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Inferências

Por dentro dos Dias – BarreiroO timbre melódico que se deita no espaço

Os pescadores continuam a pescar no meio do Tejo.
Os barcos da SOFLUSA e da Transtejo rasgam as águas e lá vão navegando entre as duas margens, como sempre, transportando a força de trabalho, num vai e vem quotidiano, marcado por esperança, desespero. É vida.

3 min de leitura
Por dentro dos Dias – Barreiro O timbre melódico que se deita no espaço

Por Jornal Rostos

No Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita um casal dá um passeio de mão dada, num silêncio apenas rasgado pelo som de uma gaivota e pelo borbulhar das ondas, ternamente, no areal junto ao pontão do Clube Naval.
Um homem ergue o telemóvel e faz uma fotografia ao Tejo. Um avião cruza os ares. Lá ao longe, outro avião levanta voo, abrindo as asas no céu azul.
Uma gaivota abre as asas e desliza junto ao espelho de água.

Sento-me numa pedra a olhar a outra margem. O panteão ergue-se solene na zona de Alfama.
O Álvaro dedicado associativista passa por mim, no seu passo calmo, na sua caminhada habitual : Bom Dia! Ele responde : “Bom Dia”.
“Então que diz das eleições?” interroga.
“Tudo está bem, quando acabe em bem”, respondo.
O Álvaro esboço um sorriso. Noto tristeza no seu olhar e no seu comentário.
Um atleta passa por nós, no seu treino matinal, procurando obter a melhor forma física.

Tenho na minha mão um livro de Herberto Helder. Abro ao acaso. O espaço. O tempo. A idade. A paisagem. Este lado e o outro lado da paisagem e do espaço. Fragmentos. A tristeza. A sabedoria.
Olho-me a mim mesmo eu e a paisagem. Olho o Panteão. Penso Portugal. Amália. Eusébio. Sofia.
Mergulho os olhos no Tejo, ali, naquele lugar, onde lavo os meus olhos nas águas do Tejo. Eu e a paisagem. A paisagem como sentido da vida. A vida como sentido da paisagem.
O barco da SOFLUSA rasga as ondas do Tejo.
As ondas beijam os lábios das margens.

Ao fim da tarde, na minha rua, uma vizinha pergunta sobre as eleições. Um outro amigo faz a mesma pergunta. Interrogações. Há muitas interrogações.
Digo-lhes, que está tudo bem, correu tudo bem…recordo-lhes que os juros estão a aumentar, recordo-lhes que o barril do petróleo está a aumentar.
“Está tudo bem”, comento.
“A minha reforma teve um aumento de sete euros”, disse ela.
Caminhamos e sorrimos. O sol ilumina com um colorido brilhante a Quinta da Várzea. Um autocarro chega à paragem. Os passageiros descem, de passos cansados. Murmuram. A rotina. O quotidiano.

Está a findar o mês de Janeiro do ano Dois Mil e Vinte e Dois, este é o dia seguinte. Tudo calmo. Sereno. Está a começar um novo ciclo.
Ao dobrar a noite, as notas de um piano, deslizam em sol misturadas nas minhas palavras.
Escuto, o timbre melódico que se deita no espaço…sorrindo ao tempo!

António Sousa Pereira

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