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Inferências

Crónica do Pato BravoEntre o pragmatismo e a ideologia

Um grupo de amigos encontra-se, regularmente à Quinta Feira, ali, no Lavradio, no Pato Bravo. É um tempo para conversar, falar de coisas da vida local. Um ritual. Uma tertúlia. Vai quem quer, quando quer e sempre que apetece.
Ali, fala-se de tudo, em liberdade, independentemente das opções políticas de cada um, de esquerda ou de direita.
5 min de leitura

Por S.P.

A conversa, na última semana, centrou-se sobre ideologias. O papel das ideologias. As dinâmicas ideológicas. A importância da ideologia na acção política.
Todos nós, na nossa acção, somos marcados por comportamentos “ideológicos”.
Todos nós, na nossa acção, interpretamos a realidade com base na “grelha ideológica” que perspectiva os nossos caminhos.
As ideologias são a marca do nosso “compromisso” com a história, com as memórias e com o tempo que vivemos.
No nosso quotidiano, querendo ou não querendo, balizamos a nossa acção pelas “ideologias” que temperam o nosso olhar sobre o mundo.
Não há ideologias ingénuas. Nem há comportamentos “ideológicos” ingénuos.
As “ideologias” são, de certa forma, o motor da nossa acção.
No mundo de hoje, fala-se, por vezes, no “fim das ideologias”, utilizando, muitas vezes, a ideia de pragmatismo como caminho essencial para desbravar novos caminhos.
Não há pragmatismo sem ideologia. Todo o pragmatismo é, afinal, um acto consciente para encontrarmos o máximo divisor comum das diferenças.
Será que é possível acção política sem ideologia ?
Será que o pragmatismo pode colocar as ideologias na gaveta?
De facto, o que pode acontecer é que, num movimento da história, onde se gere uma “cultura de diferenças” – nessa procura do máximo divisor comum – sejamos capazes de agir, colocando o secundário à frente do essencial.
Isto é pragmatismo, é táctica, é meramente táctica.
O Bloco de Esquerda é uma força política marcada por esta realidade – uma força política cuja acção assenta no pragmatismo.
A ideologia do Bloco de Esquerda não é uma anti ideologia, nem é uma ideologia conceptualizada, historicamente determinada, mas, é, de facto, uma ideologia que vive de tudo isso : de “antis”, de “globais”, de “conceptualizações” e que no movimento da história caminha marcada pelos fantasmas que estão na sua origem.
O Bloco de Esquerda tende a ocupar, em Portugal, um espaço político próprio – uma esquerda que assume o respeito pelas diferenças, a diversidade e inserida numa corrente mundial antiglobalização.
O Bloco de Esquerda não tem que se afirmar contra o PS, nem contra o PCP, tem que se afirmar com um projecto próprio, com uma cultura própria, sendo capaz de superar os “síndromas da sua génese”.
Mas o Bloco de Esquerda age contra o PS e contra o PCP, porque procura ganhar espaço político nas áreas destas duas forças políticas. E, na verdade, está mais próxima do PCP que do PS, sendo, tal, contraditório com o respeito pela diversidade que procura assumir.

Uma ruptura epistemológica

O problema, levantado nesta conversa, será quando o Bloco de Esquerda tiver que assumir “compromissos”, ser poder, como se irão, então, aguentar as suas “contradições” internas.
Este de facto é um problema em aberto.
Todos sabemos as “marcas” ideológicas do PCP. Aceitamos ou não. Respeitamos ou não. O PCP é igual a si próprio, com história, memória e enquadramento no movimento mundial das ideologias.
Todos sabemos as “marcas” ideológicas do PS.
Aceitamos ou não. Respeitamos ou não. O PS é igual a si próprio, com história, memória e enquadramento no movimento mundial das ideologias.
O Bloco de Esquerda é uma ruptura epistemológica, talvez, por essa razão, anda à procura de superar as “ideologias” que estão na sua génese e encontrar-se numa “plataforma pré - ideológica”.
O Bloco de Esquerda, no entanto, tem tido um papel positivo na esquerda portuguesa, obrigando ao respeito pela diversidade e obrigando a pensar que o mundo não pode, nem deve, continuar a ser pensado a “preto e branco”.
Não pode, nem deve, o BE pensar que esse é mérito seu, próprio, único, à esquerda.
Não foi por isso que o PS saiu à rua e encheu a Alameda da Fonte Luminosa ?
Esta é uma verdade. Por muito que “doa”, de facto, tal ser obrigado reconhecer, pelas ideologias que estão na génese do BE ?
E se o PS não tivesse saído à rua naqueles tempos do PREC, estaríamos, nos dias de hoje, aqui e agora, a discutir de forma aberta neste almoço do Pato Bravo ?
Sem dúvida que no Bloco de Esquerda o todo vale mais que as partes, daí o seu desenvolvimento político e o aumento do seu papel na sociedade portuguesa.
O “todo” do Bloco é personalista, é uma ideologia personalista, respeita a individualidade e as identidades da sua génese.
As “partes” do Bloco são as suas memórias, individuais e colectivas, são uma ideologia historicista, donde emergem as herança, os “síndromas” e a “catarse” que exige uma dinâmica libertadora dos complexos da sua génese.
No conflito, natural, entre o “todo” e as “partes” que será do Bloco de Esquerda no dia em que uma qualquer das “partes” quiser ocupar o lugar do todo ?
O Bloco de Esquerda tem que ocupar um lugar na história sendo capaz de reafirmar uma “força” com “ideologia”, ou seja, o BE tem que ser capaz de fazer crescer a “criança” que está dentro de si...
Estas as reflexões emergentes de uma acesa polémica e animada conversa, que animou o último almoço, no Pato Bravo.

S.P.

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