto no campo de tiro de Alcochete. Uma solução económica, social e ambientalmente bem mais viável e fiável face à indispensável necessidade de construção de um aeroporto que solucione a sobrelotação da “Portela”.
Deixou-me perplexa a falta de consideração pelas populações que vão sofrer diretamente efeitos da poluição ambiental grave que advirá do sobrevoar a curta distância das aeronaves e que são exatamente as mesmas que suportaram anos a fio o sacrifício de viver e trabalhar junto ao complexo industrial do Lavradio/Barreiro. Não é justo! Não é de todo aceitável.
E há, entre outras, uma razão que considero absurda. Ora vejam… se atualmente o cuidado com as questões ambientais se torna sucessivamente mais escrupuloso e os limites cada vez mais apertados no que concerne à infração nesse campo, não será questionável, logo à priori, idealizar uma infraestrutura desta natureza tendo de antemão um núcleo populacional denso edificado ao invés de utilizar uma área sem impactes negativos deste tipo? Então o objetivo e a prática dos países e dos governos e das companhias aéreas de todo o mundo não é deslocalizar os aeroportos para fora dos centros populacionais? Será que estou errada?
Rute Pio Lopes













