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Inferências

Escreve-se com a palavra FraternidadeA energia que vai fazer o futuro da margem sul
Por António Sousa Pereira

O capital da margem sul chama-se Liberdade, porque não há Liberdade, se não existirem pessoas livres, criativas e solidárias.
A maior força que os políticos podem valorizar na margem sul é essa energia que se escreve com a palavra Fraternidade.

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Escreve-se com a palavra Fraternidade A energia que vai fazer o futuro da margem sul Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos

Nos anos 70, antes de 25 de abril, nos tempos que Lisboa começava a «expulsar» grupos sócio económicos de mais baixos rendimentos para a margem sul e para as suas periferias, porque, afinal, era mais barato alugar um andar no Barreiro, que alugar um quarto em Lisboa, eu, como muitos rumamos para a “outra banda”, mantendo os postos de trabalho em Lisboa.
Foram os anos da grande explosão demográfica da margem sul. Almada beneficiava da recente construção da ponte sobre o Tejo, com a Carris a estender carreiras até à Cova da Piedade.
O Barreiro beneficiava de ser o terminal ferroviário de ligação com o Alentejo e Algarve, servido por uma frota fluvial que ligava as duas margens, e, também pelo facto de ao nível local ter uma rede de transportes públicos municipais que permitiam dar proximidade aos barcos de todo o seu território, até aos concelhos limítrofes, nomeadamente Baixa da Banheira.

O Barreiro nestes anos 70 tinha duas realidades, por um lado uma população autóctone, com ligações ao mundo ferroviário e à CUF. A fábrica. A Oficina. Milhares de trabalhadores, que geravam à sua volta o florescimento de uma economia local, quer ao nível da restauração, quer do comércio de proximidade, quer serviços, com lojas modernas e inovadoras.
O Barreiro era uma comunidade com vida própria, com raízes de famílias, com tradições culturais e vivências democráticas, porque, desde sempre viveu o lema – “nem só de pão vive o homem”. Por essa razão, cultivava uma intensa vida associativa, práticas desportivas, com experiências pioneiras, como foi o caso dos Jogos Juvenis do Barreiro. Que se transformou num exemplo para o país.

Depois a outra realidade, eram os milhares de pessoas que faziam do Barreiro a terra dormitório. Dormiam no Barreiro e trabalhavam em Lisboa. Mas, aos fins de semana, pouco a pouco, integravam-se. As associações eram as portas que se abriam, para a sociabilização destes novos barreirenses. Foi assim no Barreiro, como foi um pouco por todas a margem sul, uma cultura de inclusão.
Foi esta vivência de viver em comum, fazer em comum, que foi semeando uma cultura de fraternidade, o amor à Liberdade e à democracia, realidades que eram contraditórias com um regime de pensamento único, a ditadura que castrava, prendia e censurava.
Não foi por mero acaso que nas pseudo eleições que o regime salazarista ou marcelista promoveram, apesar das perseguições, limitações, prisões e pressão das forças policiais, por exemplo, nas urnas, a Oposição venceu no Barreiro.

O Barreiro afirmou-se ao longo de anos como uma terra reconhecida como uma bandeira da liberdade e da democracia. Uma terra de debate de ideias.
Quando nos anos 70, vim viver para o Barreiro, trazia no meu coração a matriz católica, e, aqui, numa conversa com um padre escutei críticas ao regime, a palavra fascismo entrou no meu vocabulário e o repúdio à guerra colonial. Foi um despertar para o outro lado do silêncio.
Depois pouco a pouco, foi um desbravar de ideias, celebrar a Republica, o Dia Mundial dos Direitos da Criança, o Dia dos Direitos do Homem ( na altura era assim, depois é que passaram, e bem, a ser Direitos Humanos), o encontro com o pensamento Marxista, o sentir a dor de amigos que eram presos por ideias, o ver a GNR meter medo, o descobrir folhetos a gritar na noite, o sentir esse pulsar de amor à cultura, o cantar Zeca Afonso, Fanhais, Adriano, Gois, o Coro de Lopes Graça. As Feiras do Livro em Alhos Vedros. O teatro.
Foi nestes tempos que vi, pela primeira vez um texto meu publicado no jornal «República», um trabalho sobre os Jogos Juvenis do Barreiro. E no «Noticias da Amadora», onde senti o que era a censura, por exemplo, num texto que escrevi com o título : Jogos Juvenis do Barreiro – Desporto do povo para o povo. A censura cortou «do povo para o povo».

Um tempo de aprendizagem. A margem sul uma escola de democracia. Um território de resistência. Amor à Liberdade. Essa considero que é a mais bela memória que a Margem Sul, e muito particularmente do Barreiro, pode legar para a história. Um orgulho afirmar sou do Barreiro, vivo no Barreiro. Afirmar Barreiro era afirmar Liberdade.
Recordo, um dia nos anos 70, após o 25 de Abril, participei num Encontro nacional de Imprensa Regional, na Póvoa de Varzim. No decorrer de um convívio, que o pessoal de vários pontos do país divertia-se, uma jornalista de Fátima, interrogava-me: “Mas, vocês no Barreiro também brincam e dançam?». Sorri. E respondi: Somos pessoas.

