InferênciasBarreiro: a visão de cidade é a que está espelhada no PDM de 1994
Vou lendo os comentários e fico a pensar que, afinal, as mais diversas abordagens distanciam-se de uma reflexão sobre o essencial e, de uma forma geral, vagueiam pelo acessório.

Por Jornal Rostos
Na verdade, o conjunto de urbanizações em curso, programadas, ou a programar, no território do concelho do Barreiro, só são realizáveis porque são permitidas pelo PDM – Plano Director Municipal, de 1994, que é aquele que está em vigor. O presente nasce sempre no que foi semeado.
Ora o dito PDM, que prevê uma ocupação do solo em larga escala não é da responsabilidade da actual gestão autárquica, liderada pelo Partido Socialista. O PDM foi elaborado e aprovado por uma gestão comunista e, na época, com fortes críticas dos socialistas que apontavam o dedo ao excesso de betão e à grande densidade demográfica.
Portanto, a primeira questão de fundo que seria interessante e, talvez, importante debater é se o PDM, em fase de revisão continua a manter os mesmos parâmetros. Ou seja se aqueles que falavam em cidade do betão, nos tempos actuais ficaram convertidos às ideias do PDM de 1994, cuja linha central para o concelho do Barreiro, visa dar músculo financeiro ao município através de uma estratégia que permita fazer crescer as receitas do IMI, ou seja, trata-se de pensar a cidade com base números, pensar IMI e pensar betão. Ou seja, se assim é, nada mudou na forma de olhar e pensar o território, e, obviamente, tal como pensavam os comunistas que geraram o PDM, este que está em vigor, nos dias de hoje, em continuidade, a mesma realidade mantem-se para os socialistas, espelhada no PDM, em revisão.
Isto para concluir que estar a comentar sobre as novas urbanizações é estar a chover no molhado.
O importante é o documento central, o PDM, esse sim, devia ser discutido e devia exigir-se o envolvimento da comunidade na sua reflexão, porque nele está o legado futuro de cidade.
O PDM pelos vistos, é um documento dogmático, que está feito à medida da criação da cidade do betão.
Outra matéria que este assunto me faz pensar, é sobre o aumento de ocupação do espaço urbano com novas áreas residenciais, se, tal, na verdade, tem alguma coisa a ver com o pensar um modelo de cidade, ou de concelho. Interrogo-me.
Sabemos que o PDM abre as portas, e institui a prioridade ao imobiliário. Não se conhece uma ideia para potenciar o território se não: está a 15 minutos de Lisboa. Um jardim para viver. O vender urbanismo.
Verifica-se pois, apenas, que tal como aconteceu nos anos 90, ou, mais para trás, nos anos antes do 25 de Abril, a expansão urbana, é a base, é isso que está em curso no concelho do Barreiro, mas isso resulta apenas das motivações do mercado imobiliário na AML, não tem nada a ver com uma ideia estratégica de desenvolvimento urbano. O que conta é o crescimento urbano.
O Barreiro não tem outra visão de cidade, é apenas aquela que está espelhada no PDM de 1994, e, pelos vistos tem a mesma visão estratégica no PDM em revisão, uma cidade de portas abertas ao betão. O IMI é a motivação, nele reside o futuro.
Nos anos 70 antes do 25 de Abril, o Barreiro cresceu desenfreadamente, com ruas sem passeios, sem espaços de lazer. Então recebia as pessoas que em Lisboa pagavam, por um quarto 300 ou 400 escudos, e, nesta margem alugavam um andar por 125 ou 150 escudos de renda mensal.
E, foi assim que a Vila Operária, ficou dividida entre dois mundos reais, o que vivia no lado de cá, com vida própria, pois trabalhavam na CUF, na CP, e existia um comércio local intenso, com empregabilidade.
E outro mundo que dormia cá e trabalhava em Lisboa e arredores.
Hoje, a mudança de pessoas de Lisboa para o lado de cá, não serão as que vivem em quartos, hoje, sente-se que é a classe média, que perante o sufoco da cidade de Lisboa, com rendas impossíveis e custos de habitação insuportáveis, optam por viver na margem sul. E investidores estrangeiros.
O Barreiro é um desses territórios, e, como a visão de ocupação do solo é aquela que está plasmada no PDM, é este o futuro que temos pela frente – a cidade do betão.
A única estratégia de cidade que existe plasmada no PDM é a visão imobiliária.
E sobre o PDM os nossos políticos já decidiram, e se, eles decidiram, está decidido, eles é que sabem, sem dúvida, o que é melhor para nós, é por isso, apenas por isso, que ao ler os comentários nas redes sociais sobre as novas urbanizações, sinto que aquelas polémicas são meramente para distração, para entreter, para manter em lume brando, um pseudo confronto de ditas opiniões sobre o território, com uns a serem rotulados dos velhos do Restelo e outros com uma visão do concelho para daqui a 500 anos.
Não há confronto de ideias, não há debate de ideias sobre o pensar o território, fala-se no acessório. E rotula-se.
A discussão sobre o essencial, o PDM, a estratégia global essa é matéria dos políticos. Isso não se discute. Não se discute o PDM. Como não se discute as decisões da autoridade.
A urbanização é a árvore, discutir a árvore não é discutir a floresta que é o PDM – onde estão muitas árvores.
Houve um tempo que sonhei, quando ainda se realizavam reuniões sobre a discussão de uma estratégia para o concelho e para pensar uma estratégia para o PDM. Nesse tempo, sonhei com uma cidade polinucleada. Sonhei com uma zona ribeirinha diferenciadora. Sonhei com a Mata da Machada a ser o nosso Central Parque. O corredor do Coina, a ligação ciclo -pedonal ao Seixal. A revitalização das Oficinas da CP. Sonhei como território da Baía do Tejo, como um espaço integrador de indústrias de novas tecnologias, com uma estratégia e ligação à Escola Superior de Tecnologia do Barreiro. Sonhei com uma cidade que potenciasse os seus nichos de memória, e são tantos – estruturados a médio e longo prazo – para atrair os tais milhões de pessoas que viajam até Lisboa. Um turismo de nichos diferenciadores – industrial, natural e imaterial. Uma riqueza imensa. Um potencial por aproveitar.
Em suma, foram sonhos. Agora, fiquemo-nos pela cidade da utilização e da contemplação – essa de jardins a mirar o Tejo.
António Sousa Pereira













