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Inferências

Por Augusto Matias LopesRonaldo! — A palavra que nos abre o mundo
Barreiro

Há uma palavra que, durante décadas, me abriu portas em todo o mundo. Não vinha em nenhum documento oficial, não tinha carimbo nem visto. Bastava responder à pergunta de sempre, “De onde é?”, e dizer “Portugal”, para ouvir de imediato, com um sorriso: “Ronaldo!”

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Por Augusto Matias Lopes Ronaldo! — A palavra que nos abre o mundo Barreiro

Por Jornal Rostos

Um passaporte com nome próprio


Aconteceu-me no Japão e no Egipto, no Catar e no Dubai, em Banguecoque, no Brasil e em dezenas de outros países por onde a minha vida profissional me levou. Taxistas, empresários, empregados de hotel, crianças na rua: todos sabiam quem era o nosso compatriota. E, de cada vez, senti o mesmo orgulho.

Não sou caso único. Milhões de portugueses da diáspora conhecem esta experiência. Cristiano Ronaldo tornou-se, para muitos povos, a primeira imagem de Portugal. Nenhuma campanha de promoção externa, por mais cara que fosse, alguma vez conseguiu tanto.

O Homem por trás do mito

Por isso já não há paciência para ouvir as ingratidões de quem fala, com mal disfarçada inveja, do seu pecúlio e do seu património. Como se o sucesso fosse um pecado, e não o fruto de uma vida inteira de trabalho, disciplina e sacrifício.

Quem reduz Cristiano Ronaldo à sua fortuna esquece o que ele faz com ela. Ao longo dos anos, tem estado ao lado das crianças e dos mais frágeis, muitas vezes longe das câmaras. Apoiou hospitais pediátricos, financiou tratamentos e cirurgias de crianças que de outra forma não teriam hipótese, e emprestou o seu nome a organizações como a Save the Children, a UNICEF e a World Vision.

Durante a pandemia, juntou-se a Jorge Mendes para equipar unidades de cuidados intensivos em hospitais de Lisboa e do Porto. Leiloou troféus para causas solidárias e é conhecido por doar sangue regularmente. Para ele, a solidariedade não é um gesto de marketing: é o reconhecimento de que todos os seres humanos são iguais em dignidade, e de que quem recebeu muito tem o dever de devolver.

Cristiano Ronaldo levou para os negócios a mesma exigência que impõe no desporto. Rodeou-se de profissionais do mundo empresarial e aplicou-lhes a sua sagacidade, a sua inteligência e uma notável capacidade negocial.

O resultado é um universo empresarial vasto e diversificado. Na moda, a marca CR7 estende-se ao vestuário, ao calçado e às fragrâncias. Na hotelaria, nasceram os hotéis Pestana CR7, em parceria com um dos maiores grupos portugueses do sector. No desporto e bem-estar, os ginásios CR7 Crunch Fitness; na saúde, as clínicas Insparya; na inovação tecnológica, o desenvolvimento de equipamentos de treino e electroestimulação muscular como o SIXPAD.

Nos media, investiu no grupo que detém o Correio da Manhã e a CMTV, e lançou o seu próprio canal no YouTube, que bateu recordes mundiais de subscritores em poucas horas. No Funchal, o Museu CR7 recebe visitantes de todo o mundo. Em cada um destes projectos, trouxe para a gestão os golos de que continua a ter fome.

A maioria das pessoas olha-o pela lente da extravagância, porque desconhece o HOMEM que Cristiano Ronaldo é. Quem o conhece sabe que a fome de marcar golos ultrapassou há muito o normal. É essa fome, e não a fortuna, que explica a sua carreira.

A fava e o brinde

A Federação Portuguesa de Futebol não soube, mais uma vez, gerir este dossier. Faltou-lhe a capacidade de levantar a cabeça do seu “futebolês” e de assumir, a tempo, a responsabilidade que era sua.

Jorge Jesus, que tem um respeito enorme por Cristiano Ronaldo, dificilmente estará a roer a fava. Mas a presidência da FPF, essa, ainda não encontrou o brinde. Num bolo-rei mal partido, quem fica a perder é sempre a mesa inteira.

Um atleta que é um dos símbolos mais fortes de Portugal no mundo merecia mais coerência e mais respeito por parte de quem dirige o futebol português.

Obrigado, Cristiano

Felizmente, Cristiano Ronaldo é muito maior do que tudo isto. As polémicas passam; o que fica é a obra de uma vida e o nome de Portugal dito com admiração em línguas que não falamos.

Portugal deve-lhe muito mais do que golos e títulos. Deve-lhe uma nova ideia de si próprio. Um país pequeno, periférico, tantas vezes habituado a duvidar das suas capacidades, viu num rapaz do Funchal, nascido numa família humilde, a prova viva de que o trabalho, a disciplina e a ambição levam ao topo do mundo.

Para gerações de jovens portugueses, Cristiano foi a demonstração de que a origem não é destino. Nenhum discurso político, nenhum programa educativo, ensinou tanto sobre exigência e superação como o exemplo diário deste homem.

Para a diáspora, o seu nome foi ainda mais do que isso: foi uma forma de dignidade. O filho de emigrantes numa escola de Paris, de Estugarda ou do Luxemburgo, o trabalhador português na Suíça, no Brasil ou na África do Sul, todos puderam dizer de onde vinham com a cabeça levantada. Cristiano devolveu a muitos portugueses que partiram o orgulho que a distância, por vezes, lhes tinha roubado.

Foi, e continua a ser, o nosso maior embaixador. Abriu conversas, criou simpatias e facilitou negócios que nenhuma agência de promoção externa conseguiria. Quem trabalha lá fora sabe bem o valor que isso tem.

E carregou aos ombros a Selecção Nacional até ao primeiro grande título da sua história, no Europeu de 2016. Naquela noite, dentro e fora das fronteiras, Portugal foi um só povo. Poucos portugueses na história conseguiram unir o país desta maneira.

Por isso, este texto é, acima de tudo, um agradecimento. Obrigado, Cristiano, pelas noites em que nos fizeste acreditar quando já ninguém acreditava. Obrigado por teres levado a bandeira portuguesa a todos os continentes. Obrigado por nos ensinares que a ambição não é arrogância e que o sucesso, quando é fruto do trabalho, não tem de pedir desculpa a ninguém.

Um povo que não sabe agradecer aos seus maiores arrisca-se a não os merecer. Portugal tem o dever colectivo de reconhecer, em vida, aquele que é provavelmente o português mais conhecido de todos os tempos. A gratidão não se mede pelo último jogo, nem pela última polémica: mede-se pelo que alguém deu ao seu país ao longo de uma vida.

Em nome de tantos portugueses que, longe de casa, ouviram o teu nome como uma saudação, deixo aqui o meu obrigado.

Parabéns pela carreira, Ronaldo. Nunca é demais lembrar o nosso eterno campeão.


António Matias Lopes-Investigador urbano-FEUC/CES

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