O Barreiro semeou sempre a Liberdade no coração dos seus jovens – homens e mulheres. Muitas sentiram na prisão. Foram 424 os presos pela ditadura. Em Peniche, Caixas, Aljube, Tarrafal. Anarquistas. Comunistas. Socialistas. Católicos. Homens e mulheres com a Liberdade no sangue.

Um dia nasceu, uma flor a brilhar vermelha na Primavera, abrindo as portas ao Portugal que somos, aqui e agora, 48 anos de democracia, após 48 anos de ditadura. Logo após o 25 de Abril, as pessoas saíram paras as ruas em festa, aos milhares. O sonho de uma vida melhor.
Pegaram nas suas mãos a construção de próprio destino. Construíram jardins, onde havia terra batida. Construíram Parques Infantis. Comissões de Moradores. Acção na rua. Os dias do PREC. Tanta energia e criatividade, confronto de ideias. Radicalismos. Fazer comunidade. Até intolerância, sim intolerância, que nascia num confronto epocal duro.

Aprovada a Constituição. Realizadas eleições. Encerrada a porta da Guerra Colonial. Estavam dados os grandes passos para a concretização dos três Dês do Programa do MFA – Movimento das Forças Armadas - Democratizar. Descolonizar. Desenvolver. O Barreiro celebrou e festejou.
E agora cá estamos.

Nunca deixarei de afirmar que foi na margem sul que, nos tempos de ditadura, aprendi a saborear a palavra Liberdade, a viver a força da palavra democracia, que tinha esse significado de construir em conjunto, no conflito e debate de diferenças.
Foi na margem sul que vivi o confronto de ideias, aceso, doloroso, inquieto, discussões animadas, nas esquinas, nas colectividades, no Poder Local. Eram nobres os debates nas assembleias municipais, a politica era vivida de forma intensa, com valores, com ideologias.
Foi essa razão que me motivou a criar um jornal local – Jornal Daterra – no ano de 1977. Fazer um jornalismo de proximidade, dar a conhecer os grupos de teatro, ou as colectividades, não limitando a vida do concelho ao centro da cidade.
Reportagens na zona rural. Dar voz aos que estavam no terreno, divulgar os seus sonhos. Água, esgotos.
Levantar temas polémicos. É engraçado, um destes dias de férias, nos confins do Alentejo, reencontrei um amigo, com quem conversei sobre os tempos do «Jornal Daterra», só agora, após mais de 40 anos, fiquei a saber o impacto politico que o jornal teve na época. Que cada edição impressa era lida ao pormenor, gerava discussões e inquietações ao Poder Politico dominante - PCP. Para mim era uma aventura de fazer jornalismo local, apaixonado, se servir a comunidade. Foi lindo e valeu a pena.
Hoje, quando percorro as páginas desses jornais, feitos de voluntarismo, ocorrem-se ao pensamento tantas histórias e memórias.
Sinto como os partidos políticos, ou melhor algumas pessoas, de todos os partidos, que em tal ou tal momento lideram, só gostam de ter um jornalismo que os sirva e têm imensa dificuldade em perceber que o jornalismo livre e plural é o sal da de democracia.
A democracia, parafraseando Virgilio Ferreira, não é uma ideologia, é o confronto de ideologias. Em Portugal ainda nos dias de hoje estamos a aprender esta lição.
E, a propósito desta realidade, fui aprendendo que fazer jornalismo na margem sul, e aqui no Barreiro, é indissociável de duas ideias chave – ter coragem e amor à Liberdade.
Afinal, essas são marcas das gentes da margem sul – a coragem, que lhes dá a energia que forja a resiliência. Aguentar e nunca desistir de sonhar.
Sim, foi assim nos tempos das bandeiras negras, da desindustrialização, onde se ergueu a voz do Bispo de Setúbal, rotulado de «Bispo Vermelho», na luta contra a fome. É que houve fome. Desemprego.
Foi assim, também, antes do 25 de Abril, a coragem de dizer não e acreditar que o regime opressor seria derrubado pela luta.
Continua a ser assim, nos dias de hoje, e vai, infelizmente, continuar a ser assim, enquanto Lisboa continuar a olhar para a margem sul como a «outra banda», esse território de onde noutros tempos recebia carvão, sal e produtos agrícolas, depois começou a ser a sua cintura industrial, a seguir a sua região de «bairros suburbanos», para os trabalhadores do comércio e serviços, agora, a transformar-se em zona de vida para a classe média que começa a ser expulsa de Lisboa pela explosão do sector imobiliário.
É talvez, também por isso, que o tecido sociológico tem vindo a transformar-se paulatinamente.
Por exemplo no plano politico, de há muito que a margem sul expressa as suas opções de voto de uma forma curiosa. Um ciclo pendular. Nas legislativas vota PS ou PSD, maioritariamente, mas, a seguir, nas autárquicas voto PCP/CDU. Isto eleição após eleição ao longo dos anos do final do século XX e na primeira década do século XXI. Os filhos, ou netos, nas autárquicas votavam maioritariamente no partido do avô e do pai, nas relações familiares de proximidade e de comunidade. Este ciclo foi-se esvaziando.
A geração nascida após o 25 de Abril começa a rasgar com a memória, não percebe, ou prefere ignorar que a memória da margem sul, a sua epopeia de luta pela Liberdade - Resistência e Resiliência – faz parte de uma realidade mais global, aquela que é uma marca do país que se deixa subjugar pelas forças centrípetas e centralizadoras.

