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InferênciasAssembleia Municipal
PCP - muda de táctica e mantém estratégia?

Na última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro sobressaíram dois factos políticos que merecem reflexão – a ausência de intervenções por parte das Juntas de Freguesia, lideradas pelo PCP, e a ausência de dois eleitos do PCP ( o Presidente da Junta de Freguesia do Lavradio e outro deputado) que contribuíram para que se concretizasse a votação favorável do Relatório e Contas de Gerência de 2003.
O PSD perde protagonismo. O papel de “charneira” é assumido por Eduardo Cabrita.
6 min de leitura

Por António Sousa Pereira

Na realidade a questão central desta reunião da Assembleia Municipal era a análise do Relatório de Actividades da Câmara Municipal do Barreiro e Contas de Gerência de 2003.
Quem durante todo o tempo criticou a gestão autárquica e acusa o PS de estar a hipotecar o futuro do concelho do Barreiro, deveria, obviamente, no plano político, apostar forte nesta reunião, desmontando a gestão, criticando e impedindo com o seu voto a sua aprovação.
As Juntas de Freguesia poderiam e deveriam, naturalmente, como correntes de transmissão do PCP, que de forma permanente têm funcionado, ter feito desta Assembleia um momento importante para criticar as lacunas de gestão. Ficaram pelo silêncio total.
Na verdade, é, politicamente, inadmissível que uma força política tão critica como tem sido o PCP, tendo nas suas mãos a possibilidade de reprovar o Relatório de Actividades e Contas de Gerência de 2003, nesta reunião, ter perdido esta oportunidade política, de se demarcar claramente da gestão socialista.
Sem dúvida que o PCP votou contra, mas com a ausência de dois deputados, sabia, certamente, que dava ao Presidente da Assembleia Municipal as condições políticas necessárias para poder dar um sentido positivo à votação utilizando o seu voto de qualidade.
Foi acaso ?

Esvaziar o voto PSD

Será que os Deputados do PCP faltaram por acaso ?
A primeira coisa que todos sabemos é que, na sua actuação política, o PCP nada faz por acaso. O PCP não brinca em serviço.
O PCP ao manter em “casa” dois Deputados Municipais e ao serem feitas uma série de “substituições” à última hora, deixou claro que pretendia viabilizar o voto favorável e, simultaneamente, encostar o PSD à parede, retirando peso político ao seu voto.
O PCP votou contra, manteve as criticas, mas não quis ficar com o ónus de ser o “mau da fita”, da reprovação.
O PCP, afinal, foi a única força que votou contra, sem reprovar.

Dois PSD’s – Dois PS’s

Todos sabemos que na Câmara Municipal do Barreiro há um acordo político PS-PSD, portanto estes dois partidos assumem a gestão da autarquia.
Ora o PSD é co-responsável na gestão.
Também, por outro lado, sabemos que na Assembleia Municipal do Barreiro, o PSD porta-se, normalmente, como sendo Oposição.
Quer dizer o PSD é assim como a “Olívia Patroa”, na CMB, e, a “Olívia Costureira” na AMB.
E, aqui, na Assembleia Municipal do Barreiro o PSD usa o seu voto como sendo o decisivo, mesmo a abstenção, remetendo para o PCP o papel de “mau da fita”, pelo bem e pelo mal.
O PCP, descobriu esta fórmula, através da qual, não deixando de tomar as suas posições políticas, basta-lhe afastar dois deputados, e, desta forma, retira margem de “negociação política” ao PSD.
O PSD pode abster-se, pode votar contra, porque o seu voto não tem significado político de relevo.
O PCP com a ausência de deputados, se quiser, a partir de agora, vota sempre contra e remete para Eduardo Cabrita, Presidente da Assembleia Municipal do Barreiro, o protagonismo político, o peso político da decisão.
O PCP, vota contra, esvazia o PSD de Bruno Vitorino e remete para o PS de Eduardo Cabrita a avaliação.
Muda a correlação de forças. Divide e reina.

Deixar o PS governar

O PCP vem dizer que, em política, o que importa é a avaliação de fundo que faz da gestão socialista e que a partir de agora, demarcando-se sempre com o voto contra, não está obrigado a decidir com base nas opções do PSD e vai “deixar o PS governar”.
O PCP vem dizer que não aceita a política do PSD, de lavar as mãos como Pilatos, pretende desta forma dizer-lhe que deve ser corresponsabilizado pela gestão e sua “colaboração” com o PS.
O PCP diz, claramente, ao PS que a partir de agora, o PSD é só um, o de Mendes Costa, porque o voto do PSD na Assembleia Municipal do Barreiro poderá não ser decisivo.
O PCP assume protagonismo político aprovando, ou reprovando, quando entender. Ignorando o PSD.
Esta mudança estratégica do PCP, aliás, que emerge do próprio silêncio dos Presidentes das Junta de Freguesia lideradas pelo PCP, visa, essencialmente, separar as águas entre o PSD e o PCP, tirando ao PSD espaço de manobra e jogadas políticas, impedindo que o PSD tenha condições de continuar a fazer política com “pau de dois bicos”.

Mendes Costa reforçado

O PCP dá o seu “apoio” a Mendes Costa que desta forma fica com mais força política, a partir do momento que Bruno Vitorino, fica sem espaço de negociação para utilizar os seus votos.
O PCP deu um tiro no “porta aviões” e recordou ao líder social democrata que não é ele que decide as votações, é o PCP, mesmo que isto signifique dar protagonismo a Eduardo Cabrita.
O PCP desta forma tenta, igualmente, explorar eventuais contradições no seio dos socialistas.
Não esqueçamos que Eduardo Cabrita, Presidente de todos os barreirenses, esteve no jantar do 25 de Abril, promovido pelas Juntas de Freguesia lideradas pelo PCP.
E, igualmente, não podemos esquecer, que Emídio Xavier, Presidente de todos os barreirenses, marcou ausência nesse jantar.
Mas, não esqueçamos, igualmente, que o Presidentes de Juntas de Freguesia, lideradas pelo PCP, presidentes de todos os seus fregueses, estiveram ausentes do jantar promovido pela Câmara Municipal do Barreiro.

Atacar Emídio Xavier

O PCP ao querer dar protagonismo a Eduardo Cabrita e ao esvaziar Bruno Vitorino, dá sinais claros de quais as suas opções políticas.
O PCP está a dizer que “abraça” o PSD de Mendes Costa.
O PCP está a dizer que “abraça” o PS de Eduardo Cabrita.
O PCP está a dizer que não “aceita” o PSD de Bruno Vitorino.
O PCP está a dizer que não “aceita” o PS de Emídio Xavier.
O PCP procura dividir para reinar.
E, no meio de tudo isto o seu principal alvo é Emídio Xavier que poderá ficar obrigado a dialogar, exclusivamente, com Mendes Costa que fará a ponte com o PCP.
O PCP vem dizer que com Eduardo Cabrita consegue dialogar mas com Emídio Xavier é impossível.
A ausência dos deputados do PCP definiu a votação final e tem por objectivo “acicatar” os conflitos entre os socialistas.
As autárquicas estão a um ano e meio é preciso “rebentar” o PS e PSD por dentro, gerando novos protagonistas.
Portanto, como fica claro, nada acontece por acaso...

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