Por dentro dos Dias - BarreiroNaveguei na muleta Álvaro Velho…mas, sem velas desfraldadas

Por Jornal Rostos
Aceitei o amável convite e quero expressar, aqui, publicamente o meu agradecimento por ter proporcionado, ao jornal Rostos, pela primeira vez, uma viagem neste barco tradicional do Tejo.
Foi uma tarde agradável, com tempo ameno, com um conjunto de passageiros, com partilhei conversas.
“Conheço este senhor”, comentava uma senhora, enquanto aguardávamos o embarque. “Eu também conheço, não estou a ver é de onde”, comentava outra pessoa.
“Não é do jornal Rostos?” , alguém perguntou. Respondi : sim. E, falou-se do jornal e do seu trabalho. Comentários que ajudam a sentir que vale a pena continuar esta actividade de serviço cívico ao serviço da comunidade.
Não vou deixar de dizer que fiquei feliz com as palavras que escutei, afinal, são as coisas simples que nos aquecem os dias. É
sempre agradável sentir que há quem leitores que nos acompanham e reconhecem o nosso contributo na vida da comunidade. Obrigado!
Já a navegar no Coina, um fotógrafo, que estava entusiasmado a fotografar a paisagem perguntou: “É do jornal Rostos? É o pai da Marta. Sou amigo dela”.
Respondi que orgulhoso: “Sim, a Marta, fotógrafa”.
Qual o seu nome?, interroguei. Respondeu: Ricardo Reis, e, nesta troca de palavras deu-me a informação que, em breve, vai editar um livro.
“Conte com o Rostos para divulgar”, disse-lhe.
E lá fomos navegando. Fotografando. Conversando. Escutando as palavras de Fernando Mota, que ao longo do percurso deu-nos uma lição de história e de estórias que fazem esta terra nas margens dos rios Tejo e Coina.
Fernando Mota apontava para as margens e falava do que lá está e do que lá já não está, recordava a Seca do Bacalhau, os barcos bacalhoeiros que, outrora, faziam do Coina o seu porto de abrigo, ou, comentava os Fornos de Biscoito das era dos descobrimentos, lamentava o permanente assoreamento do Coina, e salientava a passagem do Rei Filipe II, por terras de Coina, que, na época, era na região e na margem esquerda – a outra banda - um dos mais importantes polos económicos da idade média.
Lá fomos navegando, não ao sabor das velas, mas ao sabor do motor, e, esta talvez a maior frustração deste passeio, não sentir o barco navegar às bolina, e, nesse seu voar sobra as águas escutar o silêncio das ondas e o seu marejar no casco da Muleta, como noutras viagens, senti e escutei, ou no Pestarola ou no Boa Viagem, da Moita.
Gostava de ter saboreado a beleza sublime da muleta a rasgar as águas com as suas velas desfraldadas a beijar o vento. Paciência. Coisas da vida, a tal modernidade.
E, a bordo, ao longo da viagem, falava-se do passado, e do presente, observando a pureza das águas, outrora poluídas pelos resíduos da Siderurgia Nacional.
Falava-se das margens, do Polis, da Praia da Copacabana, e, entre os passageiros comentava-se a as pontes de ligação Barreiro Seixal, a ponte rodoviária prometida por António Costa, numa visita ao Barreiro que um dia fez ao Barreiro, e, afinal, continua adiada, e também da pedonal que foi anulada, talvez, também, por coisas da modernidade.
Foi uma viagem com muitas estórias, todos tinham recordações, uns lembravam a poluição das fábricas, outros os terrenos baldios na Recosta e da caldeira do Alemão, onde se jogava à bola.
Uma viagem pelo rio, é um momento de reflexão, de calma de conversa, aquilo que tanta falta nos dias de hoje, carregado com vídeos e consumos.
“O Barreiro que era uma terra poluída hoje está a mudar”, comentava o Fernando Mota.
E, alguém trouxe para a conversa a revista, Time Out Lisboa, editada recentemente, com o Barreiro na capa, foi então que recordei a vinda de McNamara, para surfar nas ondas dos catamarãs.
No meio de tanto sonho, ainda se escutaram umas gargalhadas.
Esta viagem pelo Coina e Tejo, onde tanta coisa se comentou, dava, ela, mesma para diversas crónicas, feitas de memórias e da ficção da actualidade.
Ah, é verdade, até a Muleta foi assunto, mas, não vale a pena comentar, não há nada como deixar o mundo perfeito – neste tempo das parcerias público privadas, que permitem navegar nas ondas da modernidade.
Obrigado, Fernando Mota, pelo teu amável convite. Obrigado pela tua lição de história. Obrigado por me proporcionares esta primeira viagem na muleta – Álvaro Velho. Espero um dia, dar de novo uma volta pelo Tejo, com as velas a rasgar o vento e a sentir a beleza daquela que é, sem dúvida, nos dias de hoje, a mais bela embarcação tradicional do Tejo, que, pelo que observei integra a «Marinha do Tejo».
Um dia, vou a Lisboa, para marcar uma viagem e ver se consigo fazer um passeio pelo Tejo, com a muleta de velas desfraldadas, para beijar o silêncio das ondas e sentir o sol rasgar as memórias desta embarcação centenária.
Ah, é verdade. Obrigado Carlos Humberto, pelo facto do teu executivo municipal ter decidido aprovar a construção desta embarcação, que consta da bandeira do município, é um dos elementos heráldicos do nosso brasão, e, sem dúvida, será um dos mais belos barcos tradicionais a navegar no Tejo, Coina e Rio Judeu, neste século XXI, 100 anos depois de ter findado as suas fainas na barra.
António Sousa Pereira
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