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Inferências

Nota do Dia – BarreiroOBRIGADO CONCEIÇÃO MATOS!

Nos últimos tempos tenho escutado algumas vozes que optaram por uma narrativa, através da qual pretendem afirmar que, no Barreiro, há um “mito do comunismo”.
Ontem ao ver e ouvir a entrevista de Conceição Matos, na RTP 2, uma barreirense que foi galardoada com a distinção “Barreiro Reconhecido”, na área da Resistência Anti fascista, cuja biografia tive a honra de escrever, pensei, se querem mais, aqui têm um exemplo real e vivo do “mito do comunismo” do Barreiro.

4 min de leitura
Nota do Dia – Barreiro OBRIGADO CONCEIÇÃO MATOS!

Por Jornal Rostos

Pelo que vou escutando, do “mito do comunismo no Barreiro”, também já se vai falando do “mito da oposição em Portugal”, e, talvez, qualquer dia, sim, qualquer dia…ainda o nascerá o “mito do 25 de Abril”, porque afinal, a história é sempre aquilo que o poder dominante procura “mitificar”.

Mas, a razão desta minha Nota do Dia, tem apenas um objectivo, aqui e agora, deixar um OBRIGADO a Conceição Matos, e, através dela, um GRANDE OBRIGADO, às centenas de homens e mulheres do Barreiro que, com a sua luta e acção politica, quer sendo do PCP ou Católicos, do PS ou até do reviralho, ensinaram- me, nesta terra – BARREIRO – a sentir o Sabor da Palavra Liberdade.
Uma terra, como esta, que tem na sua história, imensas memórias de luta por um mundo melhor de Anarquistas, a comunistas, de socialistas a Católicos, de maçons a democratas, uma terra que tem inscrita na sua memória a implantação da República, no dia 4 de Outubro de 1910, uma terra que saiu à rua a gritar pelo pão e pela Paz nos anos 40, uma terra que viu seus filhos presos no Tarrafal, no Aljube, em Caxias, no Porto, uma terra que viu padres cantar a canção do rouxinol, num cântico pela Liberdade, uma terra que viu Zeca Afonso ou Francisco Naia, cantar os feitos heróicos dos seus filhos, uma terra que ergueu bandeiras vermelhas nas suas chaminés, uma terra que era ameaçada diariamente pela Policia Politica, uma terra que cultivou o associativismo como exemplo vivo de vida democrática, e, gerou a epopeia dos Jogos Juvenis do Barreiro, num tempo que a ditadura limitava o direito à cidadania, sim esta terra, escreve-se com a palavra BARREIRO, uma terra que no após 25 de Abril, constituiu uma Comissão Administrativa na Câmara Municipal do Barreiro, liderada pelo esquecido Helder Fráguas, que era composta por pessoas dos mais diversos sectores políticos e sociais, sendo um exemplo de pluralidade, de Democracia e Liberdade.

Esta terra de homens e mulheres que escreveram, com o seu sangue, a palavra Liberdade nos nervos do coração, a todos eles, agradeço, que, me tenham ajudado a descobrir esse valor que, afinal, é a base da dignidade humana.

Conceição Matos é uma mulher que é um exemplo de vida, de verticalidade e amor à Liberdade, uma mulher pura, que, aqui e agora, agradeço à RTP 2, ter no dia 25 de Abril, transmitido o seu testemunho, para gerações futuras, o qual podia ser o testemunho de 424 barreirenses que passaram pelas prisões da PIDE, por serem comunistas, ou apenas por terem opinião e discordarem do regime dominante.

Esta terra desse “mito do comunismo”, afinal, aquela, é a terra, onde foi aberta, em Portugal, após o 25 de Abril, a primeira sede de um partido Politico - PCP - no dia 28 de Abril de 1974.
Confundir as mudanças na história e as aprendizagens que podemos retirar das transformações na história, para negar a história ou apagar a memória, é, afinal, nos tempos de hoje, partir das mudanças epocais para transformar a realidade histórica em “mitos”, o que significa fazer o mesmo que outros, quando inventaram “mitos urbanos”, para justificar uma história ficcionada.
É por isso que a história, muitas vezes, não é a história, é a hermenêutica da história, que se faz de acordo com as circunstâncias e as forças dominantes e os interesses epocais de alguns historiadores.
Há um amigo meu, historiador, que costuma dizer, a história são factos. É isso mesmo. Tudo o resto são interpretações.

Admiro Conceição Matos. Como admirei Manuel Cabanas. E, neles, e muitos outros, como T’I Benjamim, o T’i Flávio, a Ti’ Pintainha, Alfredo Matos, Álvaro Monteiro, Helder Madeira ou Júlio Freire, e, muitas pessoas com quem partilhei alguns dias da vida que tenho vivido nesta terra, e, todos eles, foram, para mim, cidadãos exemplares na lura pela Liberdade.
Nomes que mereciam ser evocados para sempre, na história de uma terra que se ergueu pela Liberdade, este Barreiro, real, histórico, que, digam o que disserem, terá sempre na sua história, essa realidade inscrita no seu passado, como a terra que amou a Liberdade, cultivou a Resistência e fez da Cidadania a afirmação da sua identidade.
Obrigado Conceição Matos!

António Sousa Pereira

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