Barreiro – A(nota)mentosA utopia é a porta da Dignidade porque pensa futuro e sente futuro

Por Jornal Rostos
“Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida”, era a canção que invadia o espaço de grávido de futuro, ali, junto à estátua de Alfredo da Silva, ao lado do passarinheiro, sentia-se a utopia voar, nos olhos e nos silêncios escondidos, nos ramos das árvores, em busca de Liberdade.
Naquela manhã, de Dezembro, antes de Abril, caminhei a abraçar os sons. O evento decorreu em harmonia e serenidade. A Comissão Organizadora dos Jogos Juvenis do Barreiro, assinalava, de forma simbólica o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Os sons do “Manel, olha a bola”, misturavam-se com os da “bola colorida entre as mãos de uma criança”, gritos calados em busca de direitos que eram negados.
Os tais Direitos Humanos que, num dos seus artigos, sublinham - “todo o ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão”. E, nesse tempo, no meu país, existia censura na imprensa, silenciavam-se as vozes incómodas, eram perseguidos os que amavam a Liberdade, perdia-se a vida na guerra colonial, perdia-se o emprego por delito de opinião, e , perdia-se a vida nas masmorras da escravidão. Escutas nas paredes. Eu sorria, feliz, ali, no centro da vila, hoje cidade, naquela ousadia e irreverência da malta dos Jogos Juvenis do Barreiro, celebrando os Direitos que eram negados, com cânticos, dando voz à esperança, à utopia, e ao sentido vivo da palavra Dignidade. O respeito pelo outro, o direito à diferença. Os Direitos Humanos são a expressão dessa luta da humanidade, que começou, mais vincadamente, naquela revolução que se inscreveu com as palavras – Liberdade, Igualdade, Fraternidade. E, afinal, todas elas rimam com a palavra Dignidade. Sim, Dignidade que está umbilicalmente ligada à palavra Dignipédia, essa palavra que entrou na minha vida, numa sessão que vivi, com intensidade, na Escola Secundária de Santo António da Charneca, no ano de 2021. Ali, em plena pandemia, com máscaras a cobrir os rostos, vivi o arranque, no concelho do Barreiro, do projecto «Dignipédia Global», de âmbito nacional, um projecto que visava criar uma ferramenta que não existia em Portugal, para proporcionar aos jovens informação sistematizada sobre os Direitos Humanos». Foi nesse dia que conheci a Susana Mourato-Alves, sempre com um sorriso nos seus olhos, e, a paixão pela Dignipédia, a brotar numa entrega total, que não era trabalho, era amor.
“É urgente agir para os direitos humanos”, foram nesse dia palavras ditas pela barreirense e investigadora Susana Mourato-Alves. Acrescentava que a Dignipédia era um caminho para – “pensar, reflectir” sobre os Direitos Humanos, e, “depois agir”. Escutava-a e recordava as memórias. Senti a palavra Barreiro, na sua história, indissociável das lutas pelos Direitos Humanos. E, recordo que, naquele dia, pensei na utopia, no sentir a vila, agora cidade, erguer-se numa semente que iria dar flores e frutos, transformando o Barreiro na capital nacional da Dignipédia, a cidade da afirmação dos Direitos Humanos, que estão ligados à sua história, à sua resistência, antes de Abril e à sua resiliência, depois de Abril. Dar força à cidadania activa. Sentir. Pensar. Agir.
Utopias. Coisas que se pensam quando se ama a vida.
Enfim, quando me sentei para escrever este a(nota)mento surgiram estes registos de vivências que não se esquecem. Navegaram, com um sorriso, a florir no meu pensamento, ligando o presente ao passado, e, o presente abraçando o futuro.
E, dando um salto no tempo, recordei ainda as palavras do filósofo Viriato Soromenho Marques, quando da apresentação do livro da minha amiga Susana Mourato- Alves, este livro, que, hoje, proporciona este encontro, na Biblioteca Municipal do Barreiro. Sim, foi no dia 12 de Dezembro de 2023, em Lisboa, na Gulbenkian, escutei o meu ex-professor de Filosofia do Conhecimento, nos tempos que vagueei pela Faculdade de Letras, afirmar – “a utopia existe quando se pensa em coisas que não existem, mas tem sido ao longo da história da humanidade, isso mesmo, a utopia, é a porta que abre caminho aos sonhos de Liberdade e Dignidade do ser humano.” Nesse dia na Gulbenkian, escrevi, uma nota onde afirmei que é preciso – “sentir que os Direitos Humanos são essenciais para a renovação da humanidade, neste tempo que o ódio esmaga o futuro”, e, que “a utopia é a porta da Dignidade, porque pensa futuro e sente futuro.”
É verdade, costuma-se dizer que há pessoas que entram nas nossas vidas, para nos ensinar que nós não devemos ser como elas, mas, a verdade, mais bela é outra, é aquela que nos diz, que há pessoas que entram nas nossas vidas para partilhar o tempo que somos, viver a temporalidade comum, escrever no quotidiano a palavra Amizade, com verticalidade, de pé, inseparável da palavra Dignidade.
Um dia disse à Susana, com a Dignipédia, descobri a força e a beleza da palavra Dignidade. Por isso, obrigado Susana, por partilhares a tua obra, as tuas utopias, por dares um enorme contributo para valorizar os direitos humanos, e, acima de tudo, por me dares a alegria de te inscrever no meu tempo vivido com a palavra Amizade.
Sabes, o teu nome já está inscrito, na história da dignificação da humanidade, e, obviamente, no nosso país, este Portugal da cultural global. És um pilar no estudo e na valorização dos Direitos Humanos, na academia portuguesa, no país, no teu Barreiro, e, na energia das utopias que fazem futuro. Obrigado.
Ah, é verdade, o ano passado quando a Susana Mourato-Alves foi a vencedora do Prémio CTT - Correios de Portugal S.A. — D. Manuel I, atribuído pela Academia Portuguesa da História, pela sua obra “Direitos Humanos em Portugal: História e Utopia.", quando li a notícia senti uma enorme alegria e orgulho. Pensei : eu conheço a Susana. Eu sou amigo da Susana. A Susana é do Barreiro. Sim é verdade, merecidamente – Rosto do Ano Cidadania 2023.
Para finalizar, expresso a minha alegria e agradeço o convite que a Susana me formulou para, neste dia, escrever um a(nota)mento nesta sessão, histórica, de apresentação da 2º edição do seu livro, na sua terra natal, aqui no Auditório do Ti Manel Cabanas, um lutador pela Liberdade e Democracia. Ela está feliz. Eu estou feliz por estar aqui ao seu lado. Aproveito para lhe agradecer, publicamente, o desafio que me colocou para fazer uma licenciatura de História, na Universidade Aberta. Em boa hora conheci a Susana. Estou a gostar imenso e a viver intensamente o curso. Obrigado !
E, mesmo para findar, apenas saudar José Eduardo Franco, historiador, aqui presente, pela honrosa distinção, de este ano, ter recebido da Universidade de Paris, com o Doutoramento Honoris Causa.
Parabéns meu amigo.
Susana, que esse teu rosto juvenil, sorridente, seja sempre o espelho da palavra Dignidade, palavra que brilha nos teus olhos e floresce na ternura do teu coração.
Obrigado!
António Sousa Pereira
Barreiro, 13 de Dezembro de 2025













