BARREIRO – A (nota) mentos de uma manhã na Escola Augusto CabritaOs jovens sentem que Abril escreve-se com a palavra LIBERDADE!

Por Jornal Rostos
Este encontro, serviu para matar saudades daquele tempo, ido, quando, todos os anos em Abril, nas escolas do ensino básico ao ensino secundário, realizavam-se encontros de gerações uma partilha de memórias, entre alunos e alunas, com homens e mulheres com experiências vividas nos dias antes do 25 de abril. Testemunhos inscritos no tempo. Nunca serão silenciados.
Ah, é verdade, para minha surpresa, ao entrar na Biblioteca, estava à minha espera o Diniz. Que forte abraço demos. O Diniz, que nos tempos idos, quando frequentava o ensino básico, viveu uma das minhas conversas sobre os dias de Abril.
No começo, pedi a cada aluno e aluna que, num papel, escrevessem uma palavra, apenas uma, sobre o que era para eles o 25 de abril. E, no registo final, verifiquei que 73% escreveu a palavra Liberdade. Os restantes distribuíram-se pelas palavras - Revolução», «Mudança», «Coragem», «Paz». Escrevemos sempre o que sentimos. São as palavras que espelham o nosso coração. E, quando sentimos as palavras, quando pensamos as palavras, sentimos a energia que está dentro da nossa consciência qu é fruo da nossa vivência cultural. A nossa realidade epocal.
No começo disse-lhes que não estava ali, para conversar com eles sobre o passado, porque o 25 de Abril não é passado, é presente e será sempre futuro. O ser humano é indissociável da palavra Liberdade, Quem vive o 25 de Abril a olhar para o retrovisor, no movimento dos dias, esquece a principal semente que dele herdámos a Liberdade. O 25 de Abril é futuro, porque o 25 de Abril é Liberdade.
Por isso, disse-lhes, sintam o 25 de Abril a pulsar no vosso coração. Coloquem a mão no peito e sintam Abril a pulsar. O coração é um cravo que dá energia, semeia amor e nega o ódio. Quem cultiva o ódio, o ressentimento não sabe o que é o 25 de Abril, aquele que foi um dia, único, puro e limpo.
Recordei-lhes que não há democracia sem Liberdade. É pela Liberdade que construímos o direito à diferença, cultivamos o respeito por nós mesmos e pelos outros. Viver a Liberdade é sentir uma força que nos motiva a amar a vida.
Quando se cultiva o ódio não se cultiva a Liberdade. Não há democracia quando se cultiva o ódio. A Liberdade é o direito de escolher e, o direito de escolher é a base da democracia. Votamos para escolher. Escolhermos quem nos governa, no país e a nível local. É no voto começa a nossa cidadania, mas, a cidadania não pode esgotar-se no acto de votar. Temos que continuar a viver a nossa cidadania plena, participando na vida da escola, nas associações, no fazer cidade. No amar a cidade. No construir futuro. No comunicar ideias. No viver valores. No respeito entre homem e mulher. Na vivência da igualdade de direitos. No repúdio da violência no namoro. No respeito pelos professores. Isto tudo é o 25 de Abril. Porque o 25 de abril é Dignidade. Não é passado, é presente e é futuro.
Recordei-lhes os tempos que as palavras eram silenciadas, pela censura. Palavras proibidas no jornais…jornalistas presos. Calados por terem opinião.
Recordei-lhes os tempos da Guerra Colonial. Onde morreram milhares de jovens. Aquela que foi uma guerra injusta.
Recordei-lhes as prisões no Tarrafal. Onde muitos morreram, apenas porque pensavam diferente, socialistas, comunistas, anarquistas, lutadores pela independência das colónias. Lutadores da Liberdade. Recordei- lhes as centenas de barreirenses presos pela policia política - a PIDE.
Recordei-lhes que, antes do 25 de Abril, por vezes existia medo de falar, nas próprias famílias. Era um tempo de trevas. De medo. De despedimentos.
Li o meu poema, sobre - a noite tão fria, tão cheia de solidão, que cada homem sentia, ele mesmo ser prisão. Aplaudiram com um grande calor humano.
Senti que escutavam as minhas palavras, atentos, olhos vivos, na força da vida. Uma sala que ao observar, registei que era repleta de diferenças, senti ali, bem viva, a nova comunidade barreirense, vinda de muitos cantos do mundo.
Por isso, falei-lhes n respeito uns pelos outros, o direito à diferença, que somos todos seres humanos.
Recordei-lhe foi esse sonho de dignidade, de humanismo, de respeito pela vida, o amor á Liberdade, a coragem de dizer não, foi tudo isso que forjou as forças e uniu as vontades para, num dia de primavera, numa madrugada de abril, ao escutar o cântico de Zeca Afonso – a Grândola Vila Morena – os militares de abril iniciarem a caminhada da revolução de Abril e libertar Portugal de 48 anos de ditadura.
E, nasceu um dia puro e limpo, um dia em que a Liberdade inscreveu nas ruas a palavra fraternidade. Milhares saíram às ruas. O dia que sentimos a palavra Amor abraçar a Liberdade, nos sorrisos e nos cravos, símbolo da dignidade. Ser livre!
Por isso, falei-lhe de amor. Porque, afinal, é com amor que damos continuidade ao 25 de abril, o amor que está inscrito na palavra Liberdade. Essa Liberdade onde floresce a esperança. Essa esperança onde sentimos o respeito pelo outro, e, o futuro nascer sem ódio.
O Amor é Abril. O ódio é negar Abril.
Foi uma manhã de Abril, neste ano dois mil e vinte e seis, que senti, feliz, que, afinal, os jovens deste tempo, que nasceram no começo do século XXI, sentem dentro de si que Abril escreve-se com uma palavra - LIBERDADE!
Porque, não deixar morrer Abril, é manter viva a Liberdade, a força criadora da DIGNIDADE!
António Sousa Pereira
TE – 180
Equiparado a Jornalista
Nota - Obrigado pelo convite à Comissão da Biblioteca : Ana Camões, Fátima Roupa, Nídia Santos, Paula Pisa, Rosália Caixinha.