É este o ciclo que vivemos nos dias de hoje. A margem sul, a outra banda, com tradições culturais e um saber que se vive com a palavra Liberdade e Democracia, palavras escritas com suor, ternura e paixão, continua ser o outro lado de Lisboa.
Lisboa que olha para outra banda, como olha para o país, dizem, que já o escrevia Eça de Queirós – Lisboa é Portugal o resto é paisagem
A margem sul, o Barreiro serão diferentes quando um dia Lisboa descobrir que pelo Tejo pode abraçar a margem sul. Como dizia Fernando Pessoa, pelo Tejo vai-se para o mundo, mas pelo Tejo, Lisboa pode beijar a Arrábida, tocar Setúbal e estender o seu olhar até ao Alentejo, até Sines.
Quando Lisboa decidir fazer o que já tem dito, em projectos de planeamento do território, que a margem sul, não é a outra banda, mas uma região de crescimento que contribui para o desenvolvimento de uma grande capital metropolitana de dimensão europeia, então, só então, a margem sul será uma força que dará a sua energia de resiliência, resistência, Liberdade e democracia participada, para fazer Lisboa, renascer em multi centralidades. Um dia esse dia será realidade, é o meu sonho.

O jornalismo na margem sul, afinal, sofre os resultados desse dilema que ao longo de séculos afecta a margem sul - o estar próximo e o estar longe de Lisboa.
O jornalismo na margem sul sente a presença forte da imprensa de Lisboa, do mundo da comunicação social, ali tão perto. É absorvido e retira-lhe espaço.
Mas, depois, como a informação nacional tem outras prioridades fica o vazio local que o jornalismo de proximidade preenche, com dificuldade, com voluntarismo, porque o Poder Politico nunca percebeu a importância de existir uma comunicação social regional que seja a voz da região, que dê dimensão à região.
O tecido empresarial não sente a importância de uma imprensa regional livre, os políticos regionais vivem com dois amores – Lisboa e a margem sul, mas Lisboa é que conta para ser e ter espaço politico, na vida politica partidária.
O jornalismo precisa de duas energias para se manter e florescer- a publicidade, sua única fonte de receitas, e, uma redacção criativa. Mas, uma redacção criativa não vive do ar, e, nasce o dilema, afinal Lisboa está aqui tão perto. Os jovens jornalistas que dão os primeiros passos na imprensa regional, rapidamente buscam novos caminhos. Isso não permite criar renovação. O jornalismo da região vive num permanente sufoco. São carolas apaixonados. Vai existindo.

As redes sociais vieram criar mais que discussão de ideias. Hoje há tribalização. Os bodes expiatórios.
O que era energia moral de uma cultura ancestral está a transformar-se em escórias de guerrilhas ideológicas.
É por isso que acredito que uma das missões do jornalismo de proximidade, nos tempos actuais, é contribuir para dar uma lufada de ar fresco, para arejar as guerrilhas que emergem quotidianamente nas redes sociais, oriundas de perfis falsos e de gestões programadas, de politiquices.

O Distrito de Setúbal, a margem sul, o Barreiro podem dar um contributo para valorizar a democracia e ser uma referência para o país, como território que sentiu na pele as prisões, as alterações ao nível económico, as crises, e, soube sempre estar de pé, confiante, resiliente. Nunca deixando de ser uma terra de fraternidade.
Os cascos de um barco na margem do rio. As ruínas de uma fábrica. Marcas de uma identidade que a margem sul deve orgulhar-se. A margem Sul dos operários, dos ferroviários, dos serviços e do comércio. Dos pescadores e dos agricultores. A outra banda para dormir e sonhar. A margem sul do Alfredo da Silva, do Champalimaud, dos Mellos.

A margem sul da Arrábida, da Caparica. A margem sul do país real, que acorda pela manhã, rumo a Lisboa. A margem sul de pessoas.
A margem sul é uma unidade social territorial, feita de muitas histórias, de diferentes comunidades, que ao longo dos anos tem preenchido os vazios de Lisboa, talvez por isso, está na hora de Lisboa ser seduzida pela margem sul. O capital da margem sul chama-se Liberdade, porque não há Liberdade, se não existirem pessoas livres, criativas e solidárias.
A maior força que os políticos podem valorizar na margem sul é essa energia que se escreve com a palavra Fraternidade.

António Sousa Pereira

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