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Inferências

Por dentro dos Dias - BarreiroSaboreando a ternura de todas as aprendizagens

No dia de hoje, há treze anos atrás, andei a passear pelas areias da Praia do Baleal, e saltitei entre as rochas junto à ermida.
Era o meu primeiro dia na situação de reformado. Fiz questão de estar ali naquele recanto junto ao Atlântico, onde um dia, li, com paixão, a mensagem de Fernando Pessoa. Cumpriu-se o mar. Falta cumprir-se Portugal.

3 min de leitura
Por dentro dos Dias - Barreiro Saboreando a ternura de todas as aprendizagens

Por Jornal Rostos

É assim, um pouco, como as nossas vidas, há sempre algo por cumprir, mas, o belo é tentarmos viver com a vontade de tudo fazermos para nos cumprirmos. Nós e os outros. Nunca nos cumprimos sozinhos. O importante é viver preenchendo o tempo em plenitude. É isso cumprir!

Recordo hoje, aquela Ilha, onde falei, tantas vezes, com gaivotas e perdia-me a olhar os céus sorrindo. Voa. Voa. Voa, pensava, como se fosse o Fernão Capelo Gaivota.
Aquela Ilha onde enchia o caderninho de notas, projectos e sonhos. Ali, onde, um dia, com as ondas a beijar os pés, nasceu a ideia do jornal «Rostos».

Aquela Ilha da Ti’ Adriana que tinha um sorriso enorme, uns olhos lindos e cativantes, e sentada na muralha, beijava as ondas e as gaivotas deitavam-se nas suas mãos, marcadas pelos nervos do tempo e feitas de rugas da vida.

É verdade, faz hoje 13 anos. Que iniciei um tempo novo, esse que me permitiu sentir a energia do tempo, essa coisa simples, sempre a deslizar, que faz de nós tudo o que somos, respirando a vida.
O tempo é a unidade de tudo o que somos. Nele caímos. Erguemo-nos. Optamos. Escolhemos. Choramos. Rimos. Caminhamos. Sim, como diz o poeta, o caminho faz-se caminhado.

Estes anos afinal, que deviam ter sido de mera fruição, não foram anos fáceis. Foi a Troika. O Estado a levar-nos o sorriso. A humilhar a nossa dignidade.
Foi a pandemia. Os dias de confinamento. A ausência de calor humano. A saúde a quebrar o ritmo da vida. A solidão. A proximidade. Estivemos tão perto uns dos outros e tão distantes.
É tudo isto que nos faz sentir como viver é aprender a morrer. Recomeçando todos os dias.

Hoje aprendi o significado da expressão - Talitha Kum! Levanta-te!
É isso, disse para mim mesmo, nós, por vezes, nos nossos dias o que precisamos é de escutar esse apelo para mover a nossa vontade interior: Talitha Kum!
Hoje, 13 anos depois do começo da minha reforma, parece que escuto de novo essa expressão a tocar os meus neurónios – Talitha Kum!
E, talvez, sem me aperceber, foi esse som que escutei, muitas vezes nos meus nervos, sempre que ergui os olhos em sorrisos para escutar o meu coração ou beijar os olhos da vida- Talitha Kum!
Sim, talvez seja a idade que faz ter a consciência de sentir o peso do tempo a acumular-se nos ossos, ou acumular-se nos neurónios, saboreando a ternura de todas as aprendizagens. Respirando. Apenas respirando.

Hoje, pela manhã, junto ao contentor de lixo, um homem esgravatava. Em busca de si mesmo A história repete-se.
A fim da tarde, uma amiga, comentava comigo que o Núcleo do Re-food Barreiro deve ser neste momento aquele, em Portugal, que dá resposta a maior número de pessoas.
É vida.
Escrevo esta crónica, ao fim do dia…talvez apenas para respirar e sentir o som do universo.
É vida…

António Sousa Pereira

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