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Inferências

Virgílio - o último abraço a um amigo

Foi com tristeza e muita mágoa que recebi a notícia do falecimento de Virgílio Azevedo. Perdi um amigo.
Muitas recordações ocorreram ao meu pensamento. Momentos que vivemos em comum, sonhos que sonhámos, combates que assumimos.
2 min de leitura

Por António Sousa Pereira

Recordei que a última vez que nos cumprimentámos. Foi, no Parque da Cidade, na noite que se comemoravam os 30 anos de Abril.
Sempre nos respeitámos mutuamente. Ele nunca me apontou o dedo acusador.
Sempre respeitei as suas convicções. Ele sempre respeitou as minhas convicções.
Chegámos a trocar opiniões sobre as razões e as causas da minha ruptura. Ele não aceitava, defendia os seus pontos de vista, eu assumi os meus.
Os percursos diferentes que fizemos em nada, na verdade, abalou a nossa amizade, gerada em anos de luta, de respeito.
O Virgílio era um homem de convicções. Álvaro Cunhal era o seu ídolo.
Virgílio colocava acima de tudo e em primeiro lugar o seu partido – PCP – porque acreditava que a através da acção do seu partido e dos seus militantes, estava a contribuir para a construção de um mundo melhor.
Viveu para a política, nunca se serviu da política.
Admirei o homem, o militante, o amigo. Um homem honesto e íntegro que colocava a luta no campo das ideias e dos valores.
Abandonei o PCP, e, com este meu acto, alguns, que viveram da política e usaram a política, alguns que se arvoram em puristas, decidiram voltar-me a cara e apontar-me o dedo acusador, como se eles fossem o melhor do mundo.
O Virgílio, o meu amigo Virgílio, membro do Secretariado do Comité Central do PCP, nunca me virou as costas, sempre me cumprimentou com respeito e sempre soube, quando tal era possível, confrontar as minhas opiniões em diálogo, refutando com dignidade.
O Virgílio, sempre manteve a amizade com uma nobre virtude que une os homens, e, pessoalmente, senti orgulho nesse seu gesto.
Naturalmente, sei que o Virgílio sentia, claro que sentia, com mágoa, a minha ruptura com aquele que continuava a ser o seu partido e o seu ideal, que tínhamos partilhado.
Foi com tristeza que senti a perda deste meu amigo.
O PCP fica mais pobre. O Barreiro fica mais pobre.
Virgílio é um daqueles homens que fazem da política uma missão, um serviço, uma causa...um projecto de vida!
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