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Inferências

Por dentro dos Dias – BarreiroO menino de sua mãe, afagado com o olhar, beijado com o coração

O tempo é um som de silêncio que se distancia entre um lugar de luz de onde vimos, para outro qualquer lugar, dizem de trevas, para onde não sabemos se vamos.

4 min de leitura
Por dentro dos Dias – Barreiro O menino de sua mãe, afagado com o olhar, beijado com o coração

Por Jornal Rostos

O tempo é esta energia que nos move, força que acalenta poemas, palavras que escrevemos em fontes de lágrimas, seiva de ternura que bebemos no tempo quando o sentimos a navegar em fontes de sonhos.

A poesia é o sentimento que faz a vida renascer para além da morte, porque com ela, também se faz a vida renascer no silêncio que se faz eternidade.
Escrevo estas palavras para partilhar, coisas que tocam a vida por dentro do pulsar do coração. Acasos.

Sabem, ontem, pela manhã, no encontro matinal com a vida, essa que pulsa pelas redes sociais, com alegrias tristezas, sorrisos e lágrimas, na verdade, comecei o dia com uma tristeza enorme, a brilhar no pensamento, quando li aquelas palavras, a mensagem de dor, do José Salgueiro, a comunicar aos amigos que, na noite, que ficava para trás, pelas quatro e tal, a madrugada deixou de sentir o bater do coração do seu filho João Salgueiro, e, digo-vos, este, é um daqueles momentos que vivemos intensamente, quando neles sentimos o tempo inscrever-se, um tempo que se faz silêncio ao abraçar o tempo que temos dentro de nós, aqueles instantes que se fazem memória. Inesquecíveis.

Instantes que vivemos e sentimos que o pensamento toca o coração, tal, como o coração que parou na noite, sentimos o tempo que vivemos beijar a nossa interioridade, e, o tempo inscrito dentro de nós, fica em silêncio.
Sabem, quando acabei de ler as palavras do Zé Salgueiro, dei comigo encostado, no meio de um ruído de festa, em silêncio, no varandim do Restaurante Manuela Borges, a olhar com emoção, muita emoção, aqueles movimentos de carinho, ternura e afecto da Ângela Salgueiro, que com candura acariciava os cabelos do João, confortava as suas pernas. Sentia, com o meu olhar, em silêncio, a palavra amor a fluir em gestos. Uma melodia.

O pessoal em festa divertia-se, preparava-se para o momento do corte do bolo, naquele ambiente onde a amizade e a solidariedade, pulsava nos corações, uma festa de família, que marcava a Gala da GDESSA.

E, no meio daquela festa efusiva de alegria a saltar nos sorrisos, eu, encostado ao gradeamento, deitava os meus olhos, apenas, para observar e sentir aquele quadro de ternura e paixão, do menino João Salgueiro, sentado na sua cadeira, a olhar em volta, e, a ternura, o carinho que fluía em silêncio dos olhos e das mãos de sua mãe. Mãos de veludo, afagando as suas pernas, acariciando os seus cabelos.

Eu olhava, olhava e pensava, comigo, naquele poema que sentia nascer num quadro real, ali, vivo de afectos, uma enorme vaga de amor e de festa, dentro da festa. Que lindo!

O Nuno e a Joana cortavam o bolo da GDESSA, e, de repente a Ângela caminha até junto da mesa e, com aquela delicadeza materna, transporta nas suas mãos, para as mãos do João, a doçura para alegrar os seus lábios de amor.
Observava aqueles instantes e pensava, vou escrever uma crónica sobre este momento. Este momento, feito de um tempo onde sentia a pureza da ternura, em movimentos vivos a semear afectos.

Ali, na noite, escrevia-se, com a energia do big bang, a força da palavra amor, esse amor que dá beleza à vida, essa beleza que se faz eternidade. Um poema. Sim, um poema em que eu sentia, ali, erguer-se numa escultura de Miguel Ângelo, ou um quadro de Vicent Van Gogh, onde florescia o menino de sua mãe, o sempre menino de sua mãe, afagado com o olhar e beijado com o coração.

Por isso, hoje, pela manhã, quando li a mensagem da partida do João, este instante que vivi, naquela noite da GDESSA, também parou nos meus nervos. Senti como o tempo e a vida nascem em poema, sempre que a vida é vivida com a palavra amor.
Partilho, com estas minhas palavras esta memória que ficou inscrita no tempo vivido, porque, afinal, é nestes momentos, únicos, que nós descobrimos como a vida, é sempre um tempo que se esvai no tempo, um silêncio, que faz de nós o que somos, por dentro das experiências, por dentro do tempo, a eternidade nasce, sempre que a vida nos faz pensar, descobrir o amor e o afecto.

Acreditem, existe, dentro dos dias, basta olhar e sentir. Eu senti, e vou guardar essa lembrança.

António Sousa Pereira

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