MENSAGEMFoi há 30 anos. A Liberdade saiu à rua
Estes foram 30 anos estimulantes de transformação de um país rural, retrógrado, conservador, ditatorial, pluricontinental, num Portugal livre, democrático e membro de pleno direito da comunidade internacional.
Por Jornal Rostos
Ao olhar para trás, os que protagonizaram a liberdade ter-se-ão sentido realizados. Abriram as portas e o país soube corresponder.
Desenvolveu-se; libertou-se do isolacionismo e juntou-se à Europa mais moderna; contribuiu para a independência dos novos países lusófonos; implementou a democracia, a liberdade de imprensa, o Estado de direito, o poder autárquico democrático, a separação de poderes, o respeito pelos direitos do Homem e do ambiente; homens e mulheres ganharam estatutos de igualdade de direitos e deveres; os trabalhadores conquistaram um estado social; a educação, a habitação, a saúde e o trabalho passaram a constituir direitos universais constitucionalmente defendidos; liberalizou-se o divórcio; garantiu-se o acesso e o direito de escolha no planeamento familiar; ganhou-se direito de liberdade religiosa.
Desenvolveu-se uma impressionante rede de infra-estruturas de comunicação rodoviárias e de telecomunicações fixas e móveis; melhoraram-se as infra-estruturas portuárias, aeroportuárias e ferroviárias.
Os números da alfabetização e a escolaridade obrigatória subiram vertiginosamente, enquanto a mortalidade infantil descia para números de países desenvolvidos.
Portugal deixou de ser apenas um país exportador de mão-de-obra, para acolher centenas de milhar de pessoas que aqui buscam bem-estar para si e para os seus.
Tudo isto, todas estas transformações, conseguidas num assinalável clima de paz social, de civismo e de razoável respeito pelos valores mais nobres da nossa civilização.
Porquê, então, um crescente desânimo que se vem apoderando dos Portugueses, um cada vez maior desconsolo com o estado de coisas, que vivemos no dia a dia?
Porquê a sensação crescente de que, afinal não terá valido a pena?
Certamente, porque ao que faltará ainda alcançar, se vem juntando uma clamorosa deturpação dos resultados da prática democrática.
Faltará que o exercício da cidadania seja pleno e mais alargado; faltará que a justiça e a saúde sejam efectivamente céleres e eficazes. Faltará que o trabalho, a educação e a cultura sejam universais. Faltará o civismo que diminua a violência nas
estradas, a cultura de rigor e seriedade que impeça as pontes de cair. Faltará que o desenvolvimento do território seja universal e menos desiquilibrado do que é hoje. Faltará criar condições de atracção para as nossas elites académicas que continuam a contribuir para o desenvolvimento dos outros porque, entre nós, todas as portas lhe foram vedadas. Faltará modernizar a administração pública, modernizar as empresas, recuperar e valorizar o património construído e ambiental. Faltará limpar as chagas da violência sobre os mais frágeis, como o trabalho infantil,a violência doméstica ou a exploração dos imigrantes.
Estas faltas só serão, no entanto, colmatadas se todos usarmos o nosso direito de cidadania, ocuparmos o lugar que nos pertence e não esperarmos que outros o façam por nós.
Não podemos deixar que nos substituam nem que alguém assuma as nossas responsabilidades. Temos todos que participar, opinar, contribuir.
Temos que acreditar em nós, para nos orgulharmos do que somos capazes de fazer. Temos que fazer da política a prática da boa condução do povo; dos governos, o melhor dos melhores; da soberania dos cidadãos, a base do poder.
Não vale a pena culpar os outros pelas situações que lamentamos.
Não vale a pena incriminar os outros pela reprodução de situações de profundas injustiças sociais e de grupos excluídos; pela criação de novos caudilhismos locais e regionais, de contra-poderes perversos no campo económico e dos mass media; pelo reaparecimento do velho estado caduco, burocrático e ineficiente, ainda que procurando cobrir-se de novas roupagens; pela reintrodução de Portugal numa guerra agressora, que não responde ao flagelo do terrorismo e se transforma, ela própria, num outro tipo de terrorismo.
Se cada dia, todos nos tornarmos mais conhecedores, mais cultos, mais participantes, mais exigentes, mais empenhados, mais determinados, estaremos a assumir o nosso papel de cidadãos e a cumprir o nosso compromisso, inalienável, com a liberdade que transportamos.
Com todos, sem exclusões nem auto-isolamentos, é que pode construir-se uma sociedade melhor. Será um empenhamento longo, árduo, cheio de escolhos. Mas será, no fundo, a justificação da vida, da cidadania, da razão de ser.
30 anos depois do 25 de Abril esperamos, com ansiedade, o despertar da juventude de cada tempo, para continuar o que então inciámos. Com coragem, dignidade e generosidade. Com a persistência da sua vontade. Com o triunfo da sua inteligência e da sua capacidade. É um trabalho que nunca termina. Que não admitirá cansaços nem desistências. Que criará novos desafios, que exigirá adaptações e renovadas formas de participação. Mas cujo triunfo se medirá pelos pequenos triunfos do dia-a-dia, de cada um de nós.
Ficaremos então, nós os que somos do 25 de Abril, orgulhosos do que tivemos oportunidade de fazer. Porque os nossos filhos e netos, todos os jovens dos novos tempos, compreenderam o papel que têm que desempenhar.
Viva o 25 de Abril
Lisboa, Abril de 2004
Associação 25 de Abril













