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Inferências

Barreiro - Por dentro dos DiasEternizamos a morte, porque através dela eternizamos a vida.

A vida é para viver, sim, todos sabemos isso, repetimos essa ideia, convictos no tempo que vamos percorrendo, que vivemos, somos totalidade de tempo, e, serenamente, procuramos ignorar que, afinal, a vida é uma caminhada para a morte. Sim, viver é para morrer, numa morte anunciada.

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Barreiro - Por dentro dos Dias Eternizamos a morte, porque através dela eternizamos a vida.

Por Jornal Rostos

Seremos no futuro o pó, que herdamos das estrelas. O Cosmos. A eternidade. Pensava em tudo isto, enquanto percorria a «cidade dos mortos», as ruas feitas de «casas – jazigos», de muitas arquitecturas, ali, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Este texto que estou a escrever foi motivado pela visita que fiz, no sábado, dia 11 de abril, integrando um grupo de barreirenses, numa vigem pela «Polis dos Mortos», os mortos que estão vivos na memória. Foi uma, inesquecível, visita guiada pelo escritor Francisco Moita Flores, uma manhã que foi uma lição riquíssima de humanismo, história e estórias. Ali, na «cidade dos mortos», o escritor recordou os conflitos da Igreja com o Liberalismo, os confrontos da República. A sacralização da morte. A sacralização do trabalho.

A «Tertúlia Augusto Cabrita»

Começo por referir que esta foi uma iniciativa que envolveu os participantes» das «Tertúlias Augusto Cabrita», tendo sido organizada por Carlos Bicas. A «Tertúlia Augusto Cabrita» é um «ponto de encontro» de alguns professores e barreirense que, após as sessões pedagógicas, convivem num jantar, e, entre si, fortalecem laços de amizade.

Formação permanente ao longo da vida

Para quem não conhece, recordo que as «Tertúlias Augusto Cabrita», são um projecto pedagógico da Escola Augusto Cabrita, com mais de uma década, que mensalmente proporciona, aos professores interessados, acções de formação, sobre as mais diversas matérias, com uma periodicidade muita regular, convidando personalidades que realizam conferências diversificadas sobre temas de actualidade, que enriquecem a actividade curricular e abrem as portas ao que se pode dizer a «formação permanente ao longo da vida».in Este, naturalmente, é um espaço de partilha e actualização de conhecimentos. E de sublinhar que, os professores que participam recebem créditos que contribuem para os seus enriquecimentos curriculares.

Ligação da Escola Augusto Cabrita à cidade.

Conheci as Tertúlias da Escola Augusto Cabrita, através de um convite que me foi formulado pelo saudoso Leal da Silva, e, por conversas com a professora Mariana Alves. Na realidade, ao longo de mais de uma década de sua existência, assisti, por diversas vezes, e, também, fiz algumas reportagens de sessões. Os temas são sempre actuais, com interesse para a vida escolar, mas, também para a comunidade.
Este é, na verdade, um projecto de escola que, ao longos dos anos, esteve sempre aberto à comunidade, afirmando-se como uma marca cultural de ligação da Escola Augusto Cabrita à cidade.

Liberdade dá sentido ao viver Tertúlia
No âmbito das «Tertúlias Augusto Cabrita», alguns participantes, no final, convivem num jantar, onde a conversa da conferência pode continuar, ou, sendo as conversas como as cerejas, pode falar-se sobre a vida, sobre o mundo, cantar, sorrir, abraçar a vida.
Na única vez que lá estive, num jantar, para além do convívio divertido, cantei, abracei as memórias e senti o pulsar do coração por dentro dos dias. Um professor levou uma guitarra e, com a sua voz suave e melódica, recordou Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros trovadores que estão inscritos no amor à liberdade.
Todos cantámos. Foi uma noite que senti uma fraterno abraço, entre a memória e o presente. Senti a simplicidade do florir a a palavra amizade, semeada numa salutar relação de estar com o outro, olhar o outro, e sentir a beleza do viver em comunidade. Gostei do ambiente, muito informal, divertido, sem preconceitos, puro no pleno respeito pelas diferenças. Um convívio onde, senti, a Liberdade dar sentido ao que é fazer e viver em tertúlia. Recordando os «cafés concerto», as «conversas abertas», o tempo que as palavras não circulavam por redes sociais – tik tok – e floriam no olhar a tocar os nervos...sorrindo!

Pensar a vida real em fraternidade

É, neste contexto, de partilha de conhecimentos, de ligação à comunidade, de viver os dias a olhar – olhos nos olhos - como quem se liberta dos algoritmos, e, pretende sentir e pensar a vida real em fraternidade, que começou a esboçar-se a realização de visitas.
A «Tertúlia Augusto Cabrita», está, pois, na génese da realização da visita guiada que aconteceu com o escritor Francisco Moita Flores, ao Cemitério dos Prazeres. Uma iniciativa que foi muito bem moldada estruturada por Carlos Bicas, que integra esta tertúlia.

O barreirense Henrique Galvão

E, foi assim, que, no sábado, pelas 11 horas, um grupo de cerca de 20 barreirenses, marcou encontro junto portal de entrada do Cemitério. Uns da Tertúlia Augusto Cabrita. Outros da Tertúlia de «Os Leças».
Enquanto aguardávamos, parámos, ali, logo junto à entrada, o túmulo de Henrique Galvão, natural do Barreiro. “Quando a ditadura é um facto. A revolução é um direito”, lê-se na entrada do Jazigo
E depois, começou uma viagem, numa manhã vivida de forma intensa. Uma oportunidade única de assistir ao vivo a uma excelente lição de história, de filosofa, de antropologia, de teologia, de sociologia e de arquitectura, pela voz de Francisco

Moita Flores, cuja forma de comunicar é brilhante, pela emoção e sensibilidade humanista que coloca nas suas palavras e na partilha de conhecimentos.

Espaço único ao nível europeu

Ali, na cidade dos mortos – polis dos mortos - que os vivos mantêm vivos, ali, num espaço único ao nível europeu, a maior floresta de ciprestes da europa, como referiu Moita Flores, fomos ao encontro de memórias inscritas. Uma viagem pelo tempo das memórias do Liberalismo, às comemorações do 1º de Maio, na República, junto ao túmulo de José Fontana.
A visita ao Mausoléu do Duque de Palmela, é impressionante. O respeito pela vida e pela morte. O simbolismo. A simbologia inscrita na arquitectura, onde foi referenciado que os valores maçónico e os valores do catolicismo, naquela arquitectura estão bem vincados.
Quando percorremos o espaço, sentimos um respeito profundo pela morte. Ao percorrer as galerias subterrâneas, onde estão sepultadas cerca de duas centenas de pessoas, em urnas oriundas dos mais diversos países da europa, o tempo faz-se eternidade nos nossos olhos. Silêncio. Sim aquela é uma viagem pelo silêncio que toca, com serenidade, no caminho iluminado pelo reluzir das velas. Caminhamos e pensamos. Afinal o que somos todos nós? De onde viemos? Para onde vamos?
O sentimento que trouxe comigo desta visita, para além da gratidão a Francisco Moita Flores, um escritor que sempre li com entusiasmo, foi sentir que ele comunica como escreve, com ternura, com amor, com os valores e ideias, sem querer impor nada, apenas dá informações, descodifica, abre caminhos para que cada visitante, na sua caminhada pela cidade dos mortes – feita de casas de família - sinta e pense, quer a morte, quer a vida.

Deus e Liberdade

Nesta visita senti que, ali, no Cemitério dos Prazeres existe uma história inscrita, marcada pelo tempo, uma história que continuará sempre a ser escrita. Esse diálogo e o confronto entre a ideia de Deus, e a ideia de Liberdade. O ser humano e a divindade. O Cosmos. A eternidade. O clericalismo. O anticlericalismo. O Sindicalismo. A República. O Liberalismo. A Maçonaria. Testemunhos de Fé. Um mundo com Deus. Um mundo sem Deus.

Eternizamos a morte, eternizamos a vida.

Sim, ali, sentimos como somos morte, como essa é uma certeza que está presente na nossa vida. Sentimos como, naquela cidade de memórias, eternizamos sempre a morte, porque através dela, também, eternizamos sempre a vida.
No final da visita deixei para trás a morte e através dela senti nascer a vida, o amor à vida, com a certeza que, no quotidiano, o belo é aprendermos a morrer…vivendo!

Passado é lição que está viva no presente

Olhando aquela avenida, de monumentos erguido em memória de personalidades inscritas na história do meu país, senti o tempo por dentro do tempo, no presente a nascer futuro.
Como dizia Moita Flores, as grandes avenidas nos cemitérios, tal nas cidades, é o lugar onde estão inscritos os nomes dos grandes homens, exemplos, memórias vivas, que nos recordarão sempre como passado é uma lição que está viva no presente…onde hoje inscrevemos o futuro.

António Sousa Pereira
TE – 180
Equiparado a Jornalista

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