ESCREVE O QUE TE VAI NO CORAÇÃO...Um rosto convidado...Ana Lourenço Monteiro
«Tocar com os olhos»
- Quem? - dizes confuso/a, questionando se é para ti. - Olho para quem?
- Qualquer alguém que se cruze contigo.

Por Jornal Rostos
O tempo não pára. Não pára o tempo nem nós paramos, num corre-corre em que a pressa nos impede de chegar mais longe do que onde simplesmente podíamos ir.
Cruzar-nos com outro alguém tornou-se, no dia a dia, somente num ato de passagem, num instante em que nada se passa entre seres carregados de falta de tempo.
Faz falta parar, não ´atravessar´ alguém com o olhar, ver mais além do que os olhos captam. E só que se proporcione um cruzar de olhares, já pode ser um passo nesse sentido.
Os olhos - presos no chão, no transporte que foge, no telemóvel que teima em não nos largar os dedos ou nas "mil e uma coisas para fazer" - caem pesados entre a multidão, sem se deslumbrarem com o poder de tocar alguém, sem haver um simples toque físico ou sem sequer se trocarem palavras.
O mundo tem sede de empatia; cada um de nós a sente, alguns sem se aperceberem que mudar isso compete a cada um de nós. E que pode ser isso o "algo mais" que andam à procura, para se encontrarem.
Várias razões que nos assistem nesta correria diária esmagam a tolerância e a compreensão enquanto valores que nos unem, que nos fazem identificar cada um de nós no outro. Valores que podem estar presentes em pormenores que escapam à nossa atenção, na simples atenção para com o outro.
O tempo, esse bem tão precioso gerido pelo Homem, deixou-se ficar à sua mercê...
E, por isso, a pergunta permanece... "o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem...".
Talvez seja a vida que te diga, um dia, que o teu tempo será tanto mais "tempo" quanto tempo dedicares a cruzar o teu olhar com o de alguém.
Faz falta olharmos com o coração. Para, quem sabe, talvez sermos olhados do mesmo modo.
Ana Lourenço Monteiro